segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Momentos

XI

Faltava pouco para o dia clarear. Bebia o resto de uísque quente no copo. Olhar distante. O corpo inerte no chão. Mãos trêmulas empunhavam a faca debilmente.

Por quê?, pensava.

Do alheio...

mas quase próprio!

Que é pra ver se você volta,
Que é pra ver se você vem,
Que é pra ver se você olha,
Pra mim...
(Adriana Calcanhotto)

Diário Gerúndio

Cópia: s.f. Imitação desonesta de uma obra; plágio.

Perdendo muito tempo pensando naquele que levou A Piece of My Heart e nunca devolveu.

Querendo ser Simples.

Ouvindo Joplin, Jagger e, também, Gal. Sendo inconveniente sem autocensura. Sonhando com máquinas futuristas capazes de fazer voltar ao passado. Assistindo Barbarella.

Chorando pelo leite derramado sem nem gostar de leite. Resmungando sem cessar. Imaginando cenas fantásticas com diálogos incríveis que nunca terão a oportunidade de acontecer no mundo real.

Crendo. Sendo. Fazendo.

Esticando os últimos minutos da fantasia. Prometendo o impossível. Testemunhando o fracasso. Testando limites. Sorrindo sem motivo.

Aprendendo a viver.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Curtinha

Identificam-se claramente 4 grupos de pessoas nesse restaurante:

- As velhas de laquê, os velhos ricos, os bombados e as mulheres!
- As velhas de laquê não são mulheres?
- São, mas merecem uma categoria separada.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Normal e Medíocre ou Sofrendo?

Nunca foi tão difícil ser alguém perto dos olhos, mas longe do coração. Mentira! Sim, já foi. Mas o tempo cura todas as feridas. Parece que gente se esquece dos achaques e cisma de lembrar apenas das boas venturas.

A última dor sempre me parece fingida, irreal. Charme, sabe?

Ando, cada vez mais, dona de todos os clichês, das frases escritas em para-choques de caminhão, portas de banheiro e velhos ditados também.

Sentindo-me mortal.
Agora dói.
O problema é que tudo dói.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Curtinha

Pedido elegante do dia:

- Você poderia me deixar em paz, por favor?

É só uma fase...

Vai passar!

A lua entrando em áries e eu me transformando num porco-espinho mutante e radioativo. Perfeito para a ocasião. No quesito Lançamento de Espinhos à Distância: nota máxima. Habilidade nova e especial: brigar com a própria sombra.

Preciso, urgentemente, voltar aos hábitos salutares, mas não quero. Nem gosto. Academia, comida saudável, boas noites de sono, supermercado, banco, padaria e etc. Essa coisa de dia a dia que todos fazem. Essa rotina opressora e odiosa que, de repente, transforma-se em vida.

Vontade de ir-me embora pra Pasárgada ou pra um lugar onde haja um tobogã onde a gente escorregue. Sumir. Fugir. Ir e não vir. Pra não ver. Pra não sentir.

A convivência com os ternos cinza anda difícil, cansativa. Adaptação, é o que repito mentalmente todos os dias. O dia todo. À medida que eles transitam de um lado para o outro dando ordens, ditando regras, direcionando o - tão precioso - tempo para batalhas egocêntricas desprovidas de sentido, me encolho.

Sei que passa. Sempre passa. Aguentar até virar carne. Ou calcificar. É por aí. Mas enquanto isso. Alguém sofre no reino da sensibilidade exacerbada. E defende-se tal qual um porco-espinho mutante e radioativo.

sábado, 12 de outubro de 2013

Receita

Para esquecer um amor precisa-se de concentração. Deve-se evitar remoer histórias do passado. As fotografias têm destino certo: o lixo. Rasgadas, de preferência. Os presentes podem ser encaixotados até que o laço não exista mais e possam ser usados novamente.

Livros ajudam no processo também. Mas cuidado! Não é qualquer livro. Fuja de poesias. Prefira os técnicos, mas não muito chatos. Qualquer um que tenha for dummies no título, servirá.

Aprenda um trabalho manual que requeira atenção. Enfie miçangas numa linha com auxílio de uma agulha. Use uma linha muito fina, fácil de se romper. Você terá a chance de passar horas catando as miçangas no chão sem se distrair com qualquer pensamento indevido.

Não beba! A correlação da bebida com os telefonemas desesperados para o ex-amor de madrugada é altíssima, quase perfeita. Se necessário, utilize comprimidos e durma, durma, durma.

Faça faxina. A alma gosta de limpeza, o coração também. Limpe banheiros, armários, cozinha e tudo o que puder. Quando - enfim - terminar, recomece. Experimente limpar o rejunte da cerâmica usando uma escova de dentes, água e saponáceo. É relaxante.

Encontre um novo amor. Se for muito difícil, engane-se com uma pessoa qualquer fingindo que é um novo amor. Se, ainda assim, não conseguir, aumente suas possibilidades. Entendeu?

Essa receita é válida para amores em geral. Não sei se funciona para esquecer um grande amor. Não foi testada. Falta-me a experiência.

Foi naquela feira...

Eu não te contei, eu sei. Aquele bando de gente pretensiosa e eu lá no meio, tentando descobrir porque havia ido. Não disse o que fazia. Não queria ouvir conselho.

- Ahn? Fotógrafa.

Foi isso que eu respondi. Não falei da repartição. De mais nada.

- Não. Nunca, nem diário. Escrever nunca foi o meu forte, descobri nas aulas de redação no ginásio.

Mentira. O livro na sacola. Esperando algum editor. Não iria mostrar. Não ali. Autocrítica exacerbada desde nova. Ambiente estranho. Gente pedante. Será que nasceram assim ou isso é algo que você se torna depois da pseudo-fama?

- Claro, pode pegar essa cadeira. Não, não me importo. Até logo.

domingo, 6 de outubro de 2013

Pisando em Pantufas

Meu pai morreu cedo. Ou nos abandonou. Não sei. Mamãe nunca foi clara sobre isso. Criou-nos sozinha e nos ensinou a dar valor ao que tínhamos. Tentou, ao menos. Mulher dura, fria, impassível. Mas, também, generosa. Ela é difícil, mas tem bom coração. Essa é a frase que mais se ouve quando falamos dela.

Não fui uma criança agitada. Até desconfiaram que eu era autista nos primeiros anos. Vivia em meu mundo. Até hoje vivo um pouco isolada. Depois de um certo tempo tornei-me mais sociável. Fazia amigos facilmente e, da mesma forma, os abandonava. Relações interpessoais não são o meu dom nesta vida.

Adolescência normal. Normal demais. Todos os problemas, as dúvidas e as brigas que qualquer adolescente tem. Não tive o modelo americano da família feliz, tampouco um trauma devastador.

Nada explica essa tristeza, esse vazio, esse medo. Desconfiança perene de tudo e de todos. Nunca conseguir externar o que realmente sinto. Insegurança eterna. Não saber onde pisar, nem como pisar.

Por isso, evito a vida. Piso em pantufas. Escolho, todos os dias, não me arriscar. Não sofrer. Não tentar. Calço minhas pantufas para não deixar marcas no mundo.