segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Princesa desencantada

De traste em traste a gente acha o sapo, aí beija, pensando que vai virar príncipe e, no máximo, sai toda gosmenta do encontro.

Não, eles não se transformam, apenas se revelam. E, na maioria das vezes, em algo bem pior do que eram no início.

Cadê o cavalo branco das estórias que me contaram quando eu era pequena? Cadê meu sapatinho de cristal?

Não cresci escutando que, aos trinta, já teria terminado dois casamentos. Não, juro! Nunca ouvi que aos trinta e cinco já seria grisalha e me tornaria a velha louca dos gatos.

Quero o meu conto de fadas e quero já!

A minha oração

Pai nosso que está no céu (eu acho), me olha aí de cima e me dá uma força pra não fazer tantas besteiras, não dizer mais asneiras e atravessar o ano que está chegando sem essa preocupação absurda com o meu próprio umbigo.

Foi mal, eu sei, 2013 já foi pro saco e não rolou, admito.

Venha a mim no seu reino e me mostre que sou capaz de me doar, principalmente, àqueles que penso que nada têm a me oferecer.

Seja feita a sua vontade de me tornar plena, amorosa, acolhedora e, talvez, mais digna de me achar sua semelhante.

Quero sim, o pão de cada dia, mas também a Champa, o brie, a vitela e o circo. Porque sou simples, mas gosto de comer e beber coisa boa e preciso de cultura pra ser feliz. Não me olha torto, foi você quem me fez assim!

Perdoa a minha babaquice, mesquinhez, egoísmo, futilidade e coloca gente assim, ou pior, na minha vida pra eu aprender a perdoar os outros também. Ou, ao menos, ter paciência. Ou dizer não. Ou, então, me ensina de uma vez o que é que eu tenho que aprender com isso.

Não vou falar com o Senhor sobre tentações, ok? Esse assunto ainda é tabu. Quando superarmos, a gente discute.

E, por fim, livra-me do mal. Genérico. O que eu faço a mim mesma e o que é desejado pelo alheio. Mas deixa eu sentir esse mal de vez em quando, só um pouquinho, em doses homeopáticas, que é pra eu não ficar confiada demais.

Valeu!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O que dizer quando há tanto a sentir e quase nada a falar?

Calo-me.

Há muito que se foi o desespero e ficamos sós, os dois, esperando a derradeira despedida. Tal qual a música ou o poema que já não recordamos mais.

Fomos, assim, feitos um para o outro. Escolhidos para o amor. Encaixe de almas perfeito. Mas em tempo diverso. Caminhos que se cruzam e nunca seguirão juntos.

Segredos

Meu amor, porque me prendes?
Meu amor, tu não entendes,
Eu nasci para ser gaivota.

Meu amor, não desesperes,
Meu amor, quando me queres
Fico sem rumo e sem rota.

Meu amor, eu tenho medo
De te contar o segredo
Que trago dentro de mim.

Sou como as ondas do mar,
Ninguém as sabe agarrar,
Meu amor, eu sou assim.

Fui amada, fui negada,
Fugi, fui encontrada,
Sou um grito de revolta.

Mesmo assim, porque te prendes?
Foge de mim, não entendes?
Eu nasci para ser gaivota.

(Kátia Guerreiro)
Manuel farto do lirismo comedido, querendo ir-se embora pra Pasárgada.

Eu, sem nenhuma poesia, de saco cheio do jogo, pensando no Dr. Mierzwiak* como solução mágica para a vida.

*Dr. Howard Mierzwiak, dono da Clínica Lacuna, que lançou o revolucionário método para apagar memórias das pessoas. (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças)

L'amour toujours l'amour

Amor é bom. Ao menos, é o que nos ensinam desde que nascemos. Na prática, a história é outra. Tem amor que mata. Amor que dilacera. Destrói. Sufoca. Massacra. Enclausura.

Há quem pense que basta amar e tudo será perdoado. Não é bem assim.

Saber amar é um dom. Quem ama de verdade, no sentido estrito da palavra, deixa livre. Não cobra reciprocidade. Regozija-se com a felicidade do outro. Encoraja, mesmo que à distância. Contenta-se em saber que o ser amado está bem.

A gente só dá o que tem. Quem nunca foi amado dificilmente conseguirá amar alguém de forma plena, pura. Mas não é caso para julgar aquele que ama de modo enviesado. Perdoar é mais digno.

Perdoemos os que nos amam machucando-nos, infligindo sofrimento, incutindo culpa. São os que mais precisam de amor. E que eles nos perdoem também por não termos aprendido ainda a amar. Muito menos a demonstrar amor.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

E, de repente, quando você pensa que tudo já está definido, vem uma pessoinha autoritária, de 82 anos, te dizer que a vida não é assim. E te deixa sem entender coisa alguma só para, num segundo momento, te surpreender de maneira totalmente positiva.

(...)

O rapaz, por quem tenho leve apreço e venho declarando amor ultra-romântico, disse-me não. Um “não” categórico daqueles que não deixa pairar uma dúvida sequer. Sem explicações ou justificativas, apenas “não”.

Por quê?, pensei. Mas não muito, pois sei bem o porquê. No entanto, não significa que me conformei. Resolvi, então, demonstrar que a decisão dele havia sido precipitada, afinal, não me conhece tão bem e pode vir a se arrepender de ter me dispensado, assim, facilmente.

O que é amor próprio? Algo completamente desconhecido no meu Universo, não é mesmo?

Dado que o rapaz é pragmático, nada melhor do que uma explicação técnica, com fundamentação teórica, embasada em alguma estatística. Posto isto, enumero:

1 – Bom humor

Sou de riso fácil. Acho graça da vida. Aprendi a rir de mim mesma. Não sei contar piadas, isso é verdade, mas transformo minhas próprias histórias em esquetes de stand-up e em 95% do tempo (olha a estatística!) estou de bom humor.

2 – Refinamento

Sei me comportar, tanto no boteco, quanto na festa de gala. Visto-me bem, sei expressar-me com clareza e, quase nunca, envergonho o alheio. Tenho bons modos, como diria a minha avó. Uso-os, às vezes. Prefiro não revelar essa estatística.

3 – Ingenuidade

Creio. Creio. E creio. Acredito em tudo que me dizem, denotando, até, puerilidade. Talvez, patetice. Não tenho malícia. Não perdi a inocência. Beira o ridículo, visto que já passei dos trinta, mas ao mesmo tempo, pode ser encantador.

4 – Criatividade

No trabalho, no lazer, no ócio, na vida. Sempre criativa. 100% criativa! Dada às artes. Fotografia, teatro, literatura (ainda que chinfrim) e malabarismos na repartição.

5 – Resiliência

Mantenho o equilíbrio emocional. Passo por um arco-íris de emoções e sentimentos, porém torno à condição original em tempo módico. Sem exigir do alheio. Preciso, apenas, de uma boa noite de sono.

6 – Cachinhos grisalhos

Dignos e lindos! Não dá pra dizer mais nada sobre isso. Quem já viu, entende.

Depois de criar a lista, mostrei para o rapaz por quem tenho leve apreço e venho declarando amor além da vida. Ele riu. Disse que eram excelentes qualidades e que qualquer pessoa que me conhecesse encantaria-se comigo. Sugeriu, inclusive, que eu arrumasse um namorado, afirmando que gostava muito de mim e queria ver-me feliz.

Chorei copiosamente por vários dias. Sofri de verdade. Encontrei-o, novamente, dois meses depois, em uma festa de família. Família dele, que fique registrado. O seu irmão, meu atual namorado, nos apresentou. Eu quis rir, mas ele permaneceu sério.

Nunca mais falou comigo.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Tem gente...

Tem gente que é apenas um café na nossa vida. Se quisermos que sejam uma refeição, dá gastrite. Não vale a pena. Tem gente que é o almoço e tem quem seja o jantar também. Gosto muito de quem é sobremesa, não explicarei o motivo, acredito que não seja necessário.

Mas tem gente de todo o tipo. E essa gente cruza o nosso caminho. Não creio em coincidências. Penso que todos os encontros têm um motivo divino. Ou seria Divino? Não sei. Enfim, os encontros, é disso que quero falar.

Sempre achei que gente velha não fazia amigos. Tinha a ideia pré-concebida de que a fase dos amigos acontecia na infância e na adolescência. Então, por muito tempo, carreguei a bandeira da solidão.

Hoje, posso dizer, quebrei a cara!

As poucas amigas que tenho foram adquiridas recentemente, já na idade adulta, quando não esperava encontrar quem quisesse compartilhar qualquer coisa.

Elas são diferentes entre si. Completamente diversas, distintas. Dessemelhantes! Mas convergem em um ponto: amor pela minha pessoa. Gratuito e autêntico. Retribuído sempre. Demonstrado, às vezes.

Deparo-me com uma semelhança, que não ocorre entre elas, mas lhes é peculiar. Situações esdrúxulas levaram-nos à amizade. De todos os tipos. Indescritíveis, desculpem-me.

Esse texto tem o peso de uma mea culpa e a leveza de uma homenagem, ao mesmo tempo.

Se, às vezes, não estou próxima ou não sou acessível: desculpem-me;
Se, às vezes, não ouço ou pareço não me importar: desculpem-me;
Se, às vezes, exijo demais, desculpem-me!

Sou uma pessoa em construção, tenham paciência, mas por favor, saibam: Amo muito vocês!

Diário Gerúndio?

s.f. Imitação desonesta de uma obra; plágio.

Purgando sentimentos & recuperando a infância perdida. Esquecendo comportamentos inadequados. Livrando-me de amarras. Acreditando no futuro. Divertindo-me com o presente. Libertando-me do passado.

Defina loucura!

O rapaz por quem tenho leve apreço, mas venho declarando amor Byroniano, chamou-me de louca. Indaguei logo o motivo. Frases desconexas! – foi a resposta. Não esbravejei dessa vez. Admiti a loucura serenamente. Disse, inclusive, que fazia parte do meu charme.

A aceitação imediata do elogio (?) não significa, porém, que não me pus a pensar novamente no fato. Sim, tema recorrente, bem sei. Mas um momento de reflexão não faz mal a ninguém, sobretudo se vier acompanhado de um bom Cava e brie.

Loucura, por definição, é doidice, demência, insanidade, ato de extravagância ou de imprudência.

Neste exato momento em que escrevo sobre esse tema tão controverso para mim, meu vizinho escuta Habanera e canta com Maria Callas. Mas canta tão alto que incomoda até o gato. Isso poderia ser considerado um ato de extravagância e encaixar-se na descrição de loucura? Talvez. Eu, apenas, o julgo culto, visto que ouve ópera, jazz, blues.

Vez ou outra, danço sozinha em casa. Já tentei dançar com o gato. Mas ele não gosta de Sinatra. Extravagância? Insanidade? Ou excesso de felicidade? Enfim, não foi a dança que levou ao elogio. Voltemos às frases desconexas. Acredito, piamente, em espontaneidade. Tornemos a utilizar o pai dos limitados*. Ele diz: — Espontaneidade: em que há simplicidade, originalidade, naturalidade.

Posto isto, entendo que é óbvio dizer que sou simples, original e natural, portanto, espontânea. Digo o que penso sem rodeios. Outras vezes, não penso, sinto. E digo também! Expresso-me sem censura e com verdade. Mesmo que a existência da verdade seja limitada ao ínfimo momento de sua enunciação. Propago energia verbal.

Talvez o mundo globalizado, preso a padrões rígidos de conduta não admita esse tipo de comportamento. Há quem execre. Há quem, somente, se afaste. No entanto, na briga entre o azul e o amarelo – dizem – há espaço para todos. Então, deve haver quem goste também.

Assim creio. Assim, mantenho-me espontânea, original, simples, natural. Porque no meu ponto de vista, cometo sincericídios. Alguns engraçados, outros nem tanto. Mas loucura? Não, só aos olhos de quem enxerga o mundo em Preto & Branco.

*Burros, mas mamãe ensinou-me que devemos dizer: limitados. E aos sete anos fui apresentada ao eufemismo!

Curtinha

No aeroporto:
- Precisa passar de novo no raio-x, senhora. O que tem na sua bolsa?
- Livro, celular, cigarro, bala, uma 765 cromada...
- Oi?

Impagável, a cara do segurança. Im-pa-gá-vel!!!

Assassinato

A possibilidade de amor morreu. Não fui eu, juro. Acuso o Coronel Mostarda, na biblioteca, com a chave inglesa! Motivo? Falta de reciprocidade e excesso de rejeição.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Reminiscências

Todas as manhãs passo por um banco de praça a caminho do trabalho. O banco, sempre vazio, traz memórias de uma outra vida que ficou guardada em algum compartimento obscuro da minha mente.

Lembranças de dias quentes, roupas coloridas e piqueniques no parque. Recordações de um tempo em que as flores, que hoje enfeitam sua última morada, adornavam os meus cabelos e o caminho até a nossa árvore.

Saudade infinita dos seus olhos que tinham um olhar todo especial só para mim. Saudade da sua gargalhada, às vezes, inconveniente, mas sempre sincera. Saudade do seu toque macio e exato. Saudade da nossa vida.

Menino pândego, quem te deixou partir, assim, tão de repente?

Exagerada

Tenho julgado-me coxa. Claudicante. Manca. Falta-me equilíbrio no sentir. Oito ou oitenta!, ouvi por toda a vida. Chego, agora, à conclusão de que a frase reflete a realidade.

Tenho sido exagerada e dramática nas relações. Ando chorando, pelos cantos, a morte de pessoas vivas. Sublinhando a dor em poemas tristes. Relendo testemunhos de sofrimento, bilhetes suicidas (alheios, é óbvio), cartas de despedida.

Tenho vivido realidades inventadas nas quais, invariavelmente, morro no final. E ninguém vai ao meu enterro. Ou chora. Ou sofre.

Tenho escutado fados portugueses e lamentos árabes.

Tenho procrastinado os afazeres para lastimar o presente, o passado e ter pena de mim mesma, que não tenho futuro.

Tenho enrolado-me no cobertor e escondido-me no sono por horas e horas a fio.

Tenho ignorado as alegrias.

Toda mimimi

Supersensibilidade é algo inventado pelos seres extravida que não sentem o que deveriam, apenas inveja dos demais.

E daí, se sou sensível? E daí, se sou grossa também? Gente que chora não pode gritar? Gente que resmunga não sofre? Nunca li essas regras em nenhum manual de conduta humana. Se você acha que são válidas, crie o seu e coloque-as nele.

Tudo bem, isso pode não ser tão real, mas é um ponto de vista válido.

Era uma vez...

Era uma vez um menino doce que morava num castelo. Esse menino não tinha irmãos, nem convivia com outras crianças, pois só havia adultos no castelo. Os dias dele eram preenchidos pelas mais diversas atividades para que não sentisse falta de companhia ou brincadeiras.

Doce e azulado, assim ele era. De um azul tão claro que parecia fazer carinho em quem o olhava. Transpirava bondade, generosidade e compaixão.

Um dia esse menino tornou-se adulto. E permaneceu azul e doce. Simples e altruísta. Passou, então, a conviver com adultos de outra forma. De igual pra igual, pensava.

Mas o convívio agora era muito diferente do passado. Os adultos não o tratavam da mesma maneira, afinal ele continuara azul quando todos os outros tornaram-se cinza com o passar dos anos.

Aquele azul cintilante, que outrora inspirava calma, passou a irritar os demais. A docilidade os enojava. Eles eram cinza, amargos, ácidos, salgados, picantes. Nunca azuis. Nunca doces.

Sem entender o que acontecia, quis parar de brilhar. Sem sucesso, resolveu evitar o contato com o mundo cinza. Voltou para o castelo. Isolou-se.

Aos poucos, sem contato com qualquer outro ser, sua cor foi mudando. Entendeu, então, como deveria agir para ser aceito. 

Hoje, é quase todo cinza, pouquíssimo doce. Mantém apenas uma manchinha azulada, brilhante, que raríssimas vezes deixa ser vista.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Frase do dia

Leve-me ao seu líder!

Sempre perdida

Preciso de um GPS para a vida. Não é saber pra onde ir. Isso eu sei. Quero dicas de bons caminhos pra chegar lá. Também não é vida fácil. É só pros dias de preguiça.

Não sei olhar mapa. Perco-me após duas ou três voltinhas no meu próprio eixo. Lido com isso. Às vezes, vejo graça.

Essa falta de senso de direção já me rendeu ótimas aventuras. Descobrindo coisas, lugares e pessoas novas. Gosto e preciso do acaso.

Então, veja bem, esse GPS que falo é mais transcendental.

Serviria pra evitar entrar em roubadas afetivas, por exemplo. Porque de vez em quando a gente se depara com buracos negros emocionais e é imediatamente sugada pra dentro deles.

Sabe por quê?

Porque eles não têm placa. Não tem um caminho marcado como perigoso pra você desviar. Aí você segue a estrada tortuosa e se lasca todinha.

Mais ainda.  Dedicação pra amigos que não são tão amigos. Aposta em empregos maravilhosos que tornam-se verdadeiros calvários. E por aí vai...

É isso. Enfim, por preguiça ou inabilidade pra ler sinais, reivindico meu GPS da vida.

Sensação do dia

Nojo!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Aqui em casa a loucura reina e até o gato é bipolar!
Os caminhos que percorremos para chegar onde devemos, às vezes, são estranhos. Ou serão as escolhas?

Más escolhas, más escolhas...

sábado, 23 de novembro de 2013

Por que?

Por medo. Hábito. Comodismo. Retidão. Conformismo. Honestidade. Insegurança. Sensatez. Preguiça. Hombridade. Sim, por tudo isso. Mas falta de vontade? Jamais!

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Lista de pedidos para o Cosmos

Vai chegando o Natal e eu me encho de pedidos. Resquícios de uma boa infância com crenças em Papai Noel, Coelhinho e Fada do Dente.

Agora, toda adulta, acredito na força do Universo. Mas para personificar essa força, adotei o nome Cosmos.

Então, inicialmente, Cosmos, gostaria de deixar claro que não é uma lista definitiva. Portanto, se for atender, saiba que ela estará em constante mutação. Aliás, corrijo-me, deverá sofrer acréscimos. Vários!

1 - Ter paciência;
2 - Não ser inconveniente;
3 - Não dar vexame;
4 - Beber cerveja e Champagne e nunca ficar bêbada;
5 - Ser bem sucedida nas empreitadas;
6 - Gostar SÓ de quem gosta de mim;
7 - Amar o próximo;
8 - Não ser Ogra;
9 - Comer muito e não engordar;
10 - Gastar menos do que ganho;
11 - Ser uma linda!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A vida dos outros

- Ô glória!
- Glória?
- Claro! É bênção.
- Como assim? Bateu o carro!
- Mas não morreu. É graça divina!

Modo estranho de pensar. Deve viver feliz. Contenta-se com o que a vida traz.
Quisera eu ser assim. Porque falar é fácil, mas sentir? Ah! Aí complica.

Às vezes, parece que vivo com inveja dos outros. Mas isso não é verdade. Eu queria viver a vida dos outros sendo os outros.

Não quero o que é do alheio para mim, nunca! É tipo aqueles filmes em que as pessoas trocam de lugar, corpo ou personalidade.

Não sempre. De vez em quando. Pra testar. Pra lembrar que a minha vida também é muito divertida. E pra sentir como é ser o outro.

E nesse pensamento ou desejo louco entram bichos também. O primeiro seria o gato. Puro egocentrismo. Saber como ele se sente. Entender como ele me vê. No fim, descobrir se ele gosta de mim ou de sombra e água fresca.

Depois do gato, um desenho animado. De preferência um super-herói. Porque é realmente contraditório ter superpoderes, mas não decidir nada sobre a sua vida.

Pensando bem, isso talvez não seja tão incomum. Interessante, talvez.

Então, por fim, algum Santo desses bem populares. Desses que todo mundo faz promessa. Mas Santo, Deus não! Que além de apelação, não é ideia original.

Passar o dia inteirinho ouvindo pedidos, lamúrias e recebendo até propostas de renegociação de promessas. Pense!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Realidade?

Gostava mais do tempo em que não pensávamos em nada. Ou achávamo-nos invencíveis. Ou sentíamo-nos tão poderosos, Titãs modernos, que nada era impossível.

Essa sensação de fracasso iminente, impotência, possibilidade de desastre que nos ronda o tempo todo... Essa sensação não é boa.

Não mesmo!

...

Quase, quase, quase desisti hoje. Foi por pouco.

Resiliência dos infernos!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Me dê motivo...

De vestido branco, buquê na mão esquerda e óculos escuros. Ali, na porta da igreja, no último momento, decidiu fugir.

Correu para a rua ao ouvir os primeiros acordes. As portas já estavam abertas. Assim como a boca dos convidados ao assistir a noiva dar meia volta e correr para a rua chamando um táxi.

Alegria. A música do circo. Ela havia insistido. Ele preferia a marcha nupcial. Ela era moderna. Ele, clássico.

Opostos que se atraem, definiam os amigos. Amavam-se, isso era certo. Discussões bobas às vezes. Nenhuma briga séria. Nunca.

Por que, então, a desistência?

Porque sim. Porque nem tudo na vida tem de ter explicação.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Momentos

XI

Faltava pouco para o dia clarear. Bebia o resto de uísque quente no copo. Olhar distante. O corpo inerte no chão. Mãos trêmulas empunhavam a faca debilmente.

Por quê?, pensava.

Do alheio...

mas quase próprio!

Que é pra ver se você volta,
Que é pra ver se você vem,
Que é pra ver se você olha,
Pra mim...
(Adriana Calcanhotto)

Diário Gerúndio

Cópia: s.f. Imitação desonesta de uma obra; plágio.

Perdendo muito tempo pensando naquele que levou A Piece of My Heart e nunca devolveu.

Querendo ser Simples.

Ouvindo Joplin, Jagger e, também, Gal. Sendo inconveniente sem autocensura. Sonhando com máquinas futuristas capazes de fazer voltar ao passado. Assistindo Barbarella.

Chorando pelo leite derramado sem nem gostar de leite. Resmungando sem cessar. Imaginando cenas fantásticas com diálogos incríveis que nunca terão a oportunidade de acontecer no mundo real.

Crendo. Sendo. Fazendo.

Esticando os últimos minutos da fantasia. Prometendo o impossível. Testemunhando o fracasso. Testando limites. Sorrindo sem motivo.

Aprendendo a viver.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Curtinha

Identificam-se claramente 4 grupos de pessoas nesse restaurante:

- As velhas de laquê, os velhos ricos, os bombados e as mulheres!
- As velhas de laquê não são mulheres?
- São, mas merecem uma categoria separada.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Normal e Medíocre ou Sofrendo?

Nunca foi tão difícil ser alguém perto dos olhos, mas longe do coração. Mentira! Sim, já foi. Mas o tempo cura todas as feridas. Parece que gente se esquece dos achaques e cisma de lembrar apenas das boas venturas.

A última dor sempre me parece fingida, irreal. Charme, sabe?

Ando, cada vez mais, dona de todos os clichês, das frases escritas em para-choques de caminhão, portas de banheiro e velhos ditados também.

Sentindo-me mortal.
Agora dói.
O problema é que tudo dói.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Curtinha

Pedido elegante do dia:

- Você poderia me deixar em paz, por favor?

É só uma fase...

Vai passar!

A lua entrando em áries e eu me transformando num porco-espinho mutante e radioativo. Perfeito para a ocasião. No quesito Lançamento de Espinhos à Distância: nota máxima. Habilidade nova e especial: brigar com a própria sombra.

Preciso, urgentemente, voltar aos hábitos salutares, mas não quero. Nem gosto. Academia, comida saudável, boas noites de sono, supermercado, banco, padaria e etc. Essa coisa de dia a dia que todos fazem. Essa rotina opressora e odiosa que, de repente, transforma-se em vida.

Vontade de ir-me embora pra Pasárgada ou pra um lugar onde haja um tobogã onde a gente escorregue. Sumir. Fugir. Ir e não vir. Pra não ver. Pra não sentir.

A convivência com os ternos cinza anda difícil, cansativa. Adaptação, é o que repito mentalmente todos os dias. O dia todo. À medida que eles transitam de um lado para o outro dando ordens, ditando regras, direcionando o - tão precioso - tempo para batalhas egocêntricas desprovidas de sentido, me encolho.

Sei que passa. Sempre passa. Aguentar até virar carne. Ou calcificar. É por aí. Mas enquanto isso. Alguém sofre no reino da sensibilidade exacerbada. E defende-se tal qual um porco-espinho mutante e radioativo.

sábado, 12 de outubro de 2013

Receita

Para esquecer um amor precisa-se de concentração. Deve-se evitar remoer histórias do passado. As fotografias têm destino certo: o lixo. Rasgadas, de preferência. Os presentes podem ser encaixotados até que o laço não exista mais e possam ser usados novamente.

Livros ajudam no processo também. Mas cuidado! Não é qualquer livro. Fuja de poesias. Prefira os técnicos, mas não muito chatos. Qualquer um que tenha for dummies no título, servirá.

Aprenda um trabalho manual que requeira atenção. Enfie miçangas numa linha com auxílio de uma agulha. Use uma linha muito fina, fácil de se romper. Você terá a chance de passar horas catando as miçangas no chão sem se distrair com qualquer pensamento indevido.

Não beba! A correlação da bebida com os telefonemas desesperados para o ex-amor de madrugada é altíssima, quase perfeita. Se necessário, utilize comprimidos e durma, durma, durma.

Faça faxina. A alma gosta de limpeza, o coração também. Limpe banheiros, armários, cozinha e tudo o que puder. Quando - enfim - terminar, recomece. Experimente limpar o rejunte da cerâmica usando uma escova de dentes, água e saponáceo. É relaxante.

Encontre um novo amor. Se for muito difícil, engane-se com uma pessoa qualquer fingindo que é um novo amor. Se, ainda assim, não conseguir, aumente suas possibilidades. Entendeu?

Essa receita é válida para amores em geral. Não sei se funciona para esquecer um grande amor. Não foi testada. Falta-me a experiência.

Foi naquela feira...

Eu não te contei, eu sei. Aquele bando de gente pretensiosa e eu lá no meio, tentando descobrir porque havia ido. Não disse o que fazia. Não queria ouvir conselho.

- Ahn? Fotógrafa.

Foi isso que eu respondi. Não falei da repartição. De mais nada.

- Não. Nunca, nem diário. Escrever nunca foi o meu forte, descobri nas aulas de redação no ginásio.

Mentira. O livro na sacola. Esperando algum editor. Não iria mostrar. Não ali. Autocrítica exacerbada desde nova. Ambiente estranho. Gente pedante. Será que nasceram assim ou isso é algo que você se torna depois da pseudo-fama?

- Claro, pode pegar essa cadeira. Não, não me importo. Até logo.

domingo, 6 de outubro de 2013

Pisando em Pantufas

Meu pai morreu cedo. Ou nos abandonou. Não sei. Mamãe nunca foi clara sobre isso. Criou-nos sozinha e nos ensinou a dar valor ao que tínhamos. Tentou, ao menos. Mulher dura, fria, impassível. Mas, também, generosa. Ela é difícil, mas tem bom coração. Essa é a frase que mais se ouve quando falamos dela.

Não fui uma criança agitada. Até desconfiaram que eu era autista nos primeiros anos. Vivia em meu mundo. Até hoje vivo um pouco isolada. Depois de um certo tempo tornei-me mais sociável. Fazia amigos facilmente e, da mesma forma, os abandonava. Relações interpessoais não são o meu dom nesta vida.

Adolescência normal. Normal demais. Todos os problemas, as dúvidas e as brigas que qualquer adolescente tem. Não tive o modelo americano da família feliz, tampouco um trauma devastador.

Nada explica essa tristeza, esse vazio, esse medo. Desconfiança perene de tudo e de todos. Nunca conseguir externar o que realmente sinto. Insegurança eterna. Não saber onde pisar, nem como pisar.

Por isso, evito a vida. Piso em pantufas. Escolho, todos os dias, não me arriscar. Não sofrer. Não tentar. Calço minhas pantufas para não deixar marcas no mundo.

domingo, 29 de setembro de 2013

Coisas da Vida

Disse que não me queria. Entre um beijo e outro falou que não podia. Negou sentimentos enquanto tirava a minha roupa. Tentou permanecer frio e distante. Quase considerei possível. Não fosse aquele olhar terno ao me ver adormecendo em seus braços, acreditaria na farsa.

E assim você se foi. Saiu dos meus pensamentos, das minhas intenções. Mudou-se para qualquer lugar bem distante do meu radar. Resolveu me querer logo quando deixei de me interessar. As pessoas certas nas alturas erradas.

Preciso, agora, encontrar um novo objeto da paixão. Não vivo se não estiver apaixonada. Esse sentimento é tão necessário para a minha sobrevivência quanto o ar. Sem ele fico murcha, não crio, não existo.

Tenha uma boa vida, pensei, enquanto me dirigia ao balcão das paixões impossíveis. Sim, prefiro as impossíveis. Alimentam-me por mais tempo.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Da série Eu sei, mas..

Então, percebi que vou sentir sua falta. E, também, que aquilo que você falou sobre sentimentos não era verdade. Mas também não era mentira.

O Sol não brilha de forma diferente quando te vejo. O tempo continua o mesmo. As estrelas, a Lua... Tudo igual.

Mas esse tudo faz mais sentido quando você está presente.

A impossibilidade da ação. A imobilidade. O silêncio. Inércia que dilacera a alma. Sofrimento fingido de desejo sentido.

E você vai e vem. E não me diz nada. E me quer. E não arrisca. Joga e se diverte. Enquanto os astros se desgastam tentando fazer a conjunção ideal.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A minha história de amor

IV

Então, ele me traiu. Pior do que isso. Traiu e deixou que eu descobrisse. É! Deixou mesmo. Quem quer fazer escondido, faz e pronto. Ainda teve a audácia de brigar comigo, acredita? Falou que mexer em celular, revistar carteira e procurar mensagens suspeitas no notebook era invasão de privacidade, pode?

Fiquei perplexa duas vezes. A primeira, quando encontrei os indícios. Aliás, a confirmação. A segunda, com a briga. Invasão de privacidade uma ova! Terminou o namoro antes que eu pudesse rodar a baiana. O que só aumentou meu ódio, devo confessar.

Mas já tinha anotado todos os dados daquelazinha. E tinha planos de vingança... Sórdidos!

Passadas três semanas, o assunto ainda fervilhava na minha cabeça. Resolvi mandar um e-mail para a bonitinha. Marquei encontro pra conversar. Ah! Usando o endereço de e-mail dele, é óbvio. A pessoa é tão banal que esqueceu de trocar a senha.

Enfim nos encontramos. Eu, toda digna, cara a cara com a perua. E não é que a vagabunda era bonita mesmo?

Não gritei, nem fiz o barraco que estava pensando. Ela tinha uma voz tão doce, tão suave. Um jeito especial que parecia entender a minha dor. Conversamos por horas a fio. Até compreendi porque ele havia me traído. Ela era realmente especial.

Essa é a minha história de amor. A mais bonita história de amor de todos os tempos. Estamos juntas há quinze anos.

Descrença

Deixa de existir no momento em que paro de insistir. Romance inventado, amizade imaginária, relações com o vento.

Tento ser brisa, mas nasci furacão. É necessário distanciar-me. Mas a origem me atrai.

Nada dilacera, destrói ou enerva. Tempo de observar não é tempo de sentir. Cada coisa em seu lugar.

Sofrer para quê? Não é isso que farei em meu destino final? Ou você pensa que seu último endereço não será o inferno?

Sim, acredito em inferno e sei que encontrarei todos que conheço por lá. Lei do retorno, meu bem.

Só existe o tempo. As horas, os minutos, os segundos e o momento. O momento exato em que paro de insistir.

Então,  não há mais nada.

domingo, 15 de setembro de 2013

A minha história de amor

III

Parece que depois que a coisa engrena fica ainda mais banal. A gente mal se compromete em uma relação e ” pluft” o cérebro desaparece.

Cinema, pipoca, restaurante da moda, programas culturais, mensagens ao acordar, ligações intermináveis madrugada adentro.

Horas e horas e horas de “desliga você primeiro. Não, desliga você!”

Casa dos pais no domingo, viagens, Natal em família “uma vez com a minha, outra com a sua”, restaurante barato, sexo morno, DR madrugada adentro.

Horas e horas e horas de ” Foi você! Não, foi você!”

E mesmo assim é lindo. Porque é amor. É uma história. A minha história que, aliás, ia muito bem até pintar o terceiro elemento.

Por que, diabos, quando tudo está dentro da normalidade ocorre sempre um fato trágico?

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Saudades

Ontem dancei sozinha em casa até às quatro da manhã. Foi ótimo. Ritual de banimento, sabe? Pra espantar o que estava dando errado.

Lembrei de quando fazíamos isso juntas. Eu era tão pequena. Você me pegava pelos braços e rodopiávamos pela sala até cairmos exaustas no chão. 

Naqueles dias você ainda não tinha sido acometida pelo cansaço e pela doença, então brincávamos até amanhecer. A sombra da morte não nos espreitava.

Era o tempo em que pensava que você duraria para sempre. Ou mais um pouco. Não sei. Acho que nem pensava nisso.

Então você se foi. Deixou-me sozinha. Partiu antes de me ensinar a me maquiar, me vestir e me comportar como mocinha.

Não teve tempo de me explicar como seriam os meninos, a vida e as escolhas. Não disse que de onde vem o riso, também viriam lágrimas.

Restou essa lembrança. Essa lembrança que não é real, mas poderia ser...

domingo, 25 de agosto de 2013

Idiossincrasias

Sim, é delas a culpa da paixão. Esse seu jeito de dobrar a pontinha do lençol antes de deitar e virar o travesseiro. Secar a pia sempre. Não deixar sapato virado. Colocar os pronomes nos lugares certinhos e usar mesóclise.

Esse conjunto de manias que pros outros é um transtorno. Tem nome feio e tudo.

Essa mania de me amar sempre. Não importa hormônio, mal humor, sono. O seu amor está ali. Presente. Preenchendo a casa. Despertando meu sorriso. Fazendo-me feliz.

Essa é a minha mania. Ser feliz por ser amada por você. Sempre.

domingo, 18 de agosto de 2013

A minha história de amor

II

O moço da sombrinha ocupou meus pensamentos por uns bons dias. Maus também, confesso. Diálogos imaginários eram o meu novo passatempo.

Imaginava o que poderia dizer a cada ato meu. Mas ele não dizia nada. Era apenas um moço na chuva desaparecendo no retrovisor.

Isso até aparecer com uma fatia de melancia e dois garfos na barraca de frutas que fica embaixo do prédio em que trabalho.

Sim. Exatamente desse jeito. Colocou a fruta na mesa e empurrou o garfo na minha direção. Dei um pulo da cadeira, tamanho o susto.

- Tem medo de melancia também?
- Não, alergia.

Riu e pediu outra fruta pra mim. Recusei, satisfeita.

- Você é sempre assim, difícil?
- Não, só com gente que come melancia.

Pediu abacaxi. Dei meu telefone na hora. Afinal, gente que come abacaxi após o almoço é, definitivamente, confiável.

Antes que eu pudesse pegar o elevador, uma ligação. Sorri sem motivo. Atendi o número desconhecido dizendo sim para todas as possibilidades de amor que povoavam minha imaginação.

- Não, obrigada, eu não quero um cartão de credito!

Por que, diabos, eles levam tanto tempo pra ligar depois que damos o telefone, hein?

A minha história de amor

I

Eu preciso escrever uma história de amor. Dessas com começo, meio e fim. Aliás, a minha história de amor. Que teve tudo isso e foi linda.

Difícil começar. Talvez pelo dia em que nos conhecemos. Mas isso é tão banal. Todas as histórias começam pelo início. Assim, sem-graça. Assim, banais. A nossa história, que foi a mais bela que houve até hoje, deveria ter um princípio especial. Ao menos, no papel.

Mas não escrevo em papel. E não tenho como retroceder no tempo para apagar os fatos e fazê-los magníficos.

Foi uma chuva. Ou um guarda-chuva. Rolou no chão com o vento. Bateu em meus pés. Ele veio correndo apanhar. Desculpou-se. Ofereceu-se para me levar ao carro protegida da chuva. Tenho medo de sombrinhas, respondi, já encharcada. Isso não é uma sombrinha, é um guarda-chuva, corrigiu-me.

Tenho medo, mesmo assim. De guarda-chuva. De gente carrancuda. De sim e de não. Ser indiscreta ou forçar intimidade. Cachorro preto. Escuro. Ficar louca. Solidão. Fantasmas. Terremotos. Ternos cinza. Dias calmos. Tenho medo.

Muitos medos, observou. E de café? Perguntou sorrindo. Café, eu gosto, respondi rápido ansiando por um convite. Que bom, disse, acabando com as minhas esperanças. Perguntou-me se eu tinha telefone ao me deixar no carro. Respondi-lhe que sim e parti.

É o tipo de coisa que não se faz, sabe? O arrependimento chegou segundos depois. Mas não voltei. Não voltaria. A cena valia mais do que a ligação.

Cê jura?

Y - E aí, menina como estão as coisas?
X - Bem. Quem é?
Y -  O Y do passado distante. 
X - Ooooi! 
Y - O que está fazendo?
X - Coral e teatro mais cedo. Agora vinho e internet.  E vc? 
Y - Eu tomava vinho com a minha ex de Cidade Distante e a gente se via na cam...
X - Namoro virtual? 
Y - É... 
X - Bah..
Y - Às vezes, é bom.
X - Verdade. Às vezes, é só o que se tem.
Y - É mesmo. E quando ela bebia vinho, ficava animada e safada.
X -  Olha só... Que inédito! 
Y - Você já fez sexo virtual? 
X - Meu filho, tem dó. Procura outra!!!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Estranhezas do gato

Igor pula no meu colo, me arranha,  lambe, morde minha cabeça, mia, ronrona, se joga no chão, rola, me ataca e começa tudo outra vez.

Não sabe se quer briga ou carinho. Uma falta de habilidade absurda pra expressar sentimentos, vontades, intenções.

Onde será que esse gato aprendeu isso?

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Que Rei Sou Eu?

Arrasto-me pelo chão fazendo companhia para as baratas que correm enlouquecidamente de um lado para o outro. Estão em festa com as sobras deixadas por todos os cantos.

O fedor de resto de bebida dos copos mistura-se ao cheiro de cigarro e cinzas tornando o ambiente quase insuportável. Quase.

Eu suporto. E suportarei até o fim.

Já não faz mais sentido levantar-me. Quem se acostuma com a podridão, nela reina e não abdica de seu trono.

Pudesse eu, ver como vêem os outros. Mas não. Abjeto, não enxergo bondade. Não reconheço compaixão. Seres humanos. Raça desgraçada sem serventia.

Pertenço ao grupo, bem sei. Diverso apenas na visão. Erguer-me para quê? Pairar sobre a escória? Não. Junto-me a ela. Mas comando com maestria.

E você?

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O nome do jogo

Sílvia Santos. Sim, homenagem ao figurão da TV. Simplesmente sórdida para uns. Só suspiros para outros. Selvagem, surpreendente e, sempre, sexy.

Sol em Sagitário. No oriente, serpente. Sinceridade combinada com sabedoria.

Não sofre. Sabe viver. Quando só, sôfrega. Se acompanhada, sacia-se.

Às vezes, sensível. Outras tantas, seca. Suporta a dor e dá suporte ao amor. Solitária, é o que vêem, Segura, é o que sente.

Santa? Nunca!
Sacana, talvez.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Matemática do Amor?

Não queria envolvimento. Mantinha a mensalidade do clube dos solteiros sempre em dia. Fazia troça dos amigos que manifestavam publicamente qualquer tipo de compromisso.

Aliança? Não, grilhão.
Era assim que chamava.

Conheceram-se por intermédio de amigos. Destacaram-se da turma na primeira noite. Ele ensinou-lhe a casualidade, ela mostrou-lhe o romantismo.

Em duas semanas, suas convicções desceram ralo abaixo. Marcou encontro em restaurante fino, levou anelzinho, jurou amor.

Ela, muito sem jeito, fez um gráfico num guardanapo de papel e traçou retas para explicar a diferença  de sentimentos no horizonte de tempo. Terminou o vinho sozinha. Até hoje, não entende bem o que aconteceu.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Miss you

Não gosto de agosto.
A gosto ou ao gosto, talvez. 
Agosto, nunca.

Mãe, tá me vendo aí do céu? Porque nessas horas de saudade, acredito em céu. Aliás, em tudo. Deus, fadas, duendes e, principalmente: mãe que cuida da gente lá do céu.

Veja bem, cuidar não significar vigiar, ok? Posto isto, reforço que preciso de momentos de solidão. Reduntante, eu sei, mas a gente sempre foi assim, né?

Olha, o que acontece é o seguinte: aquelas coisas que guardei pra te falar ao vivo estão entaladas aqui até hoje. Bem sei que, mentalmente, já te contei, mas não funciona assim. 

Então, de vez em quando, pede um voucher de internet pro maioral e dá uma olhada no meu blog. Te deixo uns recados por aqui.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Confiança

Cenário: Jurassic Park
Ação: T-Rex perseguindo Pterodáctilo.

Diálogo:

- Eu não quero te comer, só queria você perto de mim.
- Tenho medo. Você não é confiável.
- Por que? Eu te amo. Juro!
- Instinto...
- Não é assim, juro.
- Podemos ser amigos?
- Podemos ser o que você quiser.

Ação: Pterodáctilo pousa no chão e passa a asa na perna do T-rex simulando um abraço.

Blecaute

Ação: T-rex sentado. Arrota. No chão, ossinhos de Pterodáctilo.
O sagrado e o profano convivem bem até a gente desenvolver essa porra de autocrítica.

#quero

Jardim verde. Cheiro de terra molhada. Ideia fantástica. Amor além da vida. Colo eterno. Sorvete da Casa Doce. Milho verde. Viajar de carro sem destino. Casa arrumada. Cheirinho de Comfort. Cafuné. Emagrecer. Ser Diva! Sono profundo. Gostar de alguém. Vinho que brote na geladeira. Massagem nos pés. Queijo cottage. Cerejas frescas. Ser compreendida. Voltar pra terapia. Fazer acupuntura. Ser plantonista do CVV. Não ter mau humor. Acordar sem despertador. Banho de ofurô. Resgatar bichos na rua. Ler pra velhinhos em asilo. Gostar de cebola. Saber me comportar. Banho de chuva. Ser correspondida nas relações. Lembrar. Céu azul. Ver coelhos na lua. Sexo selvagem. Sombra, comida e água fresca. Havaianas de todas as cores. Acampar. Ver o melhor nas pessoas. Lírios que não morram rápido. Mais massagem nos pés. Cerveja que não engorde. Parar de fumar. Jipe amarelo. Dar certo na vida. Sopa de letrinhas. Frutas vermelhas. Caribe. Engessar o pé. Curar a gripe. Enxergar melhor. Ser altruísta. Andar descalça na areia. Ser uma linda.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Indo...

ou voltando.

Aeroportos me deixam melancólica. Trânsito e falta de definições também.

Descansei tanto que cansei.

Cadê casa? Cadê gato? Cadê espaço?

Tem faltado eu dentro de mim. Pura preguiça. Não quero a história de ninguém. Nem a minha. Indolência, sabe?

Daqui a pouco passa.

Scarlett!

Amanhã..

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Porque hoje parece domingo...

7 razões para ter uma calça de pijama com bolsos:

1 - Sensualizar na cama com o boyfriend, fazendo a "casual";
2 - Ter proteção sempre à mão;
3 - Guardar um hall's para o beijo matinal ser mágico;
4 - Ir pra balada com ela e ninguém desconfiar que é um pijama;
5 - Levar o cigarro e o isqueiro escondidos pra fumar na escada do prédio;
6 - Não perder o controle remoto na cama;
7 - Acordar no meio da noite com fome e ter aquela bolachinha pra resolver;


terça-feira, 16 de julho de 2013

A gente quer o impossível e teima em querer que seja uma possibilidade.

Constatação

Falando com uma amiga de longa data sobre Fernando Pessoa e seu Poema em Linha Reta descobrimos que nós, meras mortais, já levamos muita porrada na vida. Assim como outros, talvez. Mas assumimos.

A diferença é que não contamos apenas histórias de superações. Nem nos perdemos em discursos pobres sobre mazelas. Apenas levamos uma vida comum.

É engraçado ver como os sonhos de transformar-o-mundo-ser-rica-e-famosa tornam-se os sonhos de acordar-no-dia-seguinte-e-ter-forças-pra-trabalhar-e-sobreviver-com-alegria-e-simplicidade.

A vontade de "deixar um legado" vira o "querer ser feliz sem incomodar ninguém".

O grande pavor de ser um gênio incompreendido desaparece, dando lugar ao medo de escorregar no banheiro e ser encontrada morta, num apartamento, três dias depois do ocorrido.

A fatalidade tem me rondado nos últimos meses e eu, reles pessoinha, tenho pensado no que fazer da vida. Assumir. Assumir tudo é o que me vem à cabeça.

Consertar o que consigo, mudar o que dou conta de sustentar, mas, principalmente: aceitar meus erros, pedir desculpas e seguir aprendendo. Admitir as fraquezas sabendo que são momentâneas, ou não.

Ser verdadeira e digna.

Acho que é isso.

"E tô achando bom, tô repetindo que bom, Deus, que sou capaz de estar vivo sem vampirizar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou criativo e até me divirto e descubro a gota de mel no meio do fel. Colei aquele “Eu Amo Você” no espelho. É pra mim mesmo! "
(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

sábado, 6 de julho de 2013

Momentos

X

Liguei pra lhe dizer:  - Olá, como vai? Para ouvir sua voz sempre educada, firme, responder: - Bem, muito obrigado. Nem queria saber da sua vida ou das novidades em seu trabalho, apenas me fazer presente.

Você foi o assunto da manhã. Desmancharam-se em elogios. Fiquei toda orgulhosa e com algum ciúme. Permaneci em silêncio, mas senti saudades.

Lembrei-me do seu jeito doce incentivando-me a falar mais e mais sobre meus planos mirabolantes para conquistar o mundo. Lembrei-me dos seus olhos que, quando pousavam nos meus, pareciam sorrir. Lembrei-me do silêncio constrangedor quando nossas mãos se tocaram, quase sem querer, e sabíamos que não podíamos.

O telefone chamou por diversas vezes até não tocar mais. Ficou mudo assim como você ficou quando lhe pedi pra não gostar de mim do jeito que eu gostava de você.

Foi aí que percebi que você já havia se despedido há muito tempo. Entendi a distância, a ausência. Sofri com certo atraso e o que não tinha nexo fez sentido.

O rádio que toca dentro da minha cabeça sintonizou uma estação brega que executava canções de amor com finais tristes. O locutor contava histórias de desamor dos ouvintes e mandava mensagens de apoio,  perseverança.

Será que se condoeria ao ouvir a minha? Ou simplesmente diria que é uma questão hídrica? Mania de fazer tempestade em copo d’água.

Pudesse eu desligar esse rádio, pensei, enquanto ouvia Ana Carolina perguntar mais uma vez em qual rua a minha vida vai encostar na tua.

Mas não. Não é possível desligar nada. Só sentir. Até esquecer. Até emudecer.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

... e hoje é o Dia Internacional do Pronto Falei Tirei um Peso das Minhas Costas!

Para onde foram as boas ideias?

Desisti, enfim. Como desisto todos os dias e também diariamente recomeço.

Drosophila Melanogaster, a antiga mosca da fruta. Foi isso que apareceu. Ah! Junto com uma tremenda dor de cabeça, é claro. Duzentos cigarros. Água, muita água. Diversas vezes interrompida pela mosca mental.

Por que, Deus, eu não consigo ter uma ideiazinha sequer? Fecho os olhos, respiro fundo, vejo uma tela negra com letras garrafais brancas. Não está nítido. Permaneço assim por um tempo. Concentro-me em decifrar a mensagem. Drosophila Melanogaster, é o que está escrito.

Nova pausa. Volta olímpica pela casa.

Imagino, então, merecer a medalha da corrida quarto-cozinha-com-obstáculos. O isqueiro sumiu. Acendo os cigarros e queimo os cílios no fogão enquanto perscruto o ambiente em busca de inspiração.

Manual técnico de tortura para principiantes: Capítulo 63 - Como obter a verdade e nada mais que a verdade de um escritor?
1. Faça-o pensar que tudo já foi escrito, lido, representado, feito, mostrado, visto, aplaudido.
2. Quando ele entender que não há nada novo a ser dito, coloque-o sentado em frente a um computador, com as mãos livres e peça um texto.
3. Tela branca, cursor piscando, piscando, piscando...
4. Acrescente crueldade e diga que o tema é livre.

Outro cigarro. Achei o isqueiro. Ahá! Uma fagulha de sorte... o jogo vai virar.

MmMmMMHoHAOahoAHahahahHAHAHaH (onomatopeia ridícula para risada maligna)

Ou não. Estava vazio.

Quem dizia Oh vida, oh azar? nos desenhos animados? Estou com essa sensação como coisa real por dentro e plagiando Pessoa descaradamente como coisa real por fora. Dentro do carro havia um isqueiro, havia um isqueiro dentro do carro. Imitação chinfrim daqueles que admiro.

Ao menos a Srta. Melanogaster se foi. Dizem, os entendidos de insetos, que a vida delas tem duração curta. Assim, penso que Drosó morreu. E não vai receber honras fúnebres, nem mesmo mentais.

Que fixação dos diabos em insetos! Para onde foram as personagens e suas histórias?

Era uma vez...

Era uma vez um escritor que queria-porque-queria começar um texto com era uma vez. Eu também queria. Mas não consigo. E termino por aqui, afirmando que foram felizes para sempre!
Sobre todos aqueles que ainda continuam tentando, Deus, derrama teu Sol mais luminoso.
(Caio F.)

Eu, o porco e a expectativa...

Recuso-me a acreditar que não vou aprender isso nunca. Mais uma vez a vida me mostra que devo criar porcos e contentar-me com o bacon. Mais uma vez, fiz planos, criei expectativas e fiquei com fome.

Minha incapacidade de ler sinais passa dos limites. Pode-se, inclusive, dizer que é patética. Patética, também, é a mania de fazer tempestade em copo d’água. Patética é a autocensura. Tudo é patético.

A questão, que às vezes é ínfima, toma uma proporção descomunal. A coisa desanda num efeito dominó. Por quê? Porque não falo, sou dada a grandes dramas e não gosto muito de ser contrariada. Ok, Mea Culpa.

Mas, além disso, acho que hoje em dia as pessoas não veem mais importância em respeitar os outros, honrar o que dizem e muito menos em ouvir, conhecer, entender alguém de verdade. Culpa alheia.

Tudo é coisa que dá e passa, eu sei. Mas tem uns lances que não precisavam dar, sabe? Mágoa está nessa categoria. Envenena, entristece e ainda custa a passar.


Os sapatinhos no armário, bem lá no fundo. Aqueles mesmos de quando cheguei. Calcei hoje. Pensei que não serviriam. Que bobagem, não? Pés não crescem mais depois de uma certa idade.

Enchi a mala com tudo que tinha. Roupas, objetos pessoais, fotos, uns utensílios de cozinha e até um pouco de comida. Só ficou de fora a dignidade, porque perdi há tempos.

Peguei meus pertences, meu olho roxo, minha desilusão e parti.

Dessa vez, para sempre.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Das relações

A gente tem essa relação bolha de sabão. Linda, leve e frágil. Sustenta-se no ar por um tempo, mas tem rompimento predito.

Brilhe e vá pra bem longe de mim bolhinha, que já estou farta de fracassos. Suba e suma. Infernize a vida de outrem com sua beleza delicada e quebradiça, flutuando sem rumo.

Construímos castelo de areia na beira do mar. Bem sabemos que será levado pelas ondas. Ainda assim, insistimos. A água apagará o fogo.

Deixe-me só, que dos meus restos sei cuidar. Parta logo. Feche a porta. Apague as luzes.

Cronos se encarregará de extinguir seus vestígios.

Sem novidades no front

Às vezes acordo cinza. Triste. Vazia. Fria. Não há sol no universo capaz de me aquecer. É a falta de algo que nem sei o que é. Saio pelas ruas e nada me satisfaz.

Parece que tudo já foi feito, visto, escrito, falado. Vivo a cópia da cópia da cópia.

Sem novidades. Cem esperanças mortas.

O livro da vida não tem páginas em branco. Repetição exaustiva.

Não penso, nem existo.




Eu tive um sonho ruim...

 e acordei chorando.
 Por isso eu te liguei.
 Será que você ainda pensa em mim?
 Será que você ainda pensa?


Na terra do coração

Caio Fernando Abreu

Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.

Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se p6os. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.

Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.

Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.

Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu.
Silêncio. As vozes estão todas caladas. Ninguém me conta uma história. Nada. Não se ouve nada.

Depois de tanto pedir, enfim, atenderam.

Arrependida, fico quieta, calada. Esperando qualquer sussurro.

Nada.

Elas não dizem nada. As vozes foram silenciadas.

Devo viver em paz, ele diz, tal qual os outros vivem.

Quem quer ser igual aos outros?, pergunto.

Onde estão as vozes?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Zaz

Je Veux d'l'amour, d'la joie, de la bonne humeur
c' n'est pas votre argent qui f'ra mon bonheur,
moi j'veux crever la main sur le coeur

Em casa alheia...

Eles são muitos e estão em todos os lugares. Agitados, barulhentos, calmos, silenciosos. Chegam em horários diversos e revezam-se à mesa. A porta está sempre aberta.

Conversam de modo randômico, juntos ou de forma paralela. Os assuntos são os mais variados. De liquidação de sapatos à utilidade da Sequência de Fibonacci. Trocam roupas, presentes, farpas e afagos.

Foram separados, estão casados. São juntados, viúvos, apartamentados, abençoados por mãe de santo ou bispo evangélico. 

Têm filhos. Muitos filhos. E terão mais.

São simples e recebem bem. Comentam sobre a recente graduação em Oxford, férias nos Hamptons com o mesmo entusiasmo que cantam parabéns para a secretária e planejam o happy hour no churrasquinho da esquina.

Aqueles que estão distantes também participam. Na contramão da modernidade, eles se valem da tecnologia para manter os laços e conservar a tradição.

Eles são queridos, atenciosos e, além de tudo isso, cozinham bem. Reúnem-se às quartas-feiras, no horário do almoço, para um bate papo ameno. Foi o que li no convite.

Celebração da vida. Simpatia. Diversão. Foi o que presenciei.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Pérolas aos porcos

"Tem gente que é apenas um café na nossa vida, não queira transformá-los em um jantar".

Adoro ouvir conselhos, mas seguir...

Enfim, entre tropeços e recomeços vou trocando as refeições e fazendo confusões. Viajando sem rumo, gastando poesia, economizando alma. Resguardando o corpo, desgastando a mente, remendando o coração. Lendo Caio, ouvindo Rô Rô, comendo fritura, bebendo água tônica.

"O trabalho dignifica o homem". O que dizer, então, da procrastinação? "Correr atrás do prejuízo". Isso sim, conheço bem. Pressão e prazo andam junto com o arrependimento e não existiriam se eu soubesse dizer não.

Mas não é isso. Me enrolo. Me distancio. E começo frases com pronomes pessoais do caso oblíquo e conjunções adjetivas. E esqueço os porcos com suas pérolas. Por quê?

É tão óbvio que só de pensar em explicar, me canso.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ainda me espanto com a vida e com as pessoas. Acho isso incrível. Não tenho a ilusão de já ter vivido tudo, mas somos bombardeados por emoções, sensações, fatos, de uma forma tão absurda e cruel, que o espanto virou luxo.

Banalização do todo? Do ser? Do eu?

Doeu. E dói. No começo dói. Mas passa. Calcifica. Vira rotina. Arroz-com-feijão.

Mas hoje não é dia de lamúrias ou autocomiseração. Hoje é o Dia Internacional da Fofice Alheia. Dia de perceber aqueles que são apenas gente-como-a-gente, mas fazem o seu melhor e nem sempre são notados, mas hoje... hoje sim.

Hoje é dia de se maravilhar com essa gente que dá bom dia sorrindo no elevador, que nem te conhece e põe a etiqueta da sua roupa no lugar, que te chama pra almoçar quando você não tem companhia, que te ouve, dá conselhos, carinho e ombro amigo sem ser seu chapa.

Hoje é dia de agradecer esses anjinhos vivos que perambulam por aí fazendo a nossa vida mais fácil!


sábado, 1 de junho de 2013

Notícias do lado de cá


Todos bem e com saudades. Eu, principalmente! Muita saudade não descreve a falta que você faz. Mas vamos deixar assim, pra manter minha fama de má.

Igor me acorda às 5h da manhã arranhando a porta, querendo brigar com o grande gato branco. Não deixo. Gato mimado, criado em apartamento, querendo brigar na rua? Entrou na adolescência, deve ser isso.

Cã não se importa com o hóspede. Tenta obter o máximo de carinho possível enquanto estou em casa. Isso e comida.

Gata finge que não existo e tenta restringir o território do novo hóspede felino. Ele não se dá conta disso. Dorme em cima da casinha da cã.

Rotina de caronas estabelecidas. Às segundas, quartas e sextas tenho conversa divertida garantida pela manhã. A matriarca cuida de mim à distância.

Por fim, a implicância que me é peculiar. A constatação geral é que a Zildinha é muito feia. Não disse nada, juro! Mas com o Igor ao lado dela fica difícil não perceber.

Mande notícias d'além-mar.

Gato na versão hóspede

é, definitivamente, terrorista.

Passeia pela casa alheia como se fosse dele. Perturba a cachorra-mais-educada-de-todos-os-tempos e, como se não bastasse, dorme em cima da casinha dela.

Usa os pertences da gata.

Destrói corações e rouba afagos. Suspiros acompanham frases de Ai, como é lindo! e Que dócil que ele é!, enquanto ele, maquiavélico, concentra todas as atenções em si. Bem gato mesmo.

Quando os olhares desviam-se, sobe nas bancadas, mesas, janelas, sofás, estantes e aparelhos de ginástica.

Provoca a gata.

Mia, faz charminho, se joga no chão ao menor barulho de humanos. Esses que ele engana com tanta facilidade.

E mia, mia, mia...
Agora com eco.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O Espanto

Foi extremamente educado. Mostrou-me todos os produtos da loja tomando o cuidado de explicar, detalhadamente, como cada um funcionava. Ofereceu-me condições comerciais diferenciadas. Parcelamento, desconto e brinde. Mas não conseguiu disfarçar a cara de espanto quando lhe perguntei onde ficava o provador.
- Não existe isso em Sex Shop, senhor?

terça-feira, 21 de maio de 2013

A antiga Blogosfera

Num tempo distante in a galaxy far, far away, tive um blog. Outro blog, digo. Cheio de firulas, pseudônimos, pessoas X, Y e Z.

Escrevia sob pseudônimo e o anonimato rendeu-me, além de algumas dores de cabeças, boas amizades na época. Uma, inclusive, perdura até os dias atuais. Mitológica, poderia dizer.

De vez em quando lembro-me do universo paralelo em que vivíamos e me pergunto: por onde andam? ainda escrevem? cometeram suicídio-virtual-coletivo?

Saudades do Editor e de suas críticas sempre ácidas, mas bem humoradas. Vontade de saber se alguém ainda come pão-com-mantega-na-chapa e, é claro, continua preferindo a manteiga aviação. E os gatos? O que aconteceu com os gatos de Cam Seslaf? Ou seria Mac Falses?

Enfim, Arnaldo Antunes foi perfeito ao dizer que

O            que

(se)           foi

é           (s)ido.

, mas esqueceu de explicar o que fazer com o que ficou.

Reminiscência: s.f. Recordação do passado: o que se mantém na memória.
Recordação vaga e quase apagada.
Resíduo ou parte fragmentada de alguma coisa que já não existe mais.

(Etm. do latim: remuniscentia)

Coerência

Querendo saber qual é a p%$&* do critério utilizado para fazer a playlist nesse site de músicas que insisto em utilizar. Misturam Negritude Júnior com Raul Seixas, Capital Inicial, Caetano, Fábio Jr e ainda conseguem incluir Renascer Praise.

Nada contra qualquer um desses.
Só não é a mesma vibe, entende?

Passado

Pensando no que se foi. Não, melhor. Pensando que o que se foi deveria ter ido mesmo. Mas não é porque já se foi e deveria ter ido que não deixou saudade. Então, pensar é permitido, sofrer não.

Passado é pra passar. Se não fosse, chamava-se ficado. Ou presente que, além de permanecer no momento, é regalo. Gosto mais de ficado. Soa melhor em mim.

- Quem é aquela pessoa?
- Ah, é alguém do meu ficado.
- Oi??
- É... apareceu de repente e ficou.

O passado pode ser belo e trazer boas recordações. O ficado é eterno.

É possível, ainda, ser passado e ficado ao mesmo tempo. Passou de um jeito, ficou de outro. Acontece muito na minha vida.

E aquilo que a gente sabe bem lá no fundo que vai continuar? Ou quer muito que continue?  Continuado? Não. Permanecente... é isso. Olha que bonito!

Não importa onde. Se na realidade, sensação ou imaginação. Segundo um mini-sábio, isso é apenas uma questão de memória. Afinal, se a memória é boa, lembramos até do que não aconteceu.

Não pode ser permanente, pois essa palavra remete a algo estático. Permanecente imprime mais continuidade do que o tão conhecido "pra sempre".

Foram felizes permanecentes. Lindo, dinâmico poético!

Tudo junto e misturado, como dizem por aí.
Hoje celebro meu passado, meu ficado e meu permanecente.

Mais do Alheio

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto

(Quase sem querer - Legião Urbana)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Do alheio

Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou

(Codinome Beija-Flor - Cazuza)

Bem hermético

OK, eu sou isso que só você entende. Enfim, concordei. Agora, por favor, me explica?

Perdida em definições

Então eu sou a pessoa mais interessante com quem você cruzou nos últimos dez anos, não é? Gostaria de dizer:  - Sinto muito em lhe informar, mas a sua vida é (no mínimo) morna!

Falsa modéstia! Eu sou realmente interessante. Muito, aliás.

Multifacetada, diriam. Nada fácil. Divertida, às vezes. Depressiva também. Nunca simples. Cheia de nuances. Cores. Dores e amores. Rimando dor com amor.

Óbvia.
Mas quem não é?

Pessoa caleidoscópica, se é que caleidoscópico existe.

Tentando me definir, defino os outros. Eles são sempre o que eu não sou. Significo o contrário de tudo. Se sou boa, sou ruim. Quando sou doce, amargo até o fim.

E tentando me definir, não defino nada.
Porque nada é definitivo.
Ou é?

Eu, por mim mesma

Insegura. Juro! Sou humana. Acreditem, por favor!

Olhar misterioso? Personalidade forte? Balela!

Não escondo nada. Você é que não tem interesse em descobrir.

Desconfio de tudo. Tenho medo. Sou monte de cacos colados.

Sei ressurgir, sei renascer. Mas não faço sem sofrer.

Minha alma tem osteoporose. A cada esbarrão, vai um pedaço.

Coração também, coitado, segue todo esfacelado. Remendado.

E você aí, com medo de mim...

Quem entende?


Autorretrato

Vulnerável, sensível e, às vezes, louca. Gostaria de dizer meio louca, mas loucura é coisa que não tem meio termo. E se é pra ensandecer, melhor fazer benfeito.

Depois disso, pedir piedade. Piedade pra essa gente careta e covarde. 

Para ser grande, sê inteiro. Conselho de Pessoa. Quem sou eu para discordar? Reles lagartinha com sonhos de borboleta. Ainda sem asas, presa no casulo. Cheia de amarras, vícios, defeitos e devaneios.

Im-per-fei-ta! Sim, isso que sou. Água e óleo me representam. Juntos. Nunca misturados. Não me misturo nem comigo mesma. Não dou liga. Sou pura contradição.

Dura, fria, analítica e muito complexa. É o que vêem.

Será?

Doce, doce, doce... Repito. Há quem acredite. Então, para esses, reservo o melhor de mim. Sou cereja.

Há, também, quem não acredite. Esses são ignorados, pois tempo é algo precioso demais para gastar com quem não dá confiança à essência.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Hermético

Domingo eu vou ser feliz. Comer feijoada. Nadar em piscina alheia. Nesse dia vou fazer planos de outra vida. Dormir por aí.

Antes de tudo isso, acordarei cedo, colocarei uma roupa bem bonita e irei a igreja. Aquela da missa em espanhol. Vou olhar as velhinhas e seus véus chiquérrimos. Agradecer a Deus por ser saudável e pela alegria anunciada.

As mazelas serão esquecidas. Também as pirraças e os achaques. Nada se interporá entre mim e a boa ventura.

Domingo, estaremos eu e minha plenitude a gozar a vida.

Amor platônico

Eu gostei mais de você quando você se foi. Achei coisa digna, a sua partida. Corajosa. A desistência, li por aí, é um ato de bravura.

A partida é bela. Pra mim. Sempre bela. Talvez por ser triste. A tristeza me encanta. Você saiu, partiu, sumiu. Fiquei, então, encantada com isso.

O encantamento alastrou-se, incluiu você e virou amor. Ouvi, um dia, que toda forma de amor vale a pena. Escolhi Platão.

Amor fundamentado no seu ato virtuoso de ir embora com graça. Mas sem gracejos.

Amor de mãe só mãe entende!

- Meu filho, arruma seu quarto, arranja um emprego, toma jeito nessa vida! Não dá pra ficar o dia inteiro em casa sem fazer nada! Já cresceu e ainda não sabe o que quer ser na vida??? Assim não dá!!!

- É que eu ando tão triste, mãe. E as coisas não estão…

- Ô meu filho, vem cá… Você está comendo bem? É alguma garota? Te falaram alguma coisa que você não gostou? Você quer que a mamãe faça alguma coisa pra você? Deixa eu te dar um carinho…

domingo, 5 de maio de 2013

As minhas viagens e as viagens que elas me causam

É desordenado. Caótico. Mas não muda. Portanto, é rotina. Faço a mala às pressas e chego no lugar sem saber o que fazer, onde ir, o que ver. Aí, vem o anjo-da-boa-viagem e me abençoa.

Buenos Aires, Peroba, Pirenópolis, Nova Iorque, Aruba, Maragogi, São Paulo, Curaçao, Goiânia, Florença, Roma e, agora, Santiago.

Cheguei com uma lista do que comer e, também, do que não comer lá. Isso e uma mala onde nada combinava com nada e que, se não fosse minha, seria estranha.

Depois de seis horas na cidade já tinha visitado museus sem dinheiro (porque eu nunca lembro de levar dinheiro), almoçado e tomava chopp com três novos amigos.

Descrever o que aconteceu entre o primeiro mega-copo-litrão-de-cerveja e a despedida no bar que virou o quintal de casa (The Clinic) é difícil. Quiça impossível!

Foram dias de diversão, muitas gargalhadas, todo o tipo de mico (o que inclui tentar entrar dentro de um armário de louças) e muita cumplicidade.

Teve, ainda, ondas de mau-humor coletivo, mas bem resolvidas com grandes pratos de comida gordurosa e nada saudável. Gordice sela a amizade.

Sempre pedi ao Cosmos que parasse o Universo pra eu descer um pouquinho. Nessa época de tudo-ao-mesmo-tempo-agora era tudo o que eu desejava. Posso dizer, então, que fui atendida. E o Cosmos se superou.

Plagiando JK, foi um mês em uma semana. Fizemos tudo, mas absolutamente tudo, o que queríamos. E foi bom. Muito bom.

Férias perfeitas, sua linda, te amei!

Voltando pra casa

Conexão longa em viagem de volta de férias é algo estranho. Dá uma sensação de "entre-mundos".

Está perto de casa, mas ainda não chegou lá. A folga acabou, mas a viagem não está nem perto do meio.

Você quer sua cama, sua casa, suas pantufas, mas é obrigada a ficar horas e horas sentada numa cadeira dura contemplando o nada.

É jogada abruptamente numa sala fria, rodeada de estranhos com cara de zumbi igual à sua, que devem estar sentindo a mesma vibe Twilight Zone.

A saudade do maravilhoso mundo do ócio aperta. Por que as férias sempre acabam tão rápido?

Pra completar, a única distração é uma televisão sem som que repete as mesmas propagandas à exaustão.

Bling Bloing Bleing! Atenção senhores passageiros... E lá vamos nós de novo!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Senso de direção

- Como faz para chegar na Rua Xyz?
- Você lembra pra que lado fica o norte, não é?
- Claro!
- Então, segue essa rua até o final, vira à esquerda na praça, anda por dois quarteirões bláblábláblá vira à direita e pronto. Entendeu?
- Perfeitamente!

Despede-se e sai. Ou tenta. Abre a porta do armário jurando que é a saída. Depara-se com zilhões de xícaras. Pensa em pedir um café. Ri sozinha.

- Bom, agora você já sabe que eu não vou conseguir chegar lá, né?
- Eu desenho outro mapinha pra você...
- Não precisa. Só me explica onde é a porta de saída da sua casa.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Fragmentada

- Isso também vai passar. Eu sou estranha mesmo.

Disse sem pensar. Então saí. "Quem fala tem a obrigação de se fazer entender". Nem lembrei do ditado.

Sensível. Muito sensível. Dura. Muito dura.
Como explicar se nem eu entendo?

Sou assim, de um material que não existe mais. Não se combinava na fabricação, mas foi forçado a se juntar.

Sou assim, esquisita, cheia de falhas, sem amálgama.

Competição fúnebre

De todas as mortes que soube ou presenciei, a minha foi a mais triste. Classifiquei-as nas seguintes categorias: tristeza, popularidade, efeito surpresa.

A da minha avó ganhou em popularidade. Velório lotado. Parecia até festa. Aliás, era festa. Meu avô contratou um carro de som e patrocinou a bebida até o dia amanhecer. Quando enterraram, os convidados contavam piadas e riam. Já haviam esquecido, há muito, o motivo da reunião.

Em efeito surpresa, minha mãe venceu. Disparado. Talvez essa merecesse ficar fora da competição. Hors Concours mesmo! AVC acrescido de infarto agudo do miocárdio às vésperas de uma visita fora de época.

Aconteceu de madrugada. Teve até ligação de delegado no meu celular para avisar. Jurei que era mentira. Fiz piada com o policial. Não, nunca tive surpresa maior do que essa.

Mas a mais triste, a morte tristíssima digna de moção, foi a minha. Sozinha e em vida. Sem fechar os olhos. Sem estancar a dor. Sem dignidade.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Estou morrendo e estou cansada até para morrer. "Quem tem preguiça, o inferno manda buscar?" Ri. Mas não, não é o meu caso. Sou uma alma boa. É o que acredito e também o que dizem por aí.

Não quero pensar no pós-morte, ou além-vida. Pensar na proximidade do fim já é extenuante.

Estou morrendo e estou cansada de morrer. São tantas listas. Tantos afazeres. Tanto tudo. Lembrar de limpar, organizar, acertar. Casa, contas, papéis. Tudo.

Arrumar tudo para que venha o nada.

Morrer é mais trabalhoso do que viver. É necessário planejamento. É preciso sabedoria. Demanda-se tempo para preparar uma morte digna.

Estou morrendo e não quero morrer. Contar os dias. Relembrar o passado. Reviver as histórias. Viver o que restou.

Viver: verbo intransitivo interrompido.

Momentos

IX

Foi por meia-hora, acho. Não mais do que quarenta minutos, isso eu tenho certeza. Entre o trajeto do trabalho e o carro. Ali, bem no meio do estacionamento. Horário de rush. Já havia escurecido. Os carros enfileiravam-se e as pessoas buzinavam.

Larguei tudo o que carregava no chão. Sentei no meio-fio e me dispus a chorar. Alminhas apressadas evitavam olhar. As coisas esparramadas no chão. Não tive forças para recolher de imediato. Toda a energia concentrada no ato de chorar.

Li em uma pesquisa, não sei se confiável ou não, que é feliz quem despende toda a sua atenção naquilo que faz, enquanto o faz. Acreditei. E por trinta minutos da minha vida me concentrei em chorar.

Choro de raiva, desânimo, tristeza, manha, infelicidade. Choro de tudo. De agruras próprias e humanitárias. Choro doído, sofrido, de mágoa e desesperança.

Duas doses e meia de sofrimento real resultando em choro cowboy. Natural, sem firulas nem três pedrinhas de gelo pra diluir. Choro puro!

Enfim, recolhi os pertences no chão, enfiei tudo no porta-malas e tomei o rumo de casa. No meio do engarrafamento, uma lágrima desavisada insistiu em cair. Contive-a sem dó. Afinal, é mais feliz quem presta atenção no que faz e o momento era de dirigir.

Momentos

VIII

de parar.

Respirar.

Esperar.

Contentar-se com o que se tem.

É verdade!

Existem esses momentos também.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Purgar é preciso

Passei aqui pra te dizer que desisti. Julgue como quiser. Não me sinto covarde. Desistir de você para não abrir mão de mim, no meu conceito, é sabedoria.

Não posso mais ser conivente com suas atitudes. Não nasci pra ser satélite e, muito menos, estepe. Nunca subi no pódio das suas prioridades. Agora, não quero mais competir.

Cansei de ser xepa!

Sem briga. A ação é de renúncia voluntária. Desculpas não serão aceitas, pois nesta casa existe uma placa que diz: Não Trabalhamos com Culpa!

Não sou soberba, mas sublime. Tenho dignidade estampada na alma, sorriso largo no rosto e ar faceiro de quem deixou para trás o que não mais servia.

Sou pluma leve pairando na brisa.

Boa Viagem

"Coloque o cinto e acenda os faróis. Tenha uma boa noite e volte sempre." Ouvi isso e me senti no primeiro mundo. Aquele que juram que existe. Onde as pessoas são educadas, honestas e generosas porque se sentem motivadas para isso. Nem esperam algo em troca.

Saiu assobiando. Ou cantarolando. Não me recordo. A sinceridade, a recomendação e a alegria dele deixaram-me atordoada.

Era um vigia. Guardador de carros? Não sei se existe nomenclatura para essa recém-surgida profissão.

Era uma pessoa, oras! Uma pessoa que, com uma frase, abalou meus pensamentos e me tirou do conformismo-classe-média-acomodada-demais-para-acreditar.

Não penso que educação é relacionada a dinheiro e, muito menos, espero boas maneiras apenas dos engravatados, mas estava num momento expectativa-perdida. Aquele sorriso iluminou minha noite. Brilhou como uma lua cheia de esperança e derramou seu brilho-sóbrio na minha crença sobre a humanidade.

Sim, há salvação! Pensei. E pensei também em descer do carro, dar um abraço nele, desejar que Deus abençoasse toda a família. Siiiiim, quase dei meu cartãozinho visa vale recheado em vez da moedinha-que-sobrou-do-cigarro-com-sorriso-obrigatório.

Aí, refleti. Ele é normal, e eu - infelizmente - perdi o contato com pessoas assim.

Normais são as pessoas que devolvem os carrinhos de supermercado para o lugar correto, aqueles que dizem bom-dia-boa-tarde-boa-noite. Normais são os que insistem na utilização de por-favor/obrigada(o).

Eles vivem no primeiro mundo. Mas o primeiro mundo não é um País, Estado, ou Cidade. É um estado. Assim, com letra minúscula e que significa só o modo de ser e estar. Não compreende o ter.

Soberanos são aqueles que ignoram o ter e à ele sobrepõem o ser.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Tudo é resto

Alma fria. Coração vazio. Encontro-me à espreita de uma nova emoção. Horas vagas. Tardes inúteis. Nada toca. Não há sentido.

Direita, esquerda? Pra quê? O sentido se foi. Levou o sorriso, a alegria. Mente vazia. Coração oco.

Protesto em vão. Requeiro dignidade quando nada mais resta. Restam os restos. E os restos sou eu.

Em tantos cantos sobra amor, mas como amar o que é sobra?

O que sobra é a sombra do que se foi um dia.

Nada vale.
Vale de ilusões.

Sobejos inúteis em busca de função.

Delicada

Ela era linda. Magrinha, feminina, angelical. Ela era a menina-sempre. Sempre cheirosa, sempre bem vestida, sempre maquiada.

Trocávamos olhares e ela mostrava-se tímida. Enrubescia. Baixava os olhos. Ria discretamente, com a mão na boca.

Tão pudica. Tão perfeita.

Usava vestidos esvoaçantes. Estampas florais. Tons claros como sua pele. Saltos medianos. Nem altos, nem baixos. Na medida certa.

Linda e delicada! Não saberia descrevê-la de outra maneira. Eu era indigno. Procurava formas de fazê-la corar. Forçava o encontro do olhar.

Desejava aquela menina a todo custo. Estava apaixonado. Não havia outra explicação.

Certo dia, joguei a caneta no chão, bem próximo às suas pernas. Esperei. Ela fez menção de se abaixar. Assustou-se quando percebeu nossa proximidade.

Peguei a caneta e lhe estendi a mão entregando o objeto como se fosse dela. Ela me sorriu. Um sorriso franco, aberto, de quem se entrega.

Não consegui retribuir o sorriso. Naquele momento meu mundo ruiu. Faltava-lhe um canino.

Por quê?
Por quê, meu Deus, uma desdentada?
Não escolhi ser "sem-noção".
É item de série.

segunda-feira, 18 de março de 2013

domingo, 17 de março de 2013

Diálogos

- Estava aqui pensando...
- Humm
- A gente sai, de vez em quando beija na boca, você vem na minha casa, bebe, come... Eu até cozinhei pra você!
- E?
- Você nunca me deu flores!
(risos)
- É verdade. Nunca! Eu pensei nisso enquanto jogava a rolha do vinho no balde e vi que se colocasse mais tulipas de plástico ficaria mais vistoso.
(risos)
- Bom, da próxima vez que vier, traga um vinho e um maço de tulipas.
- Ahn?
- Sim, das falsas. Quero ser a única entre as minhas amigas que já ganhou flores de plástico!
- Carol?
- É! As flores de plástico não morrem

terça-feira, 12 de março de 2013

Confissões

- Você está bem, querida?
- Sim, bem. Sempre bem. É que gosto de exagerar, acho que dignifica a existência. Desculpe-me, estou bêbada, poética e cansativa.
- Você nunca me cansa e eu te adoro.
- Também gosto de você.
- Então... Vem?
- Mesmo?
- Sim, pega um táxi.
- Mas eu vou fazer o quê na sua casa?
- Podemos conversar, tomar um vinho.
- Vinho?
- O que você quiser.
- Será?
- Vem! Deixa de ser boba...
- É que...
- O quê?
- Somos amigos e...
- Relaxa, eu sei disso. Só quero conversar, passar mais tempo com você. Te respeito sabe?
- Hmmm...
- Sério! Te admiro também.
- Mesmo?
- Ih... faz muito tempo. Te acho diferente, especial... Não sei bem como descrever.
- Tá... eu vou!

Tomei banho e me arrumei. Mais do que deveria, confesso. Mas não demorei muito se comparado ao  tempo regulamentar de qualquer mulher que quer se fazer apresentável. Uma hora, talvez. Duas, no máximo!

Mandei mensagem durante o trajeto. Sei que nossa categoria é de "apenas amigos", ainda assim, fiquei ansiosa. 

Pedi para o taxista me esperar na esquina. Just in case... Riu, não entendeu, mas obedeceu. 

Subi as escadas com as pernas trêmulas. Nem ouvi a campainha enquanto tocava. Meu coração disparado impedia-me de escutar outra coisa que não fosse o seu ritmo descompassado. 

Toquei de novo. E mais uma vez. Três é suficiente, pensei. Foi aí que vi o bilhete: Houston, we've had a problem here. 

Isso é explicação que se dê???

- O senhor pode me levar de volta para o endereço onde me pegou?
- Tem certeza? Não quer tomar um chope? Já está arrumada e...
- Tá, pode ser...

Foi assim que nos conhecemos.
Nunca iria imaginar que a NASA me apresentaria ao meu marido.
Acredita?!
Um dia você fez algo bem feito, mas acabou. Você não faz mais. Torna-se apenas uma sombra do que foi ou poderia ter sido. Tipo um carimbo que a água manchou e ninguém mais consegue ler o que foi impresso. Ninguém.
Algo se quebrou. Imperceptível aos olhos alheios. Não fez barulho, não provocou alvoroço. Mas partiu-se. Não se sabe quando ou como. Nada funciona. Ninguém sabe porquê.

Ali, naquela mesma vida, na vida de sempre, o viver deixou de acontecer. Existe a rotina. A pressão. Prazos são atendidos. O que está em falta é a joie de vivre. Nada grave. Apatia apenas.

Registra-se a inércia. Aguarda-se o momento da ação.

- Aguarde, senhor, por ora temos apenas frustração.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Na tentativa vã de te explicar o que se passa aqui, me perdi. Pura pretensão, querer te fazer entender o que nem eu compreendo.

Contradição. Sou feita disso. De arrependimentos também. Tudo sedimentado em dores de amores inventados.

Sobram diálogos. Irreais. Mas que poderiam ter vida ao encontrar outro assim, contraditório.

Acredite naquilo que você não vê, diz a voz. Mas a voz, nem sempre tem razão.


Colagem

Desapego
S.m. Falta de apego; desafeição, desamor; desinteresse.

O contrário de apego (s.m. Sentimento de afeição, de simpatia por alguém ou alguma coisa).

"O desapego é um exercício difícil mas não é impossível e, quando menos se espera, acontecem verdadeiras surpresas e as pessoas revelam-se no seu melhor. E é isso que devolve a paz, dá forças e inspiração para ir mais longe. Por mais paradoxal que pareça, certos impossíveis enchem-nos de certezas felizes."
(Laurinda Alves - As pessoas certas nas alturas erradas)

Despegar. Desatar. Desprender. Desligar. Soltar. Escapar. Largar. Afrouxar. Desatrelar. Desengatar.

Desinteresse. Desprezo. Indiferença.

Desamor.

Dez, amor.
Dez amores.

Fiz sete juras de amor em toda a vida. Verdadeiras. Repletas de sentido. Integridade é inerente ao meu ser. Intrínseco a mim, é o amor. Jurei porque amei. Amei e cri.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
(Fernando Pessoa - Tabacaria)

Laços desfeitos são pontos de partida ou chegada. Nada é real, senão o amor. Eterno é o sentimento, não o que se cria em torno dele. 

As juras de amor são belas, basta o amor para que existam. Existir é preciso.

O amor alimenta-se da alma, mas acaba quando a consome. 
Por fim, esmorece o olhar terno. Desvanecem as doces palavras. 
Extinguem-se as gentilezas. 
Fecham-se as cortinas. 
Cai o pano. 

No palco, apenas um ator, sôfrego, pensa que a vida é uma história contada por um idiota, 
cheia de som e fúria, significando nada. Imagina, talvez, que a vida é sonho. 

- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.
Não, isso também não é verdade.
(Caio Fernando Abreu - Os Dragões Não Conhecem o Paraíso)

Textos incidentais: Calderón de La Barca e Macbeth

quinta-feira, 7 de março de 2013

É esse o jogo

Toda vez que olho pra cima e vejo essa imensidão, sinto minha vida encolher. Encolhe tudo de uma vez. Encolhem as agruras, as lágrimas, a dor. Encolho eu. E fico pequena, sentindo-me semente de mim mesma, querendo germinar.

Muda-se a perspectiva. Sofro, então, por ser irrisória. E é um sofrer tão inventado, tão incoerente, que caduca. Faz graça a quem o sente. Então rio. Rio porque, nesse momento, chorar não faz mais sentido. Chorar também é pequeno. Chorar é nada comparado à chuva.

Olhar o mundo com olhos de quem o descobre. E descobri-lo sempre. Manter a juventude na alma, já que o corpo – invariavelmente –perece. Sobreviver “apesar de” como dizia Clarice. Ter a resiliência como meta absoluta.

Levantar todos os dias sabendo a medida das coisas. Definir-me ínfima diante da grandeza da espécie. Compreender que ser única, não me torna melhor ou pior, apenas única. Distanciar-me do que quero para conhecer a real dimensão do desejo. Dispensar caprichos.

Reconhecer as motivações do ego. Deixar surgir a raiva, a ira. Admitir a inveja e a mentira. Evitar os disfarces para os monstros não se amontoarem embaixo da cama. Não permitir o acúmulo de sujeira embaixo dos tapetes. Pois com o tempo a sujeira gruda e acaba fazendo parte da casa.

Entoar mantras, dizer preces, sustentar a egrégora. Encontrar o meio próprio de me contatar. Fazê-lo conscientemente. Trabalho árduo, diário, sem recompensa ligeira. Olhos na linha do horizonte. Foco na imensidão do mundo. Para não me perder no abismo de mim mesma.

É esse o jogo!

terça-feira, 5 de março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

O que é combinado...

Troquei de roupa. Não que estivesse feia ou inadequada. Quis me arrumar pra te pedir desculpas. Quis ficar bonita. Mais bonita, como você diria. Foi isso.

Arrumei o cabelo, passei perfume e até me pintei. Usei o rímel que comprei em Paris. Aquele do dia de São Nunca, como você diz.

Acho que você merece um pedido de desculpas. Aliás, mais do que isso. Você merece algo melhor. Melhor do que qualquer coisa que eu possa te oferecer. Mas você não quer, não é?

Então eu me arrumo um pouquinho. Uso a roupa de domingo. De ver o padre, como diria a minha avó. Passo batom, ponho brinco novo. E continuo sem pedir desculpas. Egocêntrica.

Porque é assim que sou.
E é disso que você gosta.

Confissões

Salto agulha, meia-calça rasgada, cabelo despenteado. Entrou com ímpeto na delegacia, sentou-se à mesa demonstrando aflição, mas ainda firme, começou o discurso.

- Quero conversar... É.. É sobre um crime.
- Confessar, senhora.

As lágrimas vieram após as primeiras palavras. O delegado ofereceu-lhe um copo d'água e um lenço. Não acreditava no que ouvira. Conhecia assassinos e aquela mulher não era uma. Há muitos anos na profissão, dificilmente enganava-se. Lançou-lhe um olhar de soslaio e continuou.

- Assassinato, senhora?
- Sim. Homicídio premeditado.
- Mas onde está o corpo?
- Isso eu não sei.
- Como não sabe? Contratou alguém?
- Não. Eu mesma matei.
- Então tem que nos dizer onde está o corpo.
- O senhor não quer saber o motivo?
- Quero saber onde está o presunto, senão é homicídio e ocultação de cadáver.
- Se ocultasse qualquer coisa não teria vindo à delegacia conversar.
- Confessar.
- Confessar, conversar...

Tornou a chorar. Dessa vez, contida. O delegado esperou. Empurrou o copo com água na direção dela. Nada. Nem um gesto. Ele pigarreou demonstrando impaciência.

- Preciso explicar desde o princípio para o senhor entender.
- Prossiga, senhora.
- Vivíamos bem. Não tinha nada pra reclamar, sabe? Nunca me bateu. Sempre tive o que precisei. Até mais do que isso. Mas, de repente, ele começou a se distanciar.
- Arranjou outra?
- Não! Não que eu saiba...
- Mas...
- Não foi isso. Ele mudou...
- De casa?
- De personalidade!
- Senhora?
- Foi isso mesmo. Mudou. Ficou estranho. Sei lá.
- Então temos o motivo. Agora preciso saber onde está o corpo, senhora.
- Já disse que não sei onde está. Nem quero saber, aliás. O corpo pode estar andando por aí, por onde bem entender. Mas para mim está morto.
- O quê?
- É. Morto. Mor-to! Não me importo mais se anda, respira ou fala. Não quero saber se vai ao trabalho ou se está doente. Pouco me interessa o que faz. Coloquei as malas na porta, troquei a fechadura e o matei dentro de mim. Nada que lhe diga respeito me interessa. Nem nome tem. É apenas O corpo. Não. Minto. É UM corpo. Um corpo qualquer.
- Mas, senhora, isso não é uma confissão de assassinato!
- Eu disse, delegado... Disse que gostaria de conversar sobre um crime. Foi o senhor que falou confissão...
- Que crime, senhora?
- Matar um amor, delegado. Se isso não é crime, se não está descrito em nenhum código, deveria.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

As horas

Fingir que se importa é quase o mesmo que se importar. Tudo em mim foi naufrágio.

Pensa em Pessoa. Pessoa foi importante. Tão importante quanto o momento. Memória cristalizada.

Tudo é eterno enquanto existir lembrança. A imagem some. Esvaindo-se na velocidade do pensamento.

Tudo é efêmero quando a vontade é contrariada. Contraditórios são os sentimentos.

O ônibus branco parou em seu último ponto. Só ela não desceu. O lugar vazio. Espera infinita inundada de referências.  

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O mesmo amor, a mesma chuva

Eu e as vizinhas, todas nas janelas, cada uma com um objetivo. Uma recolhe as roupas. Apressada, fecha a janela e desliga as luzes. A outra grita para o filho subir. Eu olho a chuva e deixo molhar.

Molha o rosto, a roupa, os pés. Lava a alma. Molha até o gato que é estranho e não tem medo de água. Tudo em mim é estranho. Até o gato.

Chove forte com vento e barulho. Quanto mais chove, mais eu me molho. Deixo a chuva me molhar para esconder as lágrimas. Essas lágrimas tão difíceis de cair. Mas, ao mesmo tempo, tão próprias para o momento.

Esse amor nunca foi conveniente. Desajeitado. Em tempo errado. Veio e se foi na chuva. Hoje, na mesma chuva, é dele que me lembro.

Quilmes, uma Cantante Calva e Todomundo. Filmes argentinos com amendoim. Quinquilharias em San Telmo. E a chuva. A mesma chuva.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Perdida nas Estrelas

Então Saturno resolveu mesmo tirar o meu sono. Ia toda serelepe em minha vidinha desregrada quando, de repente, sou surpreendida pelo Senhor dos Anéis. E não é o do filme.

Taciturno, cobra postura, seriedade. Impõe regras. Limita a leviandade. Esmagada, tal qual Coyote se dando mal em suas armações, penso: E agora? Agora, querida, é andar na linha, seguir com retidão, aguardar.

Esperar a salvação de Júpiter para que o Sol volte a brilhar. Planeta mágico. Superior. Benevolente. Expansivo. Elétrico, vitalizante e fecundo.

O eremita aconselha prudência para melhor construir, enquanto a roda da fortuna gira e não se detém em canto algum. A temperança trará calma, confortará o espírito, apaziguará anseios até que o mundo seja Mundo novamente.

Questiono o céu, maktub e os desígnios divinos. Faltei às aulas de resignação. Insisto que há solução. Parta Nauthiz! Deixe Wyrd mostrar o caminho a Sowelu.

Ele fecha os olhos e sorri. Balança a cabeça, afaga meus cabelos, limita-se a dizer:

- Dorme, pequena, isso também vai passar.

Diálogos

- Wishlist: escrever dois textos bons, emagrecer sem esforço e a paz mundial.
- Gostei dos seus projetos. Vai dar tempo de terminar hoje?
- Não sei, acho que os textos vão ficar pra depois...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O segredo é não correr atrás das borboletas...

É cuidar do jardim para que elas venham até você.
(Mário Quintana?) 

Em meio a um processo complicadíssimo de recuperação de crédito de uma empresa em estado de quase falência (não entendi muito bem) estava ela: a borboleta.

Uma borboleta gigante de asas negras com detalhes amarelo-vivo. O corpo também era grande. Pode-se dizer até que era gordinho.

Ventava forte, suas asas descolavam da parede, mas voltavam. Ela, definitivamente, não queria sair dali.

Ele discorria sobre suas manobras jurídicas, gabava-se de sua astúcia e contava - cada vez mais altivo - seus feitos enfadonhos.

Alto, nem notou que eu não olhava em seus olhos. Minha visão detinha-se pouco acima de sua cabeça. Na parede de mármore negro. Na misteriosa borboleta. Quase sem prestar atenção em mim, ele me deixava livre para observá-la.

Será que era tão bonita em sua vida de lagarta? Será que ela já sabia o que iria enfrentar? Nunca entendi muito bem a transformação das lagartas. A formação das cores. Nada. Absolutamente nada! Nem sei se ensinam isso na escola.

Ah! Minto. Sei que não devemos ajudá-las. O grande momento da dor é a chave para a sobrevivência. Devem, com suas asinhas frágeis, romper o casulo sozinhas. Isso as torna fortes. É tudo o que sei sobre lagartas e borboletas.

Já me desiludi com Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e maridos. Não prestaria muita atenção mesmo que tivessem me ensinado. Essa metamorfose é mística para mim. E vai ser assim sempre.

Continuei com uma bela cara de paisagem. Assentindo com a cabeça, vez ou outra, para encorajá-lo a falar mais. Fazia o que podia para prolongar o contato com aquela criatura mágica.

Imagine só: num dia você rasteja em busca de comida, te pisam e sentem asco de você. No outro, ficam maravilhados com sua beleza e imploram para que você chegue perto. Porém você simplesmente não quer mais e sai por aí, livre, admirando as maravilhas do mundo. A borboleta é o máximo!

É um pensamento fútil, eu sei. Quase vingativo, assumo. Mas deveras interessante.

Além disso, tem o lance da vida. O dom de Deus. Esse Deus que nem sei se existe, mas que me deixa inclinada a crer quando vejo uma simples borboleta.

De repente voou. Duas piruetas, um rasante na minha cabeça e um pouso desconcertado na gravata do garboso.

Nesse momento, já havíamos terminado os cigarros. Nem sei em que ponto estava a façanha do tal do crédito-recuperado-a-duras-penas-da-empresa-quase-falida.

Só voltei em mim quando o indigno deu um tapa na borboleta e o corpo da pobre caiu sem vida no chão.

Idiota! Você sabe o que ela passou pra chegar até aqui? Disse, com ódio no olhar.

Nunca mais conversamos.