sábado, 31 de dezembro de 2011

Fim de Ano

O povo buscando simpatias para amor, dinheiro, emprego, casa nova e eu pra mosquito. De novo empolada. 13 picadas em um pé e mais umas 20 no outro. Mesmo com repelente. Credo! E a alergia? Affe! Cheia de corticóide, Vitamina B12 e a coisa ainda coça.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Jucyscleyde

Jucyscleyde é, por assim dizer, louca de jogar pedra. Imaginação fértil. Não pode ter um pensamento na cabeça que a coisa já se cria sozinha. Jucyscleyde não tem limite.

Certa vez, conheceu um moço. Ele se apaixonou à primeira vista. Ela o rejeitou logo de cara. Jucyscleyde pensa assim: se vem fácil, não presta.

Passaram anos sem se ver. Seguiram as suas vidas e, é claro, se encontraram um bom tempo depois. Dez anos depois, para ser mais precisa.

Jucyscleyde, que andava meio carente, viu um mundo de possibilidades ao seu alcance. Mandava 30 mensagens por dia para o rapaz que, prontamente, respondia aos dengos de Jucyscleyde.

Moravam agora em cidades distantes, mas Armando iria para sua cidade natal em breve. Resolver questões burocráticas, explicou. Sim, Armando explicava tudo para Jucyscleyde. Dava satisfação. Satisfeito.

Enfim, encontraram-se. O que aconteceu não foi diferente do que acontece em qualquer canto do mundo com esses casais que relacionam-se à distância.

No dia seguinte, Jucyscleyde pensa em juras de amor. Imagina o vestido. A cerimônia. Os votos. As filhas. Os netos.

Armando não liga. Não responde às mensagens. Três dias de silêncio.

No quarto dia: Jucí, vem me ver? Estou com saudades! Ela foi mais que depressa. Inventou desculpas para o desaparecimento. Na verdade, nem se preocupou. Também estava com saudades.

Ao acordar, após o fogo do amor se apagar, ressentiu-se do abandono. Descaso, pensou.

Armando não levantou naquele dia. Óleo quente no ouvido. Jucyscleyde havia lido numa revista que era rápido e indolor.

Garota (muito) enxaqueca!

Até reclamar cansa. E hoje, cansei de mim. De reclamar. De nhenhenhem. É a obra, o preço louco do pedreiro, o tempo que as pessoas levam para fazer as coisas e toda a encheção de saco de um ano agitado.

Pra completar, bateram no meu carro. Achei que não tinha amassado muito pelo barulho. Então nem parei para reclamar. Não aguento mais as minhas lamentações.

Eu gosto mesmo é de ser feliz. Leve. Irreverente. Risonha. E, às vezes, palhaça. A intenção da semana é essa: manter o bom humor a qualquer custo. E vai dar certo.

A rádio que toca na minha cabeça sintoniza numa musiquinha fofa. E eu sigo cantando e dançando pelas ruas, apesar de toda a irritação.

Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá

Tô voltando

Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando

sábado, 24 de dezembro de 2011

Então é Natal

E eu pensei que era ontem. Mais uma vez o problema do calendário. Da falta de atenção. Da minha loucura? Álcool? Não. A mocinha já disse que sou normal. E carimbou. E mais, não bebo tanto assim.

Confundo os dias. Troco as palavras. Tenho o dom de estar no lugar errado, na hora errada e dizer o quê? A coisa errada, é claro. Mas vivo bem. Vivo assim há tanto tempo. Tinha de me acostumar mesmo.

Então é Natal e o que você fez... diz a música. E provoca reflexões. Fiz muita coisa. E coisa é uma palavra ótima. Serve pra tudo. Então eu fiz essas coisas. E foi um ano bom. Sem arrependimentos.

Conquistas e derrotas. Não na mesma proporção. Muitas lições aprendidas. E uma sensação de missão cumprida. Não A missão. Não ainda. Mas a missão do ano, acredito que sim. Não, não acredito. Sinto.

Final de ano caótico. Do jeito que deve ser. Moro na casa do amigo G., no carro, na casa de alheio, por aí. Solta. Livre. Do jeito que gosto.

O carro coberto de lama até o teto. As roupas espalhadas. O gato mião. O apartamento transformando-se, finalmente, em lar. As pessoas olham e não entendem. Mas é assim. Eu gosto assim...

Natal feliz. Ano feliz. Pessoa feliz.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Navidad

Pra quem teve um papel importante na minha vida esse ano e pra quem eu nem vi. Para aqueles que ajudaram e, principalmente, para os que atrapalharam. Quem me ensina o que eu não devo ser tem meu respeito eterno.

Pra quem foi embora. Para os muitos que voltaram. Pra quem tá de birra agora, mas eu amo muito. Pra quem só briga e, também, pra quem só ri. Vocês fazem minha vida colorida. Trazem o doce e o salgado. Alguns, o azedo e o amargo. Mas, enfim, nunca usei açúcar na limonada suíça ou no café. Adoro todos os sabores desde que sejam autênticos.

Para os dois que arrumaram meus dentinhos e me fizeram sorrir mais. Para aquela que acha que consegue consertar a minha cabeça. E, também, para os que pensam que vão me equilibrar. Além de Feliz Navidad, pra vocês, boa sorte!

Para os que sabem compor, entender, confortar. Para os que acalentam minha alma quando ela chora. E ela chora muito. E grita. E se desespera. E sofre. Sempre em silêncio. Mas vocês conhecem o meu olhar. E sabem discernir todos os momentos. Vocês me sabem!

Pra quem me leu. Me ouviu. Emprestou ombro e fez cara boa. Pra quem fez cara feia também. Para os amigos de sempre. De ontem. De hoje. Para os amigos que estão começando a estrada comigo. E para aqueles que já terminaram.

Para o que acalenta meu corpo quando ele incendeia. Esse que não é parte da minha vida e nunca vai ser. Esse que só aparece em momentos precisos. E tem ação precisa. Porque meu corpo, quando incendeia, precisa de água. Calma. Paciência. Carinho. Cuidados. E, às vezes, distância.

Para todos aqueles que gostam de mim e eu, infelizmente, negligenciei. Para os que eu esqueci. Para os que me esqueceram. Ou fingiram que esqueceram. Porque sentimento só sabe quem tem. Só sabe quem vive. Só entende quem sente.

Para alguém que se foi e dizia: Eu te amo pra caralho e mais um pouquinho ainda! Não é, mãe?

Para aquela mulher com ar doce. Pequena. Nada frágil. Que me ajudou no momento mais difícil da minha vida. Não é, tia Lygia? E para o eterno namorado dela. Que é base. Força. Equilíbrio. E, às vezes, picuinha. Mas, acima de tudo, é amor. Não é, tio Magno?

Pra quem eu amo e não sei dizer. Pra quem me ama e tem o mesmo problema. Ou questão a ser solucionada. E questões são muito pequenas se comparadas ao amor que existe. Não é, tia Bia?

Para a minha família. Minha base. Meu alicerce. Meu apoio.

Feliz Navidad e... desculpas, obrigada, beijos, amor, serenidade, equilíbrio e um axé.
É! Um axé!
Porque axé nunca é demais!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O verdadeiro amor

Pra ele, me guardo. 
Ria de mim, mas estou aqui 
parada, bêbada, pateta e ridícula, 
só porque no meio desse lixo todo 
procuro o verdadeiro amor. 
Cuidado, comigo: um dia encontro.
(Caio Fernando Abreu - Dama da Noite)


Enquanto o grande amor não acontece. Enquanto as horas passam vazias. Enquanto os dias se repetem. Te encontro. 

Na mesma esquina. As mesmas conversas. O mesmo sorriso amarelo. Aquele beijo conhecido. O gosto de sempre. O olhar de sempre. As mãos precisas percorrendo os caminhos invariáveis.

Uma taça de vinho. Outro cigarro. A marca da unha nos ombros. Dedos emaranhados nos cabelos. Uma mordida na nuca. Pernas entrelaçadas.

A reação esperada. O gemido rouco. O grito sufocado. O abraço vazio. O cheiro, o suor, as lágrimas. Tudo revisitado. 

Você está impresso em mim assim como estou impressa em você. Mas isso não é o amor. 

Lascívia. Desejo. Concupiscência. 
Hábito, talvez. 

Enquanto o verdadeiro amor não chega.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Quando eu te conhecer. Quando for o tempo. Quando o inverno chegar. Quando...

Quando isso acontecer, um texto inteiro.
Só pra você.

Até lá, meias palavras.
Meias verdades.

Clarice e Caetano... juntos?

E nesse meio tempo, ou tempo inteiro, a gente vive. Assim como dizia Clarice. A gente vive Apesar de. Apesar do aborrecimento, apesar da tristeza, apesar da discórdia. A gente vive.

Vive e acha tempo, nesse meio tempo ou tempo inteiro, pra ser feliz. Pra rir. Pra curtir. Pra gostar. Pra amar. Pra gozar. Pra se divertir.

E apesar de encontrar uma ou outra pedra no caminho. Apesar de tropeçar vez em quando. Apesar de cair por aí. A gente levanta.

E dá a cara a tapa. E faz tudo de novo.

Porque a gente ouve Caetano.
E acha que nasceu pra brilhar e não pra morrer de fome.

Achamento

Expectativa é algo fantástico, desde que se tenha em mente que ela nasce fadada ao insucesso. Segundo o dicionário é a esperança fundada em promessas, viabilidades ou probabilidades. Quem nasce de uma promessa, nesses dias, vinga? Não vinga!

A expectativa, coitada, é pior do que a esperança. E se você pensa que a esperança é boa, meu bem, me explica o que ela estava fazendo na caixa de Pandora bem juntinho de todas as mazelas do mundo. Não, querido, não se iluda. São companheiras: esperança e expectativa.

Aliás, se você ainda não sabe, te digo já. Formam um trio. Com quem? Com a frustração!

Recado

Ei, menina?
É você sim!
É, menina, olha só...

Eu vim aqui pra te dizer que deixei de ser lagarta. Sério! Sei que isso é novo pra você. Fiquei tanto tempo naquele casulo que você se acostumou. Mas a gente sabia que isso iria acontecer, não é mesmo?

Se dói? Ah, dói muito. É uma dor impossível de se descrever. Dói por dentro. Dói tanto. Até doer por fora. Aí dói tudo!

Bem pior do que a dor é a destruição. Toda minha vida ruiu. A casa. O conforto. Tudo se quebrou. O que era conhecido se esfacelou.

O passado se estraçalhou no exato momento em que ganhei asas.

Elas falham às vezes. Não, não vieram com defeito de fabricação. Não ria! Ainda estou aprendendo a usá-las.

Você...
Você quer voar comigo?

Diz

Diz que me quer. Diz que me espera. Diz que não vive sem mim. Diz que se desespera. Diz que se atropela. Diz que vai morrer.

Ameaça. Xinga. Briga. Grita.

Diz que me ama. Diz que eu sou o seu ar. Diz que não sabe o que aconteceu. Diz que sente minha falta. Diz que ficou louco de vez. Diz!

Reclama. Chora. Se joga no chão.

Diz que dói não saber. Diz que não dorme. Diz que alucina. Diz que não tem prazer em viver.

Copia a canção do Roberto. Ouve música ruim. Lê poesia. Se humilha.

Diz tudo isso e fica olhando.

Enquanto eu vou embora da sua vida.
De vez!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Crise da vida

Estorvar. Perturbar. Desalojar. Incomodar. Chatear. Embaraçar. Envergonhar. Importunar. Irritar. Tolher. Cercear. Molestar. Aborrecer. Desgostar. Cansar.

Crise da Obra

Termino o banheiro e volto pra casa ou reformo tudo?

Crise total. Hoje ele refez a bancada. Ficou melhor. Ele errou, mas eu errei também. Atraso de mais de dois dias. Faço o piso novo ou não? Pinto as paredes? Troco os portais?

O gato tem comido cimento. Vai passar mal. Será que para sozinho ou vai comer até a morte?

Sinto falta do gato.
Sempre sinto falta do gato!

Insensata

As minhas escolhas são as minhas escolhas, não as do mundo. Então não me julgue. Se me acha insensata, afaste-se.

Não quero coro ou companhia. Nem quero esse seu olhar complacente. Afaste-se, já disse.

Quero calma. Ar. Espaço e tempo. Quero a minha liberdade longe da sua voz cerceadora. Quero paz. Silêncio. E vazio.

Não me prenda. Não se iluda. Não me prendo. Não sou prenda. Não sou sua. Sou da rua. Do mundo. De outros tempos.

Venho de longe. De muito tempo à frente. Pra observar. Aprender. Ensinar.

Não se engane. Não te quero. Não te espero.

Ainda assim, te amo.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Em obras

O banheiro dos sonhos está indo pro buraco. O nicho ficou desalinhado. A bancada ficou menor do que devia e não cabe a pia. Lembro de minha tia falando da Vó quando fez obra. Derruba essa parede! Estou falando grego? Acho que vou invocar o espírito da Vó. Derruba essa bancada agora e faz de novo! Errou a medida e fez do jeito que quis. Saco!

Amigo G disse que vou passar o Natal com ele. Eu ri. Disse que a obra era rápida. Ele conhece o pedreiro. Separou seis portas de armário pra mim. Falou, ainda, que não iria me tratar como hóspede, já que vou morar por dois meses na casa dele.

A casa está uma bagunça. Até o gato está sujo. E mia. E reclama.

Eu não quero mais brincar de obra.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A medida da dor

O sangue ainda escorria pelas paredes quando se levantou e começou a limpar o chão. Dessa vez foi pior. Não perdoou nem a televisão! Cinquenta polegadas de caquinhos estilhaçados no chão. Na rua. Ele deveria entrar em um time de arremesso de coisas ou algo do gênero. E se alguém estivesse passando na rua? Era processo na certa!  

Havia se abaixado. A TV gigante passou por cima da sua cabeça, atingiu o parapeito da janela e, por fim, voou do apartamento. Ainda bem que ele sempre teve péssima pontaria.      

Olhou-se no espelho para conferir o estrago. Briga de homem mesmo. Faltava um dente. O olho iria ficar roxo, preto talvez. Sem grandes estragos. Dessa vez, levou mais do que bateu! Casa revirada. Parecia assalto.

Arrumou o que dava. A empregada termina isso amanhã. Fez curativo na mão. Mordida, vê se pode! Limpou o olho. Não tomou banho. Dormiu na sala. A gente se acerta assim que ele voltar. Ele sempre volta!      

Do outro lado da cidade, um homem leva pontos no rosto, em um hospital decadente. Ao menos o enfermeiro é bonito.       

- O seu plantão termina muito tarde?
- Não, você vai ser meu último paciente.
- Um drink?
- Assim?
- Não tá doendo.
- Tem certeza?
- Se precisar, você cuida de mim.

O enfermeiro sorriu. Passou a mão pelos cabelos. Titubeou um pouco, mas cedeu.

- Pode ser.

Isso vai doer muito mais do que meia-dúzia de pontos no rosto. Muito mais!         

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Nem cinco minutos guardados

Não te pedi muito mais do que cinco minutos. Você negou. Assim como negou atenção, carinho e dedicação durante todo o tempo em que estivemos juntos. Sobrevivi de migalhas de amor. Igual aos pombos da praça que catam farelos de pão no chão. Dia a dia eu catava qualquer resto de sentimento que você jogasse fora.

Um esboço de sorriso. Mesmo que não fosse pra mim. Fantasiava que era. Um beijo soprado. Uma palavra doce.

Mas a gente é feito de carne. De osso. De anseios. De ímpetos de egoísmo e pequenos momentos de compaixão. De intenções. Às vezes, más intenções.

Instinto. A gente é puro instinto. E isso não é bom. Nem mau. É a realidade. É a necessidade de sobrepujar o outro. A necessidade de agradar o outro. É tudo isso, cara!

E, de repente, passa um tempo e você nem se reconhece mais. É o cotidiano que te engole. Num dia você é aquela figura interessante e todos os caras te olham. No outro, você está beijando os pés de um babaca que esquece teu aniversário e justifica dizendo que datas são importantes apenas para os professores de história.

E você olha pra trás e tenta entender como chegou nesse ponto. E não consegue sair do limbo. Porque se acostumou ao limo. É sórdido, mas real. É rastejar na lama mantendo seu saco de suprimentos amarrado ao corpo sem saber Como é!*

Então você culpa o outro. Mas a culpa está refletida no espelho. Quem erra? O dominador ou o dominado? O opressor ou o oprimido?

Aí você fecha os olhos e repete pra si mesmo. Baixinho. Deitado em sua cama. O mantra do Mestre. Que seja doce!** E acredita que será. Crê piamente que amanhã será um dia melhor. Porque cresceu escutando que dias melhores virão e que o amanhã à Deus pertence. E mãe, você sabe, não mente.

Um dia as migalhas ficam escassas. Nesse dia, você percebe que não sobrevive mais sem elas. Para, então, de esperar que elas caiam pelo chão e começa a implorar por elas. Num completo estado de mendicância afetiva.

Em total desespero, em estado de abandono, beirando a inanição, brada num ato de rebeldia. Pede cinco minutos. Apenas cinco minutos. Recebe, neste momento, o silêncio final. De um alguém que não possui nem a hombridade de te dizer tchau. Mas que você daria a vida para ter novamente. Mesmo que fosse por cinco minutos.

* Samuel Beckett
** Os dragões não conhecem o paraíso - Caio Fernando Abreu

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Palavras

Tem umas palavras que são verdadeiramente especiais. Para mim, escapulir é uma delas. Adoro! Dei uma escapulida. É o máximo. Bem melhor do que, simplesmente, fugi. Gosto da mesma forma de igualmente. Acho linda. Mas nunca a uso. Não consigo. Ouço-a diariamente no elevador, mas sempre sou eu a desejar as coisas aos outros. Eles me olham e dizem: igualmente.

Procrastinar. Essa, além de bela, tem uma sonoridade incrível e um significado xxxxx. Gosto de palavras. Definitivamente. Sinto-me bem no mundo delas, das ideias, dos significados.

Um bom jogo de palavras encanta. Tudo se inicia aí. Nos dizeres. Aliás, o início é belíssimo. As primeiras. Ainda erradas. Ainda balbuciadas. Os primeiros tropeços e enroscos nos erres, nos eles. Depois, os primeiros desafios. Paralelepípedo. Liquidificador.

Aprendi parcimônia aos nove. Me vi tão adulta por isso. Usava-a o tempo inteiro. Repetia a palavra. Nunca internalizei seu significado. Ensinei à minha afilhada. Ela se diverte.

- Madrinha, é pra comer com parcimônia!

Ah! Essas palavras! Às vezes, as danadinhas me fogem. É. As palavras escapolem. Então uso xxxxx no lugar. Até que resolvam voltar para casa.

Desconcertada

e consertando...

o banheiro, o carro, as roupas, os sapatos, a vida, os pneuzinhos, a cabeça.

De lá pra cá. Cheia de dúvidas. Dívidas.
Com vontade de mudar.

Sem saber por onde começar.


Uma parede de cimento queimado
parece um excelente começo.

Dormir na casa do amigo G é uma boa solução. Momentânea. Mas boa.

Sinto falta do gato.
Moro, na verdade, no carro.
Se tiver uma garagem, fico.

Penso em cruzetas, portais, pisos, revestimentos e acabamentos.
Enquanto o ano acaba.

Não é comôdo. 
Interessante, talvez.
Diferente ou diverso.

O prazo é curto.
Mas sinto falta.
Sinto falta da minha casa.

Amigo G arruma a própria casa.
Cansado da própria reforma.
Ri das minhas ideias.
Diz que mau gosto é uma questão cultural.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Você pensa que é fácil?

A ideia surgiu de uma conversa. Pra dizer a verdade, foi inspirada em uma ação similar. Tá, tudo bem! Foi copiada. No sentido, mas não na integralidade. Pensei naquilo por mais de uma semana.

Sim, sinto falta de companhia. Às vezes, fico carente. Mas não é coisa grave que necessite de alguém o tempo todo. Um contato esporádico pode resolver isso. Isso e a questão física, é claro! Essa é a pior.

Poderia fazer entrevistas. Ou um leilão. Não, leilão lembra bailão que lembra peão que lembra música sertaneja. Perco o foco. Licitação, leilão, não. Nenhum ão! Muita formalidade. Um site na internet talvez. É mais descontraído, casual... Casual! Essa é a palavra.

Casual: adj. Que depende do acaso; fortuito; ocasional.

Fortuito é um luxo! Devaneio de novo e me perco nas palavras. Voltando à ideia inicial. Sim, decidi. Vou fazer! A forma não será rígida. Traço um perfil, decoro um questionário e aplico quando tiver interesse. Assim, no meio da conversa, com intuito de passar despercebido. Quando chegar em casa faço o placar e pronto, escolho o que quero. Fácil!

Foi o que pensei.

- O que você gosta de fazer?
- Ah... Gosto de sair, mas também curto ficar em casa. Bebo de vez em quando, cozinho, saio com a galera pra balada. 
- Você tem muitos amigos?
- Faço o tipo popular, saca?
- Hmm.. acho que sei.
- Tudo me diverte, menas pessoas chatas, sabe? Gente que tá sempre insatisfeita, reclamando. Tipo mimimi. Isso eu não topo.

Saca já estava difícil, mas menas? Bah! Menas, nem o Lula, companheiro! Menas, não dá. Não é preconceito. É crivo! Parti, então, para uma abordagem mais direta. No meu ponto de vista, é óbvio!

- Não é que eu tenha medo de relacionamento ou compromisso. Só acho que não é o momento, entende?
- Claro. 
- Então fico só. De tempos em tempos aparece uma ou outra pessoa. Coisa casual.
- Pra tirar o atraso, né?
- O quê?
- Olha, gata, que tal pularmos esse nhenhenhem do jantar e irmos direto lá pra casa?

Não era exatamente o que eu estava esperando. Não sou muito exigente, mas isso foi tosco. Rude. E depois? Me joga na parede e me dá umas bofetadas? Ah, assim não quero. Bruto, só no sentido "não refinado". Mal-educado, nem pensar!

Mudei a tática. Gênero: romântico. Perfil: princesa. Mulher fresquinha perde. Vestido florido, arranjo no cabelo (escovado, é claro), sapatinho de boneca. Mais tons de rosa em uma só pessoa do que na casa da Barbie inteira. Creperia. Suquinho e salada. Sugestão dele. Acatada com boa vontade de Amélia.

- Você não gosta de fazer as unhas?
- Err.. Não tive tempo essa semana.
- A sobrancelha também não, né?
- Não. Marquei salão para amanhã.
- Qual salão você frequenta?
- Fica naquele Shopping perto do meu trabalho.
- A-DO-RO o cabelereiro de lá!!! Ele é um gênio da tesoura!
- É... (amiga)

Definitivamente é melhor começar a distância. A primeira conversa, agora, é por e-mail. Regra estabelecida! Nada de encontros às escuras. Chega de enrascadas. 

Tentei, por fim, um site de relacionamentos. Existem aos montes. É possível enunciar os atributos desejados, listar suas principais características e escolher aquilo que você pensa que combina.

Usei imagem fidedigna. Fui discreta, mas sincera. Quando supus ter encontrado o par compatível, a surpresa final!

- Olha, Dona, vi que você se interessou por mim e já que vamos nos encontrar preciso te dizer uma coisa… pra beijar e dormir de conchinha é mais caro, tá?

E foi assim, meninas, que eu virei lésbica!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Wishlist

Quando eu crescer quero ser escritora!

Feliz Dia dos Namorados

Fechou as portas, os braços, o coração e, por fim, as pernas. Não é não, disse a si mesma. Zangou-se. Pisou firme. Não fez beicinho. Era sério.

- Você apontou o dedo na minha cara!
- Você me mandou embora às três horas da manhã.
- Eu te pedi desculpas.
- Desculpas não apagam as palavras!
- Eu não queria dizer...
- Mas disse...

Insultos e gritos não eram seu ponto forte. Nunca discutiu. Argumentava às vezes. Brigar? Não. Coisa de lavadeira, pensava. Sabia ir embora. Sabia esquecer. Isso sim, sabia fazer bem.

Na semana anterior haviam conversado. Papo aberto. Jogo limpo.

- Eu não dou importância para certas convenções.
- Como assim?
- Sei lá. Traição, eu acho...
- Você trai e não se sente culpada?
- Não. Já traí e me senti culpada. Contei.
- E?
- Foi chato...
- Chato?
- É. A pessoa não entendeu.
- O que uma pessoa tem de entender numa traição?
- O motivo, oras! Mas esse não é o foco. Quero dizer que não ligo se for traída. É isso!
- Não?
- Acho que não. Dependendo do motivo, até dou razão.
- Você é estranha.
- Por quê?
- Não tem ciúmes, não se importa com traição. Às vezes, penso que não se importa nem comigo.
- Não é bem assim. Dou importância às coisas importantes.
- Tipo?
- Segurança.
- Um anel no dedo?
- Não. Um emprego, uma casa, por exemplo. Essas coisas.
- Você não queria ter vendido a sua casa...
- Não.
- Mas essa é a nossa casa.
- É. Até o dia que você resolver me mandar embora.
- Eu nunca vou fazer isso!

Duas garrafas de champanha de boa qualidade. Silêncios de cumplicidade. Dancinha de rosto colado. Pilequinho. Olhares doces. Troca de presentes. Sexo básico, mas eficaz.

- Tinha que ser assim todos os dias!
- A gente ia virar alcoólatra.
- Não estou falando da champanha, mas do clima.
- Hoje é dia dos namorados, o mundo está em clima romântico. Nos outros dias tem amor, tem sexo, tem romance, mas também tem contas, empregada que falta, problemas no trabalho, filhos e etc.
- Pra você tudo é muito prático.
- Não é prático, é simples.
- Pragmática!
- Racional...
- Fria!
- Jura?
- Não no sentido sexual...
- Hmm.. Queria dormir de conchinha. Dá pra discutirmos o meu pragmatismo amanhã de tarde? De manhã tenho reunião.
- Você não me leva a sério, não é?
- Claro que sim, mas preferia te levar mais a sério amanhã de tarde.

Acende a luz. Veste o pijama. Listrado. Com bolsos. Ela ri. Sempre achou graça do pijama. Ele se enraivece com a risada. Esquece que ela ri quando está nervosa. Ele grita. Ela se assusta. Um emaranhado de palavras sem sentido. Ela observa sem entender.

- Eu não quero mais te ver na minha frente!

Ela, atônita e muda, veste-se. Pega uma sacola, algumas roupas e dirige-se à porta. Ele bloqueia a saída.

- Desculpa. Não foi isso que quis dizer. Vem dormir? Amanhã de tarde a gente conversa.

Dormem.
Ela acorda mais cedo do que de costume. Beija-lhe a face. Despede-se. Vai para o trabalho.
Ele, até hoje, sai à sua procura.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A mesma tecla

Parecendo vitrola escangalhada. Repetindo o mesmo verso. Dia e noite. Noite e dia. Não se cansa. Cansa os outros. A repetir a mesma história. Fragmentos da história. E conta. E volta. E repete.

Fragmentos III

Adorei sua resposta!
Fiquei curiosa sobre a sua carta. Já tirou?

Às vezes eu queria ser mais como você e menos como eu. Dando uma de irmão mais novo: tudo que ele faz dá certo! Dando uma de Marisa Monte: eu faço tudo pela metade.

Sinto saudades de você. Quero ir pra sua concha. Mas talvez não seja o momento. Agora é o seu tempo de trabalhar em trezentos projetos feito um louco e criar e produzir e acontecer. Se precisar de mim, estou disponível. Não é todo dia que tenho compromisso de meia-noite às seis. Então, dá pra marcar!

Adoro a Berta, porém ainda penso que ela deveria ter morrido. Seria mais dramático. Gosto de dramas. Melodramas. E qualquer coisa que faça chorar.

Continuo implicada com os ternos ambulantes. Não consigo ver pessoas dentro deles. Apenas arquétipos.

Um vazio infinito se aproxima de mim. Falta paixão. Aí vem a inércia. Claro! Sou movida a paixões e se elas não acontecem, procrastino a vida. Aguardando um novo instante de encantamento.

E, por fim, descobri mais uma imperfeição, mas não vou escrever sobre ela agora.
Essa desendoidadora de gente ainda vai me deixar louca.

Conta mais sobre você?
beijos,

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Fragmentos

Eu gostava daquele tempo em que escrevíamos um para o outro. Achava poético. Tenho uma queda por cartas. Talvez por não ter recebido muitas na vida. A gente sempre gosta daquilo que é mais difícil de conseguir, não é mesmo? O jogo da conquista permeia por todas as áreas.

Não durmo direito desde sábado. Ontem fiquei direto. Quero dizer, hoje! Ah, já nem sei mais. O fato é que são mais de 24 horas acordada e a minha cabeça não está funcionando muito bem.

A privação do sono da beleza faz com que eu fique mais lerda do que de costume, carente e faminta. Preciso de café, mesmo depois de dois energéticos. Preciso de conchinha. E não tem. Preciso mesmo é de um Big Tasty.

Você já reparou como a minha vida é feita de excessos? Pouco provável. A sua é assim? Ou você é uma pessoa mais comedida? Ah! Ontem teve evento. Foi tão interessante. Teve entrega. Até eu falei, acredita?

Lembrei de outra coisa!!! Ficava arrasada quando você respondia meus e-mails enormes com uma só palavra.

Bom, o assunto é a carta do dia. Então, aí vai.

Abrir-se ao novo é importante!

Este momento é propício para que você abra seu coração para o conhecimento de pessoas novas que surgirão, revelando novas possibilidades afetivas. Isso não significa necessariamente que você tenha que abdicar do velho em sua existência, nem que tenha que cair na farra de uma forma excessiva, mas que talvez seja necessário que você atente para o fato de que curtir com outras pessoas pode oferecer uma perspectiva nova, que até mesmo melhora suas relações antigas. Isso não implica em obrigatoriamente fazer sexo ou namorar outras pessoas, mas no mínimo sair com outras figuras, conversar com gente que gosta de você (até mesmo apenas amigos) e ter uma melhor perspectiva de si através do olhar dos outros. Converse com as pessoas, ouça o que elas têm a lhe dizer, permita-se perceber como uma pessoa sedutora e querida. Ainda que você não faça nada, não deixa de ser uma experiência boa para o seu ego.


Gostei!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Facebook da Garota Enxaqueca

Ainda na vibe T.P.M., passeando por uns sites. Sem atenção. Sem paciência. Xereteando a vida do alheio ponto com ponto br e enrolando na Rede Social.

Tópico da noite: Facebook!

Mulheres Fantásticas, Meninas que Arrasam, Sou Segura e daí? Se é a última coca-cola do deserto, por que anunciar? Pensei.

"Eu sou uma pessoa que" compete com "No caso". Por que as pessoas começam frases assim?

Frases soltas, sabe-se lá de quem, atribuídas ao seu autor favorito.

Fulano marcou você em uma foto. Jura? Logo eu que vivo me defendendo das fotos dizendo que aquilo rouba a alma? Vou ver e é uma árvore, uma garrafa, um flyer de festa tosca. Enfim, uma falta do que fazer!

Convites para CoisasVille: precisa comentar?

Gente que não responde chat. Se não quer conversar, não pede pra ser meu amigo! Não respondeu três vezes é /Ban, lembrando o bom e velho Irc.

Ah! Foto com setinha + Essa pessoa blá blá blá. Sério? Cresce!

Erros CRASSOS de ortografia. Só os crassos. Não vou falar sobre gramática, não tenho propriedade para tanto.

Tá, ficar perto de mim nessa fase pode se comparar a tentar fazer carinho em um porco espinho. Eu sei disso. Mas reconhecer o problema não faz com que ele se resolva sozinho. Continuo carente e chata. Vou ali fazer brigadeiro.

Momento Desabafo

Deitada na cama, de pijama e embaixo das cobertas desde seis e meia da tarde. Sono nem pensar. Só preguiça mesmo. Então, pensando com meus botões, chego à conclusão que T.P.M. é coisa do Cão. Só pode ser invenção dele!

Não sou Amelie Poulain nem Pollyanna. A vida não é perfeita, mas também não é um desastre. Na maior parte do tempo posso dizer que é divertida. Alguns altos e baixos. Nada preocupante.

Aí vem essa porra dessa T.P.M. e eu começo a comer chocolate, massa, carne e tudo que vejo pela frente. Segundos depois, parece que a minha imagem 4:3 foi esticada horizontalmente para caber em widescreen. Viro baleia. Choro. O cabelo emporcalha. Brigo no trânsito. Não tenho roupa para sair de casa. Acordo de mau humor.

Mas o pior, pior mesmo, é a carência! Fico carente. Muito. É uma vergonha, mas é verdade. Rola uma carência tão nefasta que só quem tem T.P.M. no nível Medonhento pode compreender. Nada serve. Nada presta. Em mim, é claro. E, por isso, vivo no abandono. (música triste orquestrada) Sofro! (Ohhhh)

Leio horóscopo, oráculo e - pasmem - Júlia, Sabrina e qualquer livrinho cor de rosa com história de príncipe encantado. Assisto comédias românticas. Choro mais e mais e mais. E quando o choro acaba, volto a comer chocolates.

Leio revistas femininas daquelas com teste no final. Faço os testes!!! Choro (de novo). E sigo me sentindo a mais insignificante das mortais. PQP! Ninguém NO MUNDO merece passar por essa palhaçada todo mês. Juro!
Coração pulsando fraco. Dor. Sangue grudando nos cabelos, nas mãos, no corpo. Sirene. Olhos fechando. Luzes fortes. Sono. Gritos distantes. Sensação boa de dormência a dominar. Não posso mais resistir!          
***

O vento soprava seus cabelos produzindo calafrios em sua nuca. Aquele barco não voltaria. Sentia isso em sua alma. A dor contida. Sem choro. Sem sofrimento. Sabia reprimir sentimentos. Sim, fazia-o com primor.

A imagem do mar e o barco sumindo naquela imensidão cinza ficaram guardados na sua mente. A sensação fria da chuva em seu rosto. E depois da chuva, as lágrimas.

Quando ele pediu um motivo para ficar, calou-se. Ele deveria ter seus próprios motivos. Se não os tinha, deveria partir.

O que é o amor frente a oportunidade de uma vida melhor? O que são promessas de alcova quando vislumbra-se posses, viagens e um mundo a ser descoberto?

Partiu!

Deixou-a sozinha. Sozinha e grávida. Abandonada e grávida. Não suportaria os comentários. Era fraca demais para isso. Sempre fora fraca. Encontraria uma forma de resolver a situação.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Do Alheio

Que poderia ser meu... tamanho o significado no momento.


Me dá

Me dá tua boca, tua saliva, tua língua esquiva, teu espesso suco, teu sumo ávido, teu líquido ácido, teu suor salgado, teus fluidos mornos, tuas deliqüescências. Me dá teus transbordamentos, tua profusão, tua incontinência, tua vastidão, teus secretos rios, teus lençóis subterrâneos, tuas fontes repletas, teus córregos escorregadios. Me dá teu pântano, teu poço, teu mar, teus charcos, tuas aguadas, tuas vazantes, tuas chuvas, tuas torrentes, teus mananciais. Tenho sede de desaguar.

(Patrícia Antoniete - Ticcia - http://www.naodiscuto.com/)

Repetindo

e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos (Manoel de Barros - O menino que carregava água na peneira)

Fixação

Eu gosto de sofrer por amor. Descobri. Não adiantam mil almas querendo a minha companhia. Preciso da dor do amor para ser feliz. Gosto e preciso.

Esse tipo de sofrimento faz desenvolver faculdades às quais tenho apreço. E se não tenho objeto de desejo, invento. E invento a dor também. E acredito.

Fernando Pessoa, nas noites frias, para acalentar a alma.
Whisky para aquecer o corpo.
Porque acho que combina.

Fim de papo

- Nhénhénhénhénhé Fulano!
- Tá e daí?
- ...

Raridade

Vendia comida a granel. Tinha, também, giz que mata barata, presentes e doces em compota. Fazendas e aviamentos. Vendia-se de tudo naquela mercearia, inclusive, jarras-abacaxi.

Sustentava a mulher e três filhos. Construíra um sobrado logo atrás do comércio. O negócio só engorda com o olho do dono. Era o único que possuía televisão em sua rua. Os vizinhos reuniam-se em volta da modernidade à noite. A vendinha lhe dava boa condição de vida.

Os meninos estavam sempre às voltas com peraltagens. Coisa de criança, ele dizia, quando a mãe ralhava com os traquinas. Um dia, tentando fazer uma lamparina, o mais velho botou fogo na loja. Começou pelo estoque de jarras-abacaxi. O item que o menino mais admirava.

Não tinha seguro. Não era coisa que se fazia na época. Queimou tudo. O fogo se alastrou até a casa onde moravam. Passaram necessidade por muitos tempo até se restabelecerem de novo. O filho nunca disse nada. Nem ao pai, nem ao resto da família.

Muitos e muitos anos depois, em seu aniversário de 50 anos, ganhou uma jarra-abacaxi. Os pais, falecidos, não poderiam ver aquele regalo. Os olhos, com brilho de infância, encheram-se de lágrimas. Agradeceu.

A moça que o presenteara ficou sem entender. Ele, muito polido, tentou explicar.

- É raridade!
- Sim, encontrei-a em uma loja de antiguidades. Parece-me que acabaram na década de 70. Já não fabricavam mais e todo o estoque da loja onde eram vendidas pegou fogo.

Ano internacional da feira ruim

Salão de Negócios da Acessibilidade: fraco, sem negócios, sem público. Feira da Lua: sofrível, atentado ao bom gosto. Feira do Livro: poucas novidades, estandes fechados, Café sem café. Pode?

A saída só valeu pelo acarajé que eu trouxe pra casa. Aliás, os acarajés! No mais, poderia ter ficado de pijama mesmo.

domingo, 13 de novembro de 2011

Alta noite já se ia

Ninguém na estrada andava.  

E no caminho que ninguém caminha, que é o coração dessa menina, ninguém com os pés na água. Só ela sozinha, ia. Desbravando o mundo. Experimentando. Sofrendo e sorrindo.

Descobrindo sensações. Desistindo de sentimentos. Perguntando. Silenciando. Entendendo.
 
Para todas as coisas: dicionário! 

A dor conhecida. O vazio. A racionalidade. A falta de vontade de resolver qualquer coisa que deva ser resolvida. Procrastinação é a palavra do ano. Afinal, se ela me deixou, a dor é minha só não é de mais ninguém. Mas, tô com sintomas de saudade. Tô pensando em você.  

Só que já não te quer tanto bem.

Enfim, o que me importa ver você sofrer assim se quando eu lhe quis você nem mesmo soube dar Amor!      

Segue sofrendo esse sofrimento inventado que só ela acredita que existe.

* Músicas incidentais: Alta Noite, Diariamente, De mais ninguém, Sintomas de saudade, O que me importa

O leitor

Escritora sem leitores. Publicava para si própria. Um desavisado, certo dia, leu seus contos. Tornou-se fã. Encantou-se mesmo. Até comentava os textos. Pedia mais.

Ela, envaidecida, escrevia para ele. A relação estabeleceu-se. Trocavam mensagens. O texto era o texto. Personagens, ficção e realidade. Tornaram-se próximos, ainda que distantes.

Agora, escrevia sob demanda. Ele ditava os temas. Pedia crônicas, poesias, contos e até bilhetes suicidas poéticos. Ela desenvolvia.

Sentia que havia arranjado um parceiro. Em seu íntimo, estava feliz.

Ofereceu-lhe flores um dia. Ela riu sozinha. Disse ser impossível. Não forneceria informações tão pessoais. Endereço? Não era seguro. Nem pensar! Não ainda.

Ele, então, mandou um brinde. Por e-mail. Ela poderia escolher o que mais gostasse na loja virtual.

Criativo! Cadastrou-se. Escolheu um cinto. Mandou foto agradecendo o presente. Achou graça da coincidência quando recebeu a encomenda. A transportadora tinha o sobrenome dele.

Às dez da manhã foi encontrada morta em seu apartamento. Enforcada com o cinto. Bilhete suicida poético na cabeceira da cama.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Variação

Eu tive medo e quis isso!

Sobre o Tempo

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã
 

Vou ali. É só um tempo. Mas eu volto. Eu sempre volto.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Kama Sutra

Visita  à repartição pública no horário de almoço. Tenso. Apenas metade dos funcionários trabalham. Aliás, um terço se eliminarmos aqueles que conversam ou jogam paciência no computador.

Senha M8446. No painel, M8312, guichê 72. Perspectiva de horas olhando o teto. A rádio que toca na minha cabeça ensaia os primeiros versos de uma música que ouvi no YouTube. Eu não tenho iPhone, eu não tenho iPod, eu não tenho iPad, aí fode!* Penso em comer o chocolate que habita a bolsa há alguns dias. Melhor não.

Vasculhando a bolsa encontro um livro. Kama Sutra. É melhor do que o teto. Acabo sendo envolvida pela leitura até que um b.e.m.** senta-se ao meu lado. Cara de perdido. Olha a senha. Olha o painel. Repete isso por três vezes.

São mais de 10 repartições atendendo em um mesmo local. O visor alterna as senhas. Uma pessoa grita o número quando o cidadão não sai esbaforido de sua cadeira. Deve ser para se certificar que aquele número (não é isso que somos?) não aguentou o suplício e desistiu.

O b.e.m. resolve, então, olhar pra mim com cara de cachorro embarcado. Fecho o livro escondendo a capa. Visto o sorriso número seis, faço o olhar 43 e explico o funcionamento do painel. Digo que demora. Muito. É minha segunda vez em dias subsequentes no local.

Ele agradece timidamente. Pega seus fones de ouvido. Tira umas folhas de papel da mochila. Volto à leitura. B.e.m., cantarolando algo que não consigo entender, espia o livro por cima do meu ombro. Tento descobrir o que ele lê também. Cânticos católicos!

Nossos olhares se encontram. Ele repete o movimento do olhar - feito antes com o painel - agora com a minha cara e o livro. Se detém por alguns segundos no meu rosto. Enquanto avalio se devo sorrir novamente, b.e.m. faz o sinal da cruz e muda de lugar. Senta-se do outro lado da sala de espera, acredito. Não consigo vê-lo de onde estou.

Eu mereço, né?

* Os Seminovos
** b.e.m. - belo espécime masculino

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Não provoque!

É cor de rosa choque. No salto e nas unhas. Cabelo volumoso. Ar decidido. Pisa no chão sabendo que o mundo lhe pertence.

- Você deveria se chamar Perdição!

Riu jogando a cabeça pra trás. Tentou encontrar algum sobrenome que combinasse. Müller, talvez. Deu de ombros. Continuou seu caminho. Flertando aqui e acolá.

Uma mulher de pequenos vícios. Nada que afetasse as obrigações cotidianas. Poucos prazeres muito bem aproveitados.

Bebida? Dois tipos. Jogo? Pôquer, sedução e charme. A técnica é a mesma. Saber blefar. Não mentir. Desenvolver maestria na omissão.

Casada, é claro! Mulher que não casa, depois dos 35, tem seu valor de mercado reduzido! Machista, sem sombra de dúvidas. Nunca foi pudica, mas discreta. O que dizer? Nada! Envolta em mistério. Sonho de muitos. Realidade de poucos.

Quis filhos. Não conseguiu. Comprou cachorro. Plantas. Livros. Discos. E tudo que preenche o dia. Foi pouco.

Férias sabáticas. Inventou cursos. Aprendeu a viajar. Definiu temas. Cada mês uma palavra. Não saiu da primeira: desprendimento.

Conheceu o mundo. Segurança em casa. Aventura na rua. Cada cidade uma letra. Cada letra um moço. Cada moço uma história. Viveu outras vidas.

Cansou no M. Retornou ao lar. Sentiu-se cativa. Faltou ar.

Na aula de culinária, conheceu Georgette. Mudaram-se para a Tailândia. Aquietou a alma. Na cabeceira da cama, um quadro. Foto clichê. Costas nuas, mãos dadas, pôr do sol. Logo abaixo, os dizeres:

Há mistérios na alma feminina que só as mulheres são capazes de compreender.
Três vivas para o banho mais delicioso da minha vida. É! Graças a técnica milenar de dançar uma hora e meia em um quarto fechado para aguentar o chuveiro frio. Sim, queimou de novo...
Fez curso de terapias alternativas. Pagou com a pensão da mulher. Criava os filhos. Tratava a família de graça. Um dia queimou a perna da mãe. Terceiro grau, disse o médico. A coisa piorou. Infeccionou. Ficou roxa, esverdeada e preta. Amputaram. Nunca contou que não havia se formado. Descobriram muito tempo depois. A lista já era grande. Os vizinhos reconheceram a foto no jornal. O médico e o monstro de Laranjeiras era a manchete.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Troféu Joinha

no quesito: Só piora!

- Concuspisciência?
- Concuspiscência!
- Será?
- Concupi ou concuspi?
- Com cuspe é melhor!
- Eca, que lojo!!!

*Concupiscência: s.f. Inclinação a gozar os bens terrestres, particularmente os prazeres sensuais.

Bens terrestres = prazeres sensuais? Homem é um bem. Bem semovente, ouvi dizer. Passa uma sirigaita e o bem se move rapidinho daqui prá lá.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

"Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy."
(Caio Fernando Abreu - Dama da Noite)

Para o mundo que eu quero descer

Rotina!
Desperta. Desliga. Desperta. Desliga. Mia. Mia muito alto. Toma banho. Dá comida. Não come. Hora? Não há tempo. Arruma. Dá água. Não bebe. Nunca há tempo. Corre. Escada. Carro. Trânsito.

Trabalho:
Elevador. Telefone. Café. Problema e Solução. Reúne. Pensa. Telefone. Fala. Fala. Fala. Para. Café. Ouve. Pensa. O que é almoço? Telefone. Reclamação. Solução de Problema. Define. Volta atrás. O que é tempo? Estresse. Café. Elevador. Trânsito.

Amor?
O que é amor? Família? Gato? Trabalho? Paixões diárias! Comida? Compras? Subvertendo o sentimento. Afinal, o que é amor? Abnegação? Doação? Afeição? Compaixão? Misericórdia? Inclinação? Atração? Apetite? Querer bem? Satisfação? Conquista? Desejo? Libido? Não. Incógnita!

Vida
Transitar. Errar. Tentar. Cair. Aprender. Curtir. Sofrer. Chorar. Rir. Observar. Envelhecer. Finalizar.

O Twitter da vida real permite relações com a duração máxima de 140 segundos. Instantes. Momento: s.m. pequeno espaço de tempo. Contatos fugazes. O importante de hoje transforma-se no nada amanhã. Urgente vira ultrapassado. Trapassato. Passato remoto! Simples. Não há espaço para ligações. O que é tempo?

Sensação de perda. Abandono. Real debilidade do Ser frente à necessidade de inovação. A vida não é filme. Videoclipe, talvez. Não se lê. Fala-se. Não se absorve conhecimento. Espelha-se. Cultura de orelha de livro. O que é um livro?

Trata-se do modo escolhido. Diz-se. Não há escolha! Não entende? Vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz. As massas reverberam o pensamento de poucos. Ecoam o desejo de um.

O twitter da vida real permite relações com a duração máxima de 140 segundos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Seja bem-vinda, disse ao me ver entrar no restaurante. Comida boa. Preço justo. Atendimento eficiente. Voltei.

Todos os dias. Seja bem-vinda. No caixa, somava minha conta. Sorria. Acenava com a cabeça. E repetia a frase. Dias. Meses. Anos. Seja bem-vinda! E um sorriso sincero.

Habituei-me a ser bem-vinda naquele local. Sempre alegre. Ambiente familiar. Nenhuma conversa. Sem intimidades. Apenas a saudação. E, por diversas vezes, a saudação foi mais do que suficiente.

Um dia como outro qualquer. Hora do almoço. Caminho conhecido. Portas fechadas. Aviso na parede. Comunicado de falecimento.

Fui ao Cemitério. Sua esposa, de preto, chorava e colhia as lágrimas no canto dos olhos com um lencinho de renda.

Reconheceu-me. Veio em minha direção. Abraçou-me por mais tempo do que eu gostaria. Olhou-me com os olhos tristes. Esses olhos que só quem já perdeu alguém distingue. Indicou-me a capela. E, por fim, disse-me:

- Seja bem-vinda!

Quem é Narciso?

Sempre me senti personagem na vida. Às vezes olho de longe, outras, participo. Hoje me vi personagem. O Leitor.

#todabobapontocompontobr

terça-feira, 1 de novembro de 2011

TOC

Delícia esse cheiro de banho! Sabonete. Produto de limpeza. Amaciante. Desinfetante. Creme hidratante. Higiene pessoal. Pasta de dente. Óleo de banho. Água de cheiro. Shampoo. Lysoform. Condicionador. Creme para as mãos. Pés. Cremes e mais cremes. Perfume. Desodorante. Lustra-móveis. Tudo!

A alma gosta de limpeza!

Revendo conceitos

Ok, então o torturador perdeu a forma de carrasco. Começo a gostar dos exercícios. Hoje troquei vinho por caminhada. Cigarros no fim, é claro! Mas sinto-me melhor. Curei o mau humor medonho com duas horas de (muito?) esforço físico. E é isso. Mais elogios para o quesito malhação ainda vão demorar a sair daqui.

AAAAAAAAH!

Matei mais um chefão! Passei de fase no videogame da vida. Preciso, agora, salvar o jogo para não ter que recomeçar o mesmo nível.

Obsession

Comprei massinha de modelar.
É hoje!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Na saúde e na doença

Não falava há mais de três meses. Aliás, desde o acidente. Comia e dormia. Passava os dias em silêncio. Ela era persistente, mas até a persistência tem limite. Seis meses e nada mudara. Contratou uma equipe de médicos. Além de doutores, psicanalista, enfermeiro e fisioterapeuta.

Não, não era essa vida que havia imaginado. Astrogildo imóvel. Calado. Taciturno. Nem as noites de carteado empolgavam-no. Nada. Ela até aprendera a jogar. Ele não se mexia. Não empurrava a cadeira. Não saía do lugar. E o pior, o pior mesmo, não dizia uma palavra.

Aquele homem era apenas uma sobra do que fora no passado. Dora trabalhava pelos dois. Seu pai ajudava no que podia. Será que a doença o atacara de vez? Ela pensava. Ele está paralítico, mas os médico deram esperanças. Se ao menos ele se exercitasse. Se ele tentasse. Tudo era possível quando se tinha fé. E ela tinha. Pelos dois. Mas começava a demonstrar os primeiros sinais de cansaço.

Astrogildo parecia irredutível. Dora, por fim, pareceu afrouxar. Diminuiu os cuidados. Dispensou os médicos, enfermeiro, psicanalista. Manteve apenas o fisioterapeuta. Exigência de seu pai. Ajustou a agenda para que não se encontrassem. Basta de ter um hospital dentro de minha própria casa! Todos entenderam.

Enfim sós, diriam. Colocava-o na cadeira de manhã cedo e empurrava-o até a janela. A vizinha levava comida ao meio-dia. À tarde, dava banho, comida e levava-o de volta para a cama. Continuou a trabalhar. Sua única alegria. Os poucos momentos que passava fora de casa, sem a presença patogênica de Astrogildo.

Passado um tempo, começou a chegar cada vez mais tarde. Envolvia-se com o trabalho. A vizinha, agora, dava também o jantar a ele. Ela não voltava antes das dez. Vez por outra, esticava a noite. Não a recriminavam. Dora era vista como uma mulher santa. Sustentava a casa, cuidava do marido enfermo. O que mais podiam exigir?

Astrogildo não falava. Só existia uma versão da história.

- Caiu e bateu a cabeça.
- Como, Dorothéa?
- Saíamos de um clube. Repletos de felicidade. Havíamos marcado a data, sabe?
- E você nunca pensou em desistir?
- Que tipo de mulher eu seria se abandonasse o meu amado por uma enfermidade? Promessa é promessa!

E os vizinhos se ressentiam por ela. Perdoavam suas pequenas falhas. Suas traições. Suas omissões. Até ela começava a acreditar que era realmente uma santa.

Havia acostumado-se àquela rotina. Tarde da noite, como muitas outras vezes, abre a porta fazendo barulho. Ouve vozes. Ladrão! Pensa. Aos poucos, reconhece. Astrogildo! Ele voltou a falar. Corre para o quarto em êxtase. Sabia, eu sabia que ele poderia se recuperar!

- Astrogildo!!!

Ela berra espantada enquanto o fisioterapeuta veste-se às pressas. Astrogildo não olha em seu olhos, com a voz embargada, consegue apenas balbuciar.

- Eu... Eu tenho uma doença. Eu te disse...

A última palavra

- Eu não sei como te dizer isso.
- Assim você me deixa nervosa.
- É grave, Dora. É caso para ficar nervosa mesmo, mas não sei como iniciar o assunto.
- Começa pelo começo.
- Não é assim, Dorinha.
- É sim. Você começa o que tem que falar pelo começo, eu vou escutando e no final digo se concordo ou não.
- Não há necessidade de concordância.
- Não?
- Não. Estou decidido.
- Então você começa me dizendo o que decidiu.
- É difícil.
- É a data?
- Não.
- Se não é a data não sei o que é. Nada pode ser mais difícil de dizer do que a data.
- É o fim, Dora.
- O fim?
- É.
- Do quê?
- Do quê, Dora?
- Não sei, Astrogildo, o assunto é seu. Pensei que iria começar pelo princípio, mas você quer fazer tudo ao contrário.
- É o fim do noivado. É isso! Pronto, falei.
- Que brincadeira mais sem graça, Astrogildo.
- Não é brincadeira. Você não pode se casar comigo.
- Não posso por quê? Nossas famílias se conhecem, nós nos amamos. Não tem nada de errado em nos casarmos. É até natural.
- Eu tenho uma doença.
- "Na saúde e na doença..."
- Não, Dora! É sério.
- Nada pode ser mais sério do que o meu amor por você.
- É grave, Dora. Não faça pouco caso!
- Grave vai ser o meu estado se ficar sem você.
- É definitivo.
- Astrogildo...
- Está decidido. Precisava apenas lhe comunicar.
- Mas..
- Nem mas, nem meio mas.
- Astrô?
- Doença, Dora, é coisa séria. Temos que pensar no futuro.
- Diz o que é, Astrogildo. Papai é médico, você sabe.
- Não tem cura.
- Claro que tem. E se não tem, vão descobrir.
- Já me informei. Não existe. É de nascença.
- Você não pode estar falando a verdade.
- Estou, Dora. E já disse mais do que pretendia.
- Onde você vai?
- Hoje é noite de poquer.
- Astrogildo, nós não terminamos essa conversa!
- Nós já terminamos tudo.
- Astrogildo, volta aqui!

Pegou o chapéu, os óculos, o maço de cigarros. Dirigiu-se à porta.


- Volta aqui, Astrogildo! Se você não voltar, eu.. eu.. Astrogildo! Você vai se arrepender! Não tem mais volta, Astrogildo! Se você for jogar hoje, não nos casamos mais!

Ele colocou o chapéu, acendeu o cigarro no canto da boca e disse: Você é quem manda, boneca. Piscou pra ela e saiu.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A obsessão continua...

... comprei canetinhas e giz de cera. Encomendei pastéis e lápis de cor aquarelável (ado?). Preciso de um novo roteiro. Já imaginei dez. Respiro, como, bebo, sonho animação.

A terapeuta perguntou: e o rapaz? 
- Ahn?
- O rapaz!
- Ah, não ligou, você acredita?
- E como você está se sentindo?
- Bom, não pensei muito no rapaz, mas o fato do peixe parecer estar montado em um touro mecânico é algo que tenho que resolver!
- O quê?
- Já te falei do Stop Motion?

O que é normal?

- Eu gosto quando corta.
- Prefiro quando sangra.
- Desde que doa...
- Talvez.
- Não sei viver em paz.
- Nunca soube?
- Não. Tive uma infância difícil.
- Todos temos histórias tristes.
- Mas eu gostava.
- Adolescência?
- Completo abandono.
- E?
- Sentia-me mártir. Queria fazer mais. Ajudar os outros. Exigia de mim, do meu corpo, da minha cabeça. Satisfazia-me com a exaustão. Você?
- Tranquila. Criava os problemas e solucionava-os. A grande questão - o que pegava mesmo - naquela época era a cabeça. Quando me sentia diferente enveredava-me pelas profundezas da minha personalidade e ficava deprimida.
- E agora?
- Continua a mesma coisa, mas não sofro tanto.
- Melhor, não?
- Não sofrer é não sensibilizar o outro. Não se recebe tanta atenção, mas é possível viver assim.
- Sei.
- Entende?
- Sim.
- Eu gosto assim.
- Como?
- Com equilíbrio, mas na corda bamba. Sei o que deve ser feito. Às vezes, não faço. Desafio. E volto pro ponto neutro. Preciso de emoções mais fortes, mas aprendi - também - a dominá-las.
- Não conheço equilíbrio.
- Sempre só?
- Não. Tive família.
- O que aconteceu?
- Foram embora.
- Não te ajudaram?
- Não entenderam.
- Seu sofrimento?
- A motivação.
- Agora, acho que nem eu entendi.
- Sempre fiz tudo por eles. Cuidei de marido, filhos, casa e até de bichos. Sustentava financeiramente e, também, emocionalmente.
- E eles não ficaram gratos?
- Não. Simplesmente aprenderam a viver sozinhos. Cresceram, talvez.
- E foram embora?
- Não, ficaram comigo até eu adoecer.
- E então...
- Eu desisti.
- Deles?
- Da vida.
- Por que?
- Perdi o grande objetivo.
- O que faltou?
- A falta.
- De quem?
- De mim. Em um dado momento vi que a minha presença não era indispensável. Eles não precisavam de mim para viver. Apenas queriam a minha companhia. Foi aí que não consegui mais viver.
- Tentou suicídio?
- Abandono.
- Mas não foram eles que te deixaram?
- Sim. Mas antes disso, bem antes, deixei o emprego. Aposentei-me por invalidez. Dizem loucura por lá. No laudo está escrito invalidez. Daí por diante não sei descrever bem o que aconteceu primeiro.
- Não se lembra?
- Vagamente. Dormia muito. Os meninos já não conversavam comigo. Marido, então, só trabalhava.
- Nenhum diálogo em casa?
- Eles conversavam. Eu não entendia. Ninguém precisava de mim. Eles apenas queriam a minha companhia, já disse. E, sem que eu percebesse, deixaram de querer. Um dia acordei e a casa estava vazia. A verdade é que felicidade mata. Destrói. Afinal, quem quer - realmente - viver em paz?
- Alguns dizem que...
- Balela!
- Não acredita que possam...
- Não conheço quem viva bem sem agruras.
- Só lhe sobrou amargura?
- Não, mantenho a altivez. Mas me diga, e você? Disse que gosta quando sangra...
- Sim. Nos outros. Semprei gostei da cor vermelha.

A obsessão ou Stop Motion 101

Hoje em dia tem muito lixo na internet. Aliás, no mundo. Então a gente tem que procurar bastante até encontrar algo de bom. E quando encontra é aconselhável guardar. Achei o corramary.com por acaso. No Google, talvez. E desde a primeira vez que li fiquei encantada. Foi esse post aqui que me conquistou!

A obsessão por pessoas, situações, objetos e etc é algo que tenho em comum com a autora do texto. E, desde junho, vez ou outra penso nesse assunto. Talvez fosse o caso de levar para a terapia, mas a única que realmente me incomoda é a das pessoas. Situações e objetos são obsessões até divertidas.

E para exemplificar as divertidas vou falar do stop motion.

Segundo a Wikipedia o stop motion é uma técnica de animação fotograma a fotograma (ou quadro a quadro) com recurso a uma máquina de filmar, máquina fotográfica ou por computador. Utilizam-se modelos reais em diversos materiais, dentro dos mais comuns, estão a massa de modelar, ou especificamente massinha.      

Dois dias em cima da cama com dor nas costas, sem televisão, sem posição para ler e sem ânimo nenhum resultaram numa maratona de filmes. Dentre eles, uma animação. A criatividade para a escrita também não estava em alta. Assim, resolvi reler alguns textos do blog. Daí surgiu a ideia: fazer um stop motion com uma crônica. Ou um conto. Ou qualquer coisa. O importante era fazer o stop motion.

Depois de horas baixando tutoriais sobre o assunto e, principalmente, sobre como modelar os tais bonequinhos de massinha percebi que minha habilidade manual não seria suficiente para estrear com um blockbuster. É claro que eu queria fazer algo, no mínimo, similar ao Wallace & Gromit, A Fuga das Galinhas ou A Noiva Cadáver.

Baixei a bola. Procurei bonequinhos para venda. Não tem. Esqueletos? Também não. Ok, biscuit! Isso eu sei que vende. Na primeira pesquisa: não serve, resseca e quebra. Bom, passei os tutoriais para uma colega e encomendei as personagens. Fiz o roteiro em menos de meia-hora e resolvi me ocupar da parte divertida do filme: as fotos! Aí eu me garanto, pensei.

Peguei a versão trial de um programa estilo Stop Motion for Dummies. Mantive um mínimo de sanidade para não comprar o programa logo de cara. Peguei a câmera, o computador e o Nemo. É, o peixe! Nada mais fácil do que fazer um peixe se movimentar como se estivesse nadando, não é mesmo? Não. Absolutamente não! O meu peixe não nada, ele monta um touro mecânico.

Fiz o filme mais tosco que já vi em toda minha vida. Barbaridade, diria minha mãe. Tentei melhorar colocando uma música, mas não ficou grande coisa. Fiz um preenchimento no primeiro plano. Só não piorou porque a filmagem já estava muito ruim (isso está me lembrando o frango da janta).

O resultado final foi catastrófico. Estão curiosos? Vou colocar o vídeo aqui, mas depois não digam que não avisei. Não aceito reclamações!

video


P.S.: Amanhã compro cartolina e um caderno. Se não der certo com colagem, tento o desenho.
P.S.2: Passei mais 5 horas lendo manuais sobre animação. É ou não é obsessão?

P.S.3: Achei uma maçã no teclado. Fofo!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Estômago de Avestruz

Eu já comi muita coisa ruim nessa vida só por dó de jogar comida fora, mas hoje eu me superei.

O frango estava seco, joguei um azeite pra tapear. Não deu certo. Tive, então, a brilhante ideia de colocar geleia de gengibre com limão. Foi demais, ficou doce. Pra tentar amenizar, cobri com redução de aceto balsâmico. Deu um toque azedo adocicado. Finalmente, pra conseguir comer, joguei batata palha por cima.

Aí sim, ficou ruim.
Agora, pergunta se eu joguei no lixo?!

domingo, 23 de outubro de 2011

Vencida!

Acho que passei do prazo de validade. É assim: quando a gente é mais nova, dorme em qualquer lugar e resolve o problema. Depois de uma certa idade, se dormir em qualquer lugar cria o problema.

E é isso que está acontecendo. Segunda-feira, na casa da minha tia, estranhei a cama e os travesseiros. Senti uma dor incômoda nas costas por uns dois dias. Depois, só lembrava dela nos movimentos bruscos. Na sexta, casa nova do amigo G., impliquei mais uma vez com o colchão. Acordei meio torta, mas não dei muita atenção.

A coisa foi piorando, sabe-se lá o porquê, e agora estou aqui - na cama! - sem conseguir me mexer direito. Viro a cabeça e dói, levanto o braço e dói. Não tem posição que amenize.

E desta vez nem posso colocar a culpa no Torturador Particular, coitado, ficou doente e não apareceu na masmorra essa semana.

É Lasefoia e PVC!
Não tem outra explicação.

sábado, 22 de outubro de 2011

Feliz aniversário, Vivi!

Nos últimos anos encontrei uma forma inusitada de fazer amizades. Atendendo ligações! Normalmente os telefonemas têm origem em reclamações.

Isso acontece no trabalho e é mais ou menos assim:

Alguma coisa dá errada e está relacionada ao que faço no trabalho. Então, a pessoa me liga com uma dúvida ou querendo me xingar. Eu procuro sorrir enquanto falo. Li isso em um curso de atendimento telefônico e achei divertido. A pessoa explica o problema e quando vou tentar resolver, usualmente, preciso usar o computador.

Não trabalho no pior lugar da face da Terra, mas às vezes o "sistema está lento, senhora". Sabe como é? Aí fica aquele silêncio. O telefone grudado na orelha e a pessoa muda do outro lado.

Bom, nesse momento de mudez repentina e simultânea me dá um clique e eu começo a tagarelar feito uma louca. Ao mesmo tempo, soluciono o problema da figura.

Aí, alterno explicações técnicas e conversinha engraçada. No fim, a pessoa fica satisfeita, tem a sua questão sanada e ainda dá umas boas risadas.

Assim encontrei a Vivi. Uma pessoinha muito querida, sensível e divertida que vem fazendo parte da minha vida há mais de seis meses. A gente ri junto, se emociona, vibra uma pela outra e nem se conhece. Ela lê os meus textos, dá pitacos, assunta minha vida pessoal. Conta do trabalho, do mocinho e da correria da cidade dela.

Hoje, no aniversário dessa criaturinha maravilhosa, quis fazer uma homenagem.

Vivi, mesmo sem nunca ter te visto, em certas horas parece que você está aqui ao meu lado. Obrigada pelo carinho e pelo apoio. Você é uma amiga de verdade! Te desejo saúde, paz, felicidade, sucesso e muita alegria. Espero que muita gente te faça feliz. Assim como você faz sorrir toda essa gente que vive à sua volta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Love Store

- O que a senhora deseja?
- Amor.
- Só tenho um grande. Vai levar inteiro ou quer que tire um pedaço?
- Quanto fica se eu levar inteiro?
- Só um minuto, senhora, preciso somar. Olha, deu o total de...
- Nem precisa falar, já vi! É muito caro!
- Mas é grande, senhora. Um grande amor não sai barato, pode procurar em outros lugares. E tem mais, esse item está em falta no mercado, sabia? Quanto mais raro, mais caro. É o que dizem.
- Corta um pedaço então. Não muito grande.
- Aqui está bom?
- Acho que é pouco amor.
- Mais pra cá, então?
- É, pode ser.
- Ah, lembrei que lá no estoque tem um outro pedaço. O dono pediu para recolher porque parece que venceu. É um amor antigo, mas também é grande e bem mais barato. A senhora quer ver?
- Traz aqui. Dependendo do preço compro todo.
- Só um minuto, senhora.
- Está bem...

Seus olhos acostumam-se à penumbra da loja. Vasculha as prateleiras em busca de algo um pouco mais barato que pudesse substituir a sua necessidade de ter um grande amor. Situação difícil. Encontra em um vidro sujo, meio largado, amor em pedaços.

O preço é realmente menor. Fica intrigada. Leva o pote até o balcão. Continua a procurar. Ele retorna. O amor antigo era ainda maior do que o novo. Ela mal consegue conter o sorriso.

- Pronto, senhora, aqui está.
- Quanto custa esse?
- Um terço do preço do outro.
- Mas por que essa diferença toda? Não é um grande amor?
- É, mas é antigo.
- Um amor passado?
- Pode-se dizer que sim.
- Por isso que ele está esverdeado nas bordas?
- É, quando os amores perdem seu prazo de validade ficam assim. Depois de um tempo tornam-se completamente verdes. No começo a cor é escura, verde musgo. No fim, ficam claros, num tom de verde água.
- Então vira um amor mofado?
- Não, vira saudade. Quanto mais escura a cor, mais forte. Igual aquela da vitrine.
- Saudade?
- Isso mesmo.
- Ela brilha.
- Porque é pura. Não está misturada com mágoa e nem ressentimento. É a mais cara da loja.
- Nunca tinha visto uma saudade assim.
- Eu já experimentei. Não existe nenhuma sensação que se compare a isso. A saudade pura é, também, plena.
- As bordas do amor antigo não brilham.
- Não, acho que está misturado com um pouco de sofrimento. Só saberemos quando terminar a transformação. Posso embrulhar?
- Ah, eu não vou querer um amor antigo que já se perdeu no tempo e, ainda por cima, está se transformando em saudade. Aí eu teria que levar tristeza e melancolia para acompanhar. E ainda correria o risco de ter sofrimento junto.
- É verdade, mas posso fazer um desconto. Esses estão em promoção. Tem tanto por aí que quase ninguém mais procura.
- Não, definitivamente não! Quanto custa esse do pote de vidro? É pequeno, mas ao menos não mudou de cor.
- Ah, esse a senhora não vai gostar. Eu não gostaria.
- Só por causa do tamanho? Se não posso ter um grande amor, me contento com um pouco menos, porém ainda é amor.
- Mas esse é despedaçado.
- Despedaçado?
- O nome correto é: Amor estraçalhado. A senhora conhece?

Ficou muda. Seus olhos umedeceram. Uma lágrima desceu suavemente a face pálida. Baixou a cabeça. Limpou o rosto. Voltou a procurar. Ele guardou o pote embaixo do balcão. Ofereceu-lhe um copo d'água.

- Quer vender?
- O quê?
- Lágrimas sinceras. Não temos há muito tempo. Acredito que poderíamos ganhar alguns clientes com isso.
- Não, obrigada.
- Tem certeza?
- Sim, são raras. Quase nunca choro.
- Por isso...
- Não, não consigo.
- Posso lhe mostrar o pote novamente e..
- NÃO!
- Desculpe-me, senhora, não quis lhe ofender.
- Não ofendeu. Eu é que peço desculpas. É que...
- Sim?
- Eu realmente conheço o amor estraçalhado.
- Comprou-o por engano?
- Não. Vendi.

Justiça

E por todas as vezes que o McDonald's errou meus pedidos esquecendo uma batata, deixando uma cebola ou tirando um tomate, hoje, acrescentou um sanduíche.

Além do tradicional Big Tasty com batata e nuggets, veio um McChicken.
Comi!

Melhor do que me arrepender depois.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sem inspiração

Linkin Park me traduz hoje.

I've tried so hard
And got so far
But in the end,
It doesn't even matter.
I had to fall
To lose it all
 
But in the end,
It doesn't even matter.
I've put my trust in you...
Resmungar

v.t. Pronunciar confusamente, por entre dentes e com mau humor: resmungar invectivas.
V.i. Falar baixo, geralmente com rabugice; rezingar: o velho foi-se embora resmungando.

Ficar velha, tudo bem. Acontece. É o ciclo natural da vida.
Mas velha e chata? Aí não, né!

Acorda Alice!

domingo, 16 de outubro de 2011

Astrô

- Dora, você me ama?
- Claro que sim, somos primas.
- Mamãe não gosta da Betina, você sabia?
- É que a tia Marilu se preocupa com você. A Betina é meio mal-criada. Eu gosto dela, mas ela não tem a mesma educação que a gente, né?
- Ah, Dora, não fala assim da Betina!
- Digo isso pelo que você me conta. Porque até hoje, nunca a vi. É isso que a tia Marilu reclama também. A Betina só aparece quando não te ninguém em casa. Isso não é comportamento de moça decente.
- Dora, deixa a Betina quieta. Ela é minha amiga, gosta de mim e isso é suficiente.
- Tudo bem. Não falo mais nada sobre isso.
- Dora...
- Quê!
- Dora..
- Fala!
- O Astrogildo...
- O Astrogildo o quê?
- Nós fomos ao baile juntos.
- Eu sei. Vocês vão namorar?
- Não, Dora. Ele perguntou sobre você.
- Perguntou?
- Sim. Disse que queria sair com você. E pediu que eu o ajudasse.
- Que audácia! Ele não sabe que você gosta dele?
- Eu não gosto dele, Dora! Somos apenas amigos.
- Eu também não gosto dele.
- Então não aceita o convite quando ele te chamar para sair e pronto. Não precisa se irritar comigo.

Astrogildo. Que tipo de nome é esse? Astrogildo! Nome de panaca, no mínimo. Eu não vou sair com alguém que se chame Astrogildo. Imagine só, convite de casamento: Dorothéa e Astrogildo. Nunca! Se fosse Agnaldo, Athayde, Arlindo tudo bem, mas Astrogildo não. Isso para comparar só com os nomes que começam por A. Se mudasse a letra, coitado, não teria nenhuma chance mesmo.

Flores são tão românticas. Adoro gérberas. Aliás, amo gérberas, principalmente, as amarelas. E girassóis também, só porque parecem gérberas aumentadas. Como foi que ele adivinhou? Bom, não adianta pensar nisso agora. Já dei minha resposta e permanecerei firme. Não saio com ele e ponto final. E se eu me apaixono? Do que vou chamá-lo? Astrô? Não. Definitivamente, não!

Astrô foi me buscar hoje na saída do colégio. Ficou com ciúmes dos alunos que me traziam presentes. Ele é tão carinhoso, tão atencioso. Ah, não sei como fui tão boba demorando para aceitar seus convites.

Hoje ele disse que tinha um assunto complicado para conversar comigo. Pensei que ele não queria mais me ver. Fiquei tão tensa. Acho que estou realmente apaixonada. Quando chegamos à confeitaria, disse-me que não gostava que o chamasse de Astrô. Falou que ficava pior do que Astrogildo que já era um nome horrível. Ele não gosta do nome dele, pode? Tão bonito! Astrô. Astrogildo. Acho que até rima com o meu. Astrogildo e Dorothéa. Combinação perfeita.
Cashback, Mildred Pierce, Riverworld, Merlin, Greys Anatomy, Private Practice, Pan Am, Hung, Flypaper. Tudo isso embaixo do cobertor, com barulhinho de chuva e brisa fresca.

Do contra, sempre!

Foi só pensar em fazer regime que comecei a comer desenfreadamente. Frango indiano, mousse de cupuaçu, frutas vermelhas com chantilly, maionese, pipoca, brigadeiro, frango assado, picadinho e muito, muito arroz jasmine.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Amizade verdadeira

Ela diz que eu não posso parar. Às vezes fico cansada. Então ela grita. Não consigo me esconder, por mais que eu tente. Ela sempre me encontra. Saio pelas ruas, pego a condução trocada, quando desço - mesmo que não seja o meu ponto - lá está ela.

Parece perseguição. Ou é perseguição, não sei. Acho essa palavra muito forte. Gosto dela. Às vezes. Mas tenho medo. Eu não sou assim. Ela me exorta a dizer essas coisas horríveis. Diz que devo aprender a me defender. Diz que sou boba. Ela me ajuda. Conhecemo-nos na infância. Não sei imaginar minha vida sem ela.

Ele surgiu bem depois. Nem sei dizer a data. Estava voltando do clube. Tinha ido ao baile com um amiguinho, como dizia meu pai. Pra mim, era namorado. Me arrumei toda. Passei o perfume francês da mamãe. Coloquei brincos e o anelzinho de pérola que vovó me deu quando completei quinze anos. Batom, sombra e até ruge. Comprei meias de seda com costura. Chique!

Dançamos boa parte da noite. Já era tarde quando, de repente, ele me pediu para ir à varanda. Mal conseguia respirar. Paramos em um cantinho mais reservado. Fitei-o por uns instantes e logo depois baixei o rosto. Tímida. Fechei os olhos e esperei o beijo.

- Sabe a Dorinha?
- Ahn?
- A Dorinha, tua prima! Será que ela aceita sair comigo?
- Ahn? Aceita. Aceita sim.
- Você me ajuda?
- Claro que sim. Somos amigos, não é mesmo?

Fingi uma indisposição minutos depois e fui pra casa. Desci do bonde antes. Precisava andar. Foi aí! Foi aí que ele apareceu pela primeira vez. Terno de risca de giz e chapéu. Elegante. Fumava muito, mas não tinha cheiro de cinzeiro como os outros. Posso jurar que ele surgiu de dentro de uma bruma. Assim, do nada. Tão etéreo.

Contei tudo que havia acontecido. Sentou-se na praça comigo e ouviu-me com atenção. A cada lágrima, uma palavra de encorajamento. Naquela noite, aprendi a lidar com os homens. Ele não exige muito de mim. Somos bons amigos. Apenas isso.

Ela, não. Ela é possessiva. Tem ciúmes até dele. Mas acho que amigas de infância são assim mesmo. Ela nunca se casou. Nem eu. E não é agora que já somos balzaquianas que vou abandoná-la. Isso não se faz!

Ela está sempre comigo. Nos melhores e nos piores momentos. Quando papai morreu estava lá. Ela me ajudou sobremaneira. Papai respirava com tanta dificuldade. Sofria. Agonizava e não partia. A ideia foi dela, mas executamos juntas. Acho que ele entendeu. Foi melhor pra ele, ela disse. Ela sabe das coisas. Disso eu sei.

Mamãe não gosta deles e é recíproco. Não posso falar deles em casa. Mamãe proibiu. Mas são meus únicos amigos nessa vida. Os outros não. Nunca vi. Ouço apenas as vozes.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Vida saudável

Não confio nessa história de que exercícios fazem bem à saúde. Mas a minha versão saudável achou interessante tentar. Então, além de começar a fazer dieta, matriculei-me em um sei-lá-o-quê individual. Isso significa duas horas semanais na masmorra com o torturador particular.

Em duas aulas eu já consegui sentir dor em - absolutamente - todos os músculos do meu corpo, brigar com o Carrasco e, pior, colocar em risco a quinta-que-promete. E tem mais! Perdi o feriado em cima de uma cama por não conseguir me mexer. Tudo dói. TUDO! Respirar dói, andar dói, rolar na cama dói.

Poderia fazer uma massagem ayurvédica pra tentar melhorar, não é mesmo? Claro que poderia, caso o massoterapeuta não acumulasse a função de Personal Trainer. Logo, eu brigo com um e fico sem os dois. Bom, o relaxante muscular vai ter que dar conta do recado.

Nunca torci o pé ou machuquei o braço lendo um livro. Nunca tive tendinite por tomar uma cervejinha. Massa, feijoada, picanha, sorvete e brigadeiro - até hoje - nenhum estiramento muscular por causa deles. Aí, vem me dizer que exercício é bom. Bom pra quem? Pra minha perna que não funciona há mais de 24 horas?

"Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem." (autor incerto)

Desistir: é só nisso que eu penso. Jejuo, faço carboxiterapia, tomo Inneov e o resultado vai ser o mesmo. Se me sentir aquilo do cavalo do bandido, a terapeuta conserta.

A lata de cerveja

Ela continua lá. Mas os vinhos e as Champas da casa do amigo A. morreram! Contagem final: quatro garrafas mortas, dois bêbados, um semi-bêbado, Big Tasty e 2 caixas de nuggets para finalizar a noite.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

domingo, 9 de outubro de 2011

Tem dias

qua estou brega até a alma. Três cervejas na geladeira, pijamas e Roberta Miranda. Deve ser suficiente.

Autoanálise

Sair e não voltar mais deixou de ser opção. Fugir de casa também. Apesar de pensar, ainda, que fugir de casa quando se mora só é um luxo, não é mais uma opção. A vida adulta anda me perseguindo.

Preciso reformar o banheiro, pagar as contas, levar o gato ao veterinário, fazer exercícios, comer bem, dormir mais, fumar e beber menos. São tantas tarefas e a única palavra que me vem a mente é: procrastinação. Os armários continuam bagunçados.

Novas experiências. As reações não são mais as mesmas. Fugi da terapia nos últimos meses. Quem vai me explicar o que acontece? O projeto de melhorias não incluía ter de pensar sozinha. O projeto de melhorias era: aprender a pedir ajuda.

A cabeça continua grudada no corpo pelo pescoço e, só por isso, não a deixo por aí. Os pensamentos continuam bagunçados, tanto quanto os armários. Mas há uma leveza. Um quê de felicidade. Um esboço de sorriso. Um brilho no olhar.

Tem, ainda, essa sensação estranha de que tudo vai dar certo.

(P.S.: Continuo com ódio da nova ortografia)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Noturna

Chegou, jogou os calçados para o alto e deitou-se. Ainda teve tempo de olhar a porta se fechando antes de escutar o estrondo. Noite fria, mas nada era tão frio quanto o seu olhar. À noite todos os gatos são pardos. Não conseguiu lembrar o autor da frase. Pensou em vasculhar na internet. Estava tão cansada. Vejo amanhã, se ainda me lembrar disso.  

Origem desconhecida! Tanta informação aí sobre tudo e me deparo com isso. Pensei que nada mais, hoje em dia, pudesse ser desconhecido. Mas me engano. E me corrijo. São conhecidas as máscaras, mise-en-scène puro. As pessoas - assim como o autor da frase - são verdadeiras incógnitas. Por isso fria. Por isso distante.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Jogo

Bobo, eu disse. Ele riu. Aquele riso sem graça sem saber se era bronca ou brincadeira. Depois foi se afastando. Parou para me observar. Não disse nada.
Bobo! Eu gritei. Ele segurou meus braços e me deu um beijo daqueles de tirar o fôlego.
Boba. Eu me senti.

domingo, 2 de outubro de 2011

Igor

Rolou aquele estresse quando cheguei. Resmungou um pouco e ficou arisco. Depois dormiu, emburrado, mas dormiu. No dia seguinte começamos bem, ele já estava fazendo gracinhas e tudo mais. De repente, não sei porquê, emburrou de novo e partiu pra agressão física. Arranhou meu joelho, mordeu minhas pernas e começou a rosnar.

Foi aí que resolvi dar um basta nessa história.

- Olha aqui, Igor... Eu sei que você está triste porque viajei e te deixei em casa sozinho, mas a tia veio cuidar de você, não veio?
- Miu..
- Então! Você preferia ficar num cubículo no Pet Shop?
- Miu..
- Pois é. Cheguei em casa e até agora só fiquei com você. Dá pra valorizar isso e parar de me atacar? Vem aqui no meu colo, vem?
- Miééééauóon. Fssss Fssss
- Ok, se você prefere assim... Só quero te avisar que você não é o único vira-latas bonito que tem por aí. Vou colocar essa foto em cima da sua cama pra te lembrar, tudo bem?


Concorrente Porteño do Igor
(Foto: Gabriel Munhoz)

Não respondeu mais. Nem olhou pra foto.
Além de carente, é ciumento.
Depois de mais de 100 dias de seca, ver a chuva é quase o mesmo que assistir a um espetáculo. Fico aqui hipnotizada pelos pinguinhos, olhando a janela, sentindo cheiro de terra molhada.

Bah, tá melhor até do que cheiro de fritura! E olha que eu amo junkie food.

sábado, 1 de outubro de 2011

Pensei em colocar um anúncio no jornal. Mulher solteira procura:... Desisti. Não soube o que escrever depois.

The way it is

Tem certas coisas que são erradas do começo ao fim e parece que exatamente por isso são tão boas. Deixam na gente um gostinho de quero mais. Mesmo sendo óbvio que esse mais não existe. E fica a lembrança. E a saudade daquilo que se viveu por completo.

Efêmero, mas não superficial. Contradizendo toda a teoria de uma vida. Trazendo à tona sensações há muito esquecidas. Dá vontade de reviver, ao menos por um instante, para ter certeza de que realmente existiu. Mas não há volta.

A estrada escolhida não tem retorno. Não tem acostamento. Deve-se seguir em frente. Sempre em frente. Não existe dor nem tristeza. São apenas caminhos e escolhas. O tempo não é curto ou longo, mas suficiente.

Albergue nunca mais!

Voltando cansada. Estranhamento. Excesso de gente. Dormir dois dias seguidos. O mundo real fez falta dessa vez. Preciso de silêncio, do vazio, do nada... e do gato!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Desconexos

San Isidro e Tigre.

Catedral. Praça. Turismo.

Enfim, só. Enfim, café. Silêncio.

Fazendo balanço do ano. Férias estranhas. Tem mais brasileiros na Argentina do que no Brasil.

Cansada de arrumar e desarrumar malas. Quero minha casa. Quero meu gato.

O bloqueio criativo começa a esmorecer.

Ensaiei um choro por dois dias. Não consegui. Ainda perdida, sem saber o que sentir. Tudo em mim se contradiz.

1 79'91''16

Conferir os bolsos. Lavar as mãos. Sempre três vezes para ter a certeza de estarem limpas. Andar até a parada de ônibus com muito cuidado. Cuidado com as listras. Lembrar dos remédios. Tomar bastante água. Dois goles de cada vez. Respirar fundo. Contar.

Às vezes parece estranho. Para os outros, loucura. Para mim, rotina. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Cinco pessoas com blusa azul antes das 12h. Hoje deve chover.

Tudo está relacionado. Basta saber ler os sinais. As pessoas se desconectaram do mundo. Não entendem. Três carros vermelhos indo na mesma direção. Receberei um telefonema antes das 17h.

Ando e sorrio. Sorriem de volta. Presságio de boa sorte. Não falo. Dizem-me bom dia. Respondo apenas na quinta vez. Nunca antes. Nunca no quarto. O número quatro é sinal de mau agouro.

Certa vez, tive uma cadela. Emprenhou. Quatro filhotes. Até então, eu não sabia de nada. Morreu. Prova de que o número quatro traz má sorte. Depois morreram os filhotes. Não soube cuidar. Não sabia cuidar nem de mim.

Dez aviões vermelhos enquanto tomo café. Ah, se eu tivesse ligado. Se eu tivesse convidado-o para sair. A resposta seria sim, eu sei. Dez aviões? Era sim na certa! Os aviões sempre trazem boas notícias.

Nem tudo que voa é assim. Certa vez, entrou uma borboleta na minha casa. Sobrevoou a mesa de jantar e saiu. Papai morreu naquela noite. Odeio borboletas.

Chuva! Não disse? Basta saber ler os sinais. Mais tarde alguém vai morrer. Vi duas borboletas hoje.

Vivo só. Um dia de cada vez. O moço disse que tem de ser assim. Disse, também, que não é tão complicado. Não concordo. Preciso contar. Relacionar. E, só assim, existir.

Existo porque alguém esperou nove meses por isso. E desde então são números.

Dou aulas de matemática todos os dias. Não, minto. Não dou aulas às quartas. Não preciso explicar o motivo. Converso com o moço às quartas.

49576 é meu aluno preferido. Ele não fala. Nasceu assim. Adotei um sistema para decorar os nomes deles. Transformo tudo em números, inclusive os nomes. Acho que assim eles se sentem incluídos em um grupo. Eu me sentiria.

À noite, sinto-me só. As grades incomodam um pouco. São 43 barras verticais. Três barras horizontais.

Regime semi-aberto, o moço disse. Falou, também, que era o melhor que poderia fazer devido à minha condição.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Antissocial. Sim, sou. Fazer o quê?

Big Tasty mequetrefe!



Um dos motivos de ter voltado aqui foi o Big Tasty. No outdoor anunciava: 2 hamburgers ANGUS. Ok, pedi o de sempre: sem alface e sem cebola. Veio uma sola, com 2 hamburgers miniatura, uma fatia de queijo e duas rodelas de tomate. Seco, ruim, sem gosto e, o pior, sem molho!

Outro motivo era o zoológico. Mais uma decepção. Jaulas pequenas, tratadores mal-educados. Lugar e pessoas sem preparo para receber turistas. Parece abandonado. Os bichinhos são bonitinhos e só.




O que salvou o planejamento de férias foi a feira. Divertida, cheia de cacarecos diferentes, num dia extremamente agradável. Isso sim, valeu a pena.

domingo, 25 de setembro de 2011

Sem crise

Apaixonada pela arte de não fazer nada. Não pensar. Deixar fluir. Pela primeira vez, contrariando o título, sem escolhas. E, então, contradizendo-me, por escolha própria.

Sem expectativas

A expectativa morreu. Foi assim, de repente. Não se adoentou, nem deu sinal prévio. Simplesmente morreu. Notícia fulminante.

Agora, resta viver o momento.

Sem rumo

Vivendo um dia de cada vez. Sem estresse. Sem cobranças. Assim leve. Assim solta. Procrastino e sou condescendente comigo mesma. Bom, muito bom. Tirei férias, até de mim.

Sem planos

Tentei, juro! Mas albergue com banheiro coletivo não dá. Não consegui. Foram os dois dias mais longos da minha vida. Depois disso, peregrinação. Novo albergue. Agora com banheiro no quarto, mas o quarto é compartilhado. Bom, nem tudo é perfeito.

Ando passeando pela cidade, sem planos, vendo o que acontece pelas ruas, aproveitando a noite. E isso está bom. Nada de acordar cedo e bater perna o dia inteiro. Tranquila. Curtindo as férias. E isso passa tão rápido.

As patetices continuam, são tantas que nem vale descrever. Virou rotina. Talvez uma. Segundo terceiros, a pior! Não conseguir encontrar a porta do quarto. Sóbria. Fala sério! Mas tem justificativa: 3 quartos diferentes em apenas quatro noites.

Quando cheguei aqui queria ir ao zoológico, à feira e comer um Big Tasty. Falta o Big Tasty!
No mais, quero ver aonde a vida vai me levar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Rainha do Mico

Mudança drástica no astral. Comprinhas no free shop sem taxas extras com a ajuda da mocinha do caixa. Fiquei tão nervosa que saí do aeroporto e só me dei conta que havia esquecido a mala quando cheguei no táxi. Acredita?

Bom, voltei correndo para a Aduana, achei a mala e quase morri de vergonha. Ri. E muito. Era a única coisa que poderia fazer mesmo. O moço da alfândega perguntou se eu estava sozinha, ao saber que sim, me deu um cartão com todos os telefones dele, caso eu precisasse. Atestado de retardada logo na chegada.

Contei o episódio para o taxista, ele riu, me deu o telefone dele e desviou o caminho para me mostrar a Embaixada do Brasil. Disse que se eu tivesse qualquer problema deveria ir lá. Segundo atestado.

Enfim cheguei ao albergue, com cara de pavor, do tipo: banheiro coletivo? Ai meu Deus! Subi para o quarto e larguei a sacola do free shop na recepção. Mais um!

Acha que acabou? Não! O massoterapeuta me fala sobre um short florido e outra peça que ele havia visto. Achei a conversa estranhíssima, mas ele fez um ensaio fotográfico sensual recentemente, então pensei que a modelo tinha usado roupas parecidas com as minhas, quando faço massagem. Não. Claro que não! Esqueci minhas roupas (íntimas) na academia do moço.

Fala sério! É muito mico pra uma pessoa só em tão curto intervalo de tempo. Vou ali enfiar minha cabeça em um buraco, como faz a avestruz, e volto mais tarde.

Perdida

Passado o estresse com a mala, o isqueiro e os dois loucos do embarque no Uruguai, enfim, café e cigarros antes do novo embarque. Tem um free shop enorme entre os portões e eu ainda sem vontade de fazer compras. O que acontece?

Milhares de brasileiros indo para Buenos Aires. Fazendo planos. Roteiros. Cheios de expectativas. E eu ainda pensando em ir ao zoológico de pegar bichinhos e tomar café. Sim, continuo sem saber porque, diabos, estou indo para lá. O que acontece?

Depois de uma semana na imensidão da selva parece que a minha cabeça esvaziou. Sinto-me pequena. Sem rumo. Sem direção mesmo. Penso, às vezes, na morte. Não sei se a proximidade da perda me deixou assim. O que acontece?

Blasé. É a palavra que me vem à mente. Mais nada.
O que acontece?

Avisos e outros

Moro numa cidade que se não é o deserto propriamente dito, assemelha-se muito. Então, querendo a. me hidratar, b. ser mais saudável e c. prevenir o surgimento precoce de rugas, tenho bebido litros de água por dia. Isso quer dizer que agora passo a metade dos meus dias dentro de banheiros por aí.

Volte a sua poltrona quando este aviso acender. Li no banheiro do avião. Imaginei várias cenas divertidas. A pessoa correndo com as calças na mão assim que o aviso acendesse. Um outro desavisado sentado no troninho esperando, pacientemente, o aviso acender para, só então, retornar ao seu lugar. E mais algumas outras, até que alguém bateu na porta e percebi que estava divagando em local inapropriado.

Apague o seu cigarro aqui. Deveria estar escrito isso, mas havia apenas o desenho indicativo dessa ação. Pois bem, se é proibido fumar no avião e, no show dos comissários, é dado um alerta de que a proibição é válida também para os lavatórios, para quê o compartimento?

E, por fim, uma pequena observação mal-humorada que nada tem a ver com água, mas poderia se relacionar a banheiros. Num país onde a corrupção é desmedida e existem esquemas para burlar as leis em todos os escalões do Governo paga-se mais de dez mil reais, por mês, para um funcionário público recolher isqueiros nos aeroportos. Tem dó, né?

O que é isso?

Dando chilique de mulherzinha. Brigando com a mala. Piti frenético antes de viagem. Não estou me reconhecendo. Preguiça de viajar, pode?

Bah...

sábado, 17 de setembro de 2011

Welcome to the jungle V ou ...

Goodbye jungle.

A aventura chegou ao fim. Sempre fico com cara de cachorro embarcado no dia de ir embora. Meio triste, meio feliz, sem saber bem o que sentir.

As férias na selva foram fantásticas. Curti cada minuto, cada passeio. E vou pra casa com gostinho de quero mais. Quero mais natureza, mais floresta e mais movimento na minha vida.

O Pajé disse: gostaria de colocar todas as coisas que sei em um livro, mas preciso de alguém para escrever. Várias ideias. Nenhum plano. No próximo ano... quem sabe? Tem feriado, carnaval, férias e, de repente, algum tempo.

Welcome to the jungle IV

Pajé high tech. Ritual indígena. Aula sobre ervas e cura. Fiquei tão encantada que até esqueci de tirar fotos, mas a sensação ficará eternizada na minha memória. O melhor passeio de todos!

Pajé Kissibi e família + Alemanha + Brasil + Índia + Guiana

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Welcome to the jungle III

City Tour de manhã com o grupo. Calor de 40 graus e eu de calça comprida. Por quê? Por quê? Por quê? Por causa das mil e trezentas picadas de mosquito de ontem.

Enfim, achei uma farmácia e comprei:
- mais dois repelentes (do bom);
- condicionador de cabelo (é, esqueci mesmo);
- pomada anti-histamínica (precisa de explicação?);
- desodorante (usei o vidro que eu trouxe nas picadas de mosquito para tentar diminuir a coceira).

Fui ao Banco, peguei dinheirinhos e corri pra feirinha de artesanato. Não achei nada interessante. Voltei de mãos abanando. Será que minha mulherice está diminuindo? Ou é só preguiça de carregar sacolas?

Bom, além disso, ganhei um creme de citronela da mocinha que fiz amizade no hotel. Ah! Ganhei, também, banha do peixe boi. Dizem que serve pra tudo, inclusive picada de mosquito. Passei no corpo inteiro e ainda comprei mais uma caixinha pra levar pra casa.

Resultado até o momento: pernas horríveis, mas as bolinhas não coçam mais. Ok, estou fedendo, mas quem vai me cheirar aqui no meio do mato? Um índio?

Hoje tem festa no hotel com direito a apresentação. Se você não vem ver o boi, o boi vem ver você!

Faltou o ritual indígena, por insuficiência de gente interessada. O guia ofereceu o passeio "por fora", com pernoite na tribo, em oca. Pensa? Eu adorei, mas a companheira que arrumei por aqui não era tão aventureira e amarelou. Ficou com medo da voadeira.

Acho que sete dias foi pouco.
Volto.
Com certeza!