terça-feira, 31 de maio de 2011

Eu dizia

Meninas de pele de azeitona são raras, são quase extraterrestres, quando você as conhece - quando elas te tocam - é quase uma benção divina. Esses momentos devem ser guardados com muito zelo na caixa de recordações para se viver de novo quando não existir mais nada.

Eu tenho uma caixa cheia de recordações, ele respondeu.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Você em mim

Começou tão de mansinho que mal entendi o que acontecia. Uma ligação não atendida, uma mensagem sem resposta. Foram dias e dias sem te encontrar. Quando percebi, já te evitava abertamente. Pensei até em me mudar, fugir mesmo. É que, de repente, sua presença tornou-se incômoda. Só o fato de saber que você existia e estava ali respirando, talvez, o mesmo ar que eu já era irritante o suficiente.

Foi assim que você morreu em mim. Não tem explicação lógica, plausível, como você gosta de dizer. Plausível. Quem, no mundo, gosta dessa palavra além de você? O que é deveras incoerente, visto que você é um ser implausível. Você não é razoável, meu bem. Nunca foi e nunca será, mas isso pouco importa agora.

Não sei se era isso que você queria ouvir, mas essa é a única explicação que consigo te dar. Se não atendi às suas expectativas, paciência, meu bem. Já vimos esse filme, não é mesmo?

Só de mim

Com os olhos ainda marejados o velho cruzou a esquina. Apoiava-se na bengala de ferro. Presente do seu filho do meio pelos 81 anos recém completados. Nunca dei fraldas de presente e agora recebo uma bengala. É útil, papai, é útil. Grandes merdas. Depois reclamam quando digo que filho do meio não presta pra nada. 

Atravessou a rua e foi sentar-se na cafeteria. As mãos trêmulas quase o traíram derrubando o café com leite na calça. Foi por pouco. Estava vestindo sua melhor roupa - roupa de ver a Deus - como dizia sua falecida mãe.

Jogou migalhas de pão para os pombos e tornou a andar. Deteve-se por alguns minutos olhando os novos televisores na vitrina da loja de eletrônicos. Tempos modernos, agora as coisas saem de dentro dos televisores e ficam passeando pela sua casa. Se o Jornal Nacional fosse nesse 3D, há um tempo atrás, chamaria o Cid para jantar lá em casa. A mulher ia cair dura. É batata que ia!

Andou até a farmácia, pegou os remédios, continuou até a casa da filha mais velha, pegou a neta. Sextas e sábados ficava com a neta para que a filha pudesse sair e, quem sabe, arrumar um novo marido. A filha havia ficado viúva tão cedo que fazia dó. Dez anos e continuava sozinha. Foi por encorajamento do pai que voltou a se relacionar, mas colocava defeito em todos.

Os homens que conhecia sempre tinham algum defeito grave. Alto demais, baixo demais, gordo, magro, cara de cafajeste, muito bonzinho, estúpido, lindo. Lindo? Perguntou o pai. É, lindo, ela respondeu. O que um cara lindo como esse vai querer comigo? Ele deve sair com modelos. Sou uma mulher comum, papai, você não entende? Ele é lindo demais e ponto final, não vou jantar com ele. O pai riu, o mau gênio vinha da parte dele.

Assim passavam-se os dias. Ele tinha uma rotina com tantos afazeres que pensava em pedir uma segunda aposentadoria para os filhos. Não precisariam lhe dar dinheiro, tinha o suficiente, queria apenas sossego. Na época em que trabalhava no escritório tinha tempo, dizia que estava ocupado e fazia o que queria.

Agora não, agora faço o que me mandam. Eles dizem que pedem, mas se recuso, pronto. É cara feia para um ano. Passo a semana inteira sem tempo para mim, é um tal de pegar a roupa de um na lavanderia, levar não sei quem na aula de espanhol, buscar salgadinhos pra festa que não fui convidado e até ficar em fila para comprar ingresso de show, pode?

Estava ficando ranzinza. Velho e ranzinza. Ralhava com os netos, com os filhos e também com os vizinhos. Ia ao baile semanal só para falar mal dos outros. Poupava apenas os mortos. Esses ganhavam uma espécie de salvo-conduto de sua língua ferina. Não tem mais como se defenderem, só por isso. A única que recebia agrados e palavras doces era a neta. Ela não tem pai, alguém tem que cuidar. Melhor, então, que seja eu.

A menina já ia completar quinze anos, mas ainda era franzina. Simpática, educada, estudiosa e feia, decididamente, feia. Estudava muito para não dar desgosto à mãe. Tinha quatro anos quando o pai morrera, mal se lembrava dele, sabia quem era pelos retratos que tinha em casa. A mãe não falava dele. Nunca. O avô não gostava muito de seu pai, mas o avô não gostava de ninguém. Só de mim. O avozinho gosta só de mim.

Ela - além de feia - era sem graça, nem sabia conversar. Não tinha amigas de sua idade. Fora criada com adultos e, no mundo deles, raras vezes era convidada a emitir opinião. Quando o fazia era sempre com a insegurança daqueles que são interrompidos em suas ideias, mas afinal, o que ela sabia das coisas?

Sabia ir à escola. Sabia ficar calada. Sabia ir à casa do avô. Sabia sonhar acordada. Isso ela sabia bem. Os dias na casa do avô eram os seus preferidos. Não diziam nada, mas ela podia comer doces, ver televisão até tarde, usar as roupas e jóias da falecida avó. Ela gostava de fingir que era a dona de casa e seu avô compartilhava da sua fantasia. Na brincadeira ela era outra, era bonita, adulta, interessante e mandava em tudo.

Nesses dias o avô sentia-se renovado, disposto, nem sombra do velho ranzinza. Todas as sextas e sábados, à noite, quando a neta finalmente se despia e deitava em sua cama. A neta, repetindo os gestos da mãe. A neta, que era também sua filha, às sextas e sábados, era apenas uma mulher.

Pretensão

Comecei a escrever por necessidade. Sentia-me triste, angustiada, sufocada. Então escrevia. Palavras desconexas, textos longos, historinhas inventadas e, às vezes, poesias. Escrever, na minha vida, faz parte de um processo de cura. Cura da alma, dos anseios profundos, daquilo que não se diz.

Escrever é dizer e não dizer. É criar personagem pra viver aquilo que a gente tem vontade mas não tem coragem. Às vezes, é deixar a personagem sentir aquela dor e ficar bem quietinha, observando, pra entender como a personagem se vira na vida que a gente inventa pra ela.

Escrevo desde menina. Primeiro foram os diários cor-de-rosa, com chave, guardados no fundo da gaveta. Depois as agendas estufadas de papeizinhos, bilhetinhos e, é claro, o papel do bombom que ele deu. Época das canetinhas coloridas, com cheirinho. O meu mundo podia não ser tão colorido, mas a minha agenda era.

Depois disso, parti para a internet, no formato recém lançado, o Blog. Tive um, depois outro e mais outro. Por bastante tempo escrevi sob pseudônimo. Vergonha, timidez, medo do ridículo, não sei. Agora, mais de dez anos depois, recebo um convite para escrever para um site. Crônicas. Gostei. Gostei do formato, da periodicidade, de ter leitores. Gostei muito.

Assumidíssima na nova fase, mandava os textos com nome, breve descrição pessoal e foto. Fiz até divulgação na repartição. Fiquei tão empolgada que revelei a identidade no Blog e ainda fiz propaganda do endereço.

Então, no auge da felicidade, quase me intitulando escritora, escuto: você poderia escrever um livro de autoajuda. Não gostei. Sem juízo de valor sobre a qualidade dos textos, sem crítica, apenas não gostei. Quem sou eu pra ajudar alguém com os meus textos? O que sei eu da vida pra poder melhorar a vida dos outros?

Não, não é essa a minha pretensão.

iThink

Aeroporto cheio, avião atrasado e um grande grupo de pessoas sozinhas. Sozinhas em seus pequenos mundos, fechadas em suas diversões solitárias, sem ouvir o grande mundo, sem enxergar a sua volta. Pessoas com fones de ouvido. Cada vez mais vejo essa cena se repetir. Vejo-a em restaurantes, em salas de espera, shoppings, ônibus, metrô, nas ruas e, até mesmo, no trabalho.

Numa realidade onde as pessoas convivem sempre menos em função de adventos como home-office, grupos de trabalho virtuais, vídeoconferências e etc., soma-se o fone de ouvido para contribuir, e muito, com o isolamento humano.

Uma cena. 

Entro no avião para sentar-me na poltrona do meio, as duas outras já ocupadas. Indico meu assento. Um dos passageiros se levanta, o outro limita-se a sorrir. Um sorriso econômico, visto que estava entretido com seus fones de ouvido. Sento-me entre os dois mudos que escutam qualquer coisa vinda de seus iAparatos Modernos. Digo boa noite, não sei para quem, mas digo.

Pego um livro, folheio sem paciência e resolvo começar a escrever. Não me demoro tanto na tentativa da escrita, pois um dos mudos resolve ler o que estou escrevendo e, juro, sou tímida. Depois de uns três ou quatro parágrafos desisto de vez e começo a assistir um filme. Pego, então, os meus fones de ouvido. O mudo decide parar de prestar atenção no seu iAparelho para olhar o meu iFilme. Viro a tela pra ele e recebo um novo sorriso educado. Hora de desligar todos os iAparelhos. Minha vez de sorrir educadamente. O mudo ganha voz.

Conversamos um pouco. Eu volto para casa, ele vem a trabalho. Pergunta o que faço. Não dou detalhes. Pergunta o que escrevo. Descrevo de forma sucinta. O mudo, então, revela total interesse nos meus interesses, mas é tarde demais. O avião já pousou e devemos seguir a vida.

Ele coloca, novamente, seus fones de ouvido e segue escutando as coisas do iAparelho. Eu penso no quanto estamos perdendo o contato em função desses malditos fones de ouvido.

Não sei se sou única nessa característica, mas tenho disposição para a conversa. E sinto falta de contato com gente diversa. Sinto falta de saber de outros mundos. E vejo cada vez menos portas abertas. Vejo janelas fechadas com gente do outro lado do vidro, usando fones de ouvido.

domingo, 29 de maio de 2011

Curtinhas

- Não vai perder minha mala, hein!
- Vou tentar, senhora.

******

- Você não vai mais falar comigo?
- Não.
- Nunca mais na vida?
- É, nunca mais na vida. É um bom tempo pra você pensar no que fez.

******

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Internet?

Continuo sem internet no apartamento.
Deus salve a Starbucks do outro lado da rua e sua internet grátis!

Logo agora?

Eu vou me arrepender para sempre de não ter respondido ao ¿Hola que tal? daquele moço muy guapo que cruzou o meu olhar na Avenida Independencia. Má hora para a timidez aparecer. Má hora!

O acaso e eu

Peguei o metrô para andar uma estação apenas. Quando saí, andei, andei, andei até chegar exatamente onde havia entrado. Contive o riso e pedi informação numa banca de revistas, queria tirar uma foto da Mafalda. Dessa vez segui direitinho e nada, de novo. Achei uma lan house, um pouco de gente conhecida, pensei. Vamos à internet!

Sem rumo e à procura de comida. Talvez seja melhor voltar para o hotel e almoçar por aquelas redondezas. Não, melhor andar. Então, eis que surge uma ruela cheia de restaurantes. Sento-me à mesa, faço meu pedido e quando olho para o lado lá está a Mafalda!

Nossa Senhora dos Turistas Perdidos sempre dá uma forcinha nas minhas andanças.

Eu e os carrancudos da Praça de Maio

Saí do Metrô na estação Catedral, segui em frente até dar no Obelisco. Descobri que havia ziguezagueado umas seis quadras na direção contrária do castelo cor-de-rosa.

Comprei o cartão de memória, vi uma passeata e encontrei uma senhora muito simpática que me levou de volta à Diagonal Norte. Conversamos sobre Niemeyer e ela riu do museu redondo. Eu também pensaria que era piada se não tivesse visto.

Visita a Catedral. Fofa. Não tenho outra palavra pra descrever. Não quero parecer pedante, mas depois de ver a Basílica de São Pedro as outras igrejas transformam-se em capelinhas fofas.

Castelo cor-de-rosa em obras. Fotos de andaimes. O que dizer? Nada.

Dia cinza. Bom para a caminhada, ruim para as fotos. 
As pessoas de hoje não são as pessoas de ontem, hoje elas tem pressa. 

Desayuno

Hoje o bloquinho veio passear e parece-me que ele espanta as boas ideias. Nada de internet ainda. O outro rapaz sabe menos do que eu sobre conexões. Saí tarde. Pensei que o tempo estava mais ameno e sentei do lado de fora do café, na esquina. Acho que bem aonde o vento faz a curva.

Estou ao lado de um senhor. Separados pelo vidro, ele me olha intrigado. O que essa menina está fazendo lá fora nesse frio?, deve pensar. Sou teimosa!, respondo mentalmente à pergunta inventada.

Tomo o pior suco de laranja que já experimentei em toda minha vida. Dou uma gargalhada. As pessoas passam e me olham. Continuo rindo. Agora, penso, agora eu fiquei louca de vez. Quero guardar esse momento para recordação. O exato momento em que a sanidade me abandonou. Ainda rindo, peço outro café.

Casa Rosada e blá blá blá. Passeio turístico típico. Preguiça. Tá, daqui a pouco eu vou, só mais um café, por favor. 

Gracias!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Oba, jantar!

E de repente eu me pergunto: quem foi que arrumou essa mala? Bom, ninguém pra por a culpa. Fui eu mesma, no dia da viagem, na hora do almoço. O pior é que eu não arrumei antes por pura preguiça. Agora estou aqui, sofrendo as consequências.

Então combino preto com preto e outra coisa, também, preta. Por que será que eu tenho tanta roupa preta se nem gosto dessa cor?

O que era pra ser um jantar na esquina com roupinha casual e clima descontraído torna-se, verdadeiramente, o martírio da roupa feia. Até maquiagem eu fiz, pra tentar disfarçar o resto.

Tá, os cachinhos estão bonitinhos por causa do tempo frio. É isso que vai salvar o visual: cachinhos levemente grisalhos e olhinhos pintados.

Igor

Tirei mais fotos de gatos do que de túmulos no cemitério. Sinto falta do meu bichano. Tive dificuldades para dormir ontem à noite. A cama é ótima e os travesseiros também, mas as patinhas gordas e o andar pesado em cima da minha barriga não estavam presentes. Nem aquele bigode duro que teima em entrar no meu nariz quando ele morde meu queixo antes de nos acomodarmos para descansar. Também não escutei o miado rouco ou o ronronar suave indicando que ele finalmente dormiu.

Sinto falta do gato. 

Desconectada

Sem internet, sem telefone, sem comunicação. Assim perdida, assim sozinha. Tenho que transferir o dinheiro do homeopata, avisar a empregada pra cuidar do gato, pagar contas. Esses pensamentos me puxam para uma realidade que não quero viver agora. Quero viver o andar solto e perdido, com sorriso nos olhos, pronta para descobrir mais um pouquinho de mundo.

Apesar de almejar toda essa liberdade, ligo para a recepção do “hotel”, pois eu - realmente - preciso da p#%&* da internet para resolver minhas questões burocráticas. Nada!

Resolvo ir ao escritório novamente. Encontro o mocinho, mal-humorado, já fechando a porta para ir pra casa. Ah, hoje é feriado. Sim, o nãoseioquê da Revolução de Mayo. Ele, com muita má vontade, vai ao meu apartamento para tentar solucionar a questão. Olha meu computador, torce o nariz e diz - numa língua que custo a entender - Mac é muito complicado, não tem Windows. Não sei mexer, o meu amigo que sabe configurar. Só amanhã.

É isso: Hoje, só amanhã. Vou arrumar algum lugar pra jantar aqui por perto e me contentar com a televisão mais tarde. Não quero sair. Hoje, só amanhã.

P.S.: Descobri o IP do roteador, configurei, reiniciei e... e... e... NADA!

Arrependimento

Saí sem bolsa, sem mochila, sem lenço e sem documento. Não levei o bloquinho para passear e perdi os texto mais lindos que poderia escrever. Passei o dia inteiro pensando como se estivesse escrevendo. O som da máquina de datilografia na cabeça. Agora sento e escrevo como se estivesse falando. A poesia se perdeu naquele momento que não foi registrado.

Reflexões

Então me encontro nesse país estranho, sozinha e disposta a descobrir coisas. Não sobre o país, mas sobre mim. É quando estou fora que vejo o que tem dentro. É quando estou longe que consigo chegar perto. E esses são os momentos mais preciosos. Talvez porque sejam só meus. E é nesses momentos que me encontro.

Ok, trocadilho infame. Desculpe-me, não resisti.

Primeiras impressões

Taxista supersimpático, apartamento fofo e cama confortável. Dormi nas nuvens. Cheguei tarde, acordei tarde. Passei na recepção para me registrar, peguei vouchers para desayuno.

- Até que horas, senhor?
- 22h.
- Ótimo!

Enfim, um lugar onde se toma café da manhã à tarde. Cafeteria interessante, croissants quentinhos e café bem tirado. Isso é muito importante. Mapa e pedidos de informação para o garçom. Até hoje não sei porque eu pego os mapas dos locais que visito. Deve ser pra colecionar ou fazer tipo, afinal, nunca aprendi a ler mapas.

Sigo sempre na direção contrária. Esquerda? Esquerda de quem? Ouço a voz da professora de dança na minha cabeça: A otrrra esquerrrrde, Carrolin!

Então, a Recoleta é linda. Muito mais linda do que eu havia lido, visto ou escutado. Vale a pena se perder na Recoleta. E eu me perdi. Várias vezes. E pedi informação várias vezes também. Não sigo exatamente as direções que me indicam, não por má vontade, mas porque não entendo bem o que me dizem. E, além do mais, gosto de andar sem direção, principalmente, em lugares frios com o vento batendo na cara. Dá uma sensação de estar perdida no mundo. E eu adoro me perder no mundo.

Indo ao Cemitério da Recoleta - pelos caminhos errados - encontrei várias praças lindas. Passeio bucólico. Comprei fotos, conversei, sentei em bancos e admirei a vida. Andei por uma feira de tudo. Sorrisos, gritos de crianças e casais largados ao sol. Me senti Caetano num lugar onde tudo é lindo.

Tirei uma centena de fotos. As melhores fotos da minha vida, todas em resolução baixíssima porque comprei uma câmera mas esqueci de pedir o cartão de memória. Enquanto o vendedor me oferecia esse item indispensável, eu estava parada pensando no quanto os argentinos são lindos. É, sem fotos boas, mas por um ótimo motivo.

E eu ainda tenho a coragem de me intitular fotógrafa. Isso chega a ser engraçado. Sim, sim, deixei a câmera legal em casa. Todos os meus (dois) amigos me disseram que eu seria assaltada e eu acreditei. Mas não é sobre fotos que quero escrever agora.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Receita para viagem perfeita

Quem leva documento para o aeroporto porque tem que viajar? Quem? Eu não! Eu viajo com emoção. Gosto de cruzar a cidade de táxi, na hora do rush, pra buscar um papelzinho plastificado. A corrida contra o tempo é emocionante. E o mistério? Não se sabe, até o último minuto, se as malas vão sozinhas ou se você irá acompanhá-las.

É. Isso é que é vida. Eu gosto, juro! Bom, devo gostar, né? Faço sempre.

E mais. Moeda local pra quê? Leve dinheiro de outros países, do seu e, é claro, um cartão de crédito bloqueado. Além disso, reserve um apartamento em vez de hotel com recepção 24 horas, porque a localização é fantástica, o espaço é ótimo e um fogão numa viagem de cinco dias é de extrema utilidade, não é? Então, para completar: chegue de madrugada, sem o endereço de onde vai ficar, faça uma cara bem simpática na imigração e repita (à exaustão) yo no hablo español.

Ah, não esqueça de colocar o desodorante, cremes e perfumes na bagagem de mão. Só para ter a satisfação de vê-los sendo jogados no lixo.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Coisas simples

Coisas simples, é por aí que devo começar. Cuidar de uma planta, depois de um bicho, depois de uma gente. Uma gente, assim, do meu tamanho. Se cumprir as tarefas simples com destreza, aí sim, pensar em reproduzir uma miniatura de gente.

- Por que tanta gente pula todas essas etapas, dá conta de tudo e eu não posso?
- Por causa do seu histórico.

Ele nunca dá as repostas que eu quero ouvir. Diz que deve me fazer pensar, que esse é o trabalho dele. Trabalho chato, isso é o que eu penso.

Coisas simples, ele disse. Então comprei a planta no primeiro dia. Um cacto. Cactus? Cactos? Não sei. Bom, achei que seria a planta mais simples para se cuidar. Dei nome, coloquei na janela pra pegar sol e até conversava com ele de vez em quando. Godofredo morreu em uma semana. Afogado, disse o rapaz da floricultura, e tratou logo de me vender uma violeta.

- Essa é resistente.
- Tá certo, obrigada.

Durou um mês. Pensei em dar nome, mas resolvi que seria melhor esperar uns três meses pra ver se iria vingar mesmo, sabe? Estou tentando evitar envolvimento emocional. Fiquei triste com o que aconteceu com Godofredo. Um cactos morrer afogado é, definitivamente, um assassinato de planta. Pois bem, tive o maior cuidado pra não afogar a violeta. Qual foi o resultado? Morreu seca!

Desde pequena, doutor, ela sempre foi oito ou oitenta, minha mãe diz. Até hoje não sei por que ela tem de vir às sessões comigo. Uma com ela, outra sem. Prefiro as que ela não vem, é claro! Ele diz que é importante o apoio familiar. Importante pra quem? Eu penso.

Quase nunca falo, me limito a dizer coisas cotidianas. Um dia eu disse que estava escrevendo. Ele se animou e pediu pra ver. Enrolei três sessões com isso. Conversávamos sobre o que eu poderia escrever, o tanto que iria me fazer bem e quando ele pedia pra ver, eu mudava de assunto. Disse que era muito tímida, ele acreditou.

No início da quarta sessão ele, praticamente, me obrigou a mostrar o bloquinho. Entreguei uma lista de feira. Ele ficou tão nervoso que terminou a sessão quinze minutos mais cedo. Achei que ele ia me colocar num cantinho pra pensar igual minha mãe fazia, e ri. Ele não viu.

Plantei alecrim, sálvia e manjericão. O manjericão completou seis meses de idade essa semana. Não vai ganhar nome, por mais que dure. Não quero apego, senão vou acabar me sentindo mal por comer partes dele todos os domingos. É, domingo é dia de macarronada na casa da minha mãe e eu, agora, sou a responsável pelos temperos. Quero dizer, pelo tempero, porque só o manjericão conseguiu sobreviver.

Minha mãe diz que é bom ter responsabilidades, diz que isso deixa a gente mais atenta. Não sei se me deixa mesmo mais atenta, mas lenta, isso com certeza. Duas vezes eu tive que voltar pra buscar o manjericão, de ônibus, no domingo. Imagina a hora que saiu o almoço! Era tarde até pra almoço de domingo.

Ninguém falou nada. Eles me olham como se sentissem pena de mim. Condescendente, eu disse. Nenhum comentário sobre o assunto, elogiaram "o emprego da palavra", pode? Eles pensam que sou retardada. Eu não falo nada.

Guardei dinheiro pra comprar um cachorro, mas acabei pegando um vira-latas que achei na rua. Não foi por causa do dinheiro, não. Eu não ligo pra essas coisas. É que ele tinha um olhar tão triste, tão perdido, tão inocente que pensei estar me vendo no espelho. Se eu tivesse um irmão gêmeo, com certeza, seria aquele cachorro.

Ah não, eu tive um irmão gêmeo.
Ele morreu.
Caiu no chão quando era pequeno.

Foi sem querer, eu disse.

Chega!

Quando a gente é mais novo pensa que vai dominar o mundo. Que a vibe certa é ter fama, dinheiro e todas as gatas que couberem na cama. No quarto, na agenda. Aí a gente chega nesse estágio e percebe que é tão vazio, tão efêmero e começa a dar valor nas coisas que os velhos falavam. Casa dos pais, almoço de família, conversas longas sem necessidade de estar de cara cheia pra falar algo que valha ser ouvido.

Então chega uma crítica escrota e diz que você ficou blasé. Diz que a fama subiu à cabeça. Te chama de pernóstico na primeira página do jornal, com foto e tudo. Você reclama e ela pede desculpas numa notinha na página 26, em fonte 8, depois dos obituários.

Tive até que olhar no dicionário pra saber o que era pernóstico, porra. É fácil criticar, dizer que outro nasceu virado pra Lua. Difícil é ralar, puxar-saco, trabalhar feito louco pra ter alguma projeção. Ninguém entende. A gente quer o reconhecimento do nosso trabalho. Ter a vida escarafunchada em revista de fofoca não é sonho de ninguém.

Se trabalha demais, não sabe o que quer. Se escolhe os trabalhos, ficou exigente. Como lidar com isso? Isso não é vida, não. Isso é dirigir na contramão. É ser o contrassenso. É estar parado na esquina de uma  cidade sem esquinas. Isso é estar perdido, realmente perdido, contando apenas com a sorte.

Vou dar um tempo, espairecer. Depois eu volto. Agora não dá. Isso tudo tá me sufocando. Chega!

sábado, 21 de maio de 2011

Vadiagem nunca foi o meu forte, não. Comecei agora. Aliás, estou tentando começar. Nunca tinha ficado assim, sem emprego, sem amarras. Tenho reservas sim. E medo. Medo do que está por vir. Estou ficando velho, sabe? Não tenho mais aquela autoconfiança.

A mulher foi embora. Os filhos não ligam tanto. Eles pedem dinheiro, o carro emprestado, mas não querem mais meus conselhos. Acho que me vêem como um fracassado. Casamento desfeito, agora desempregado. Não é bem a receita moderna do sucesso, né?

Não sei o que vou fazer ainda. Curtir um pouco talvez. Viajar e conhecer lugares novos. Na minha cabeça tenho um plano de conhecer o mundo. Fuga, segundo o meu terapeuta. Não vou pensar nisso agora, senão meto uma bala no meio da testa.

Não, não, brincadeira. É claro que eu estou bem. Isso é maneira de dizer, se fosse tirar minha vida mesmo, fazia com veneno. Cicuta. Só porque acho a palavra bonita. Imagina? Em todos os jornais: Morreu envenenado com cicuta. Ia dar uma manchete e tanto! O Soares ia morrer de inveja.

Não, não sou de desatinos e nem de grandes atos. Vou continuar vivendo minha vidinha, sonhando com viagens inesquecíveis e mortes noticiadas. Amanhã compro os classificados e vejo como me arrumo. É, vou procurar emprego. É o jeito.

Cri Cri Cri

Fazem os grilos enquanto o cursor pisca na tela do computador. Eu não deveria ter perguntado aquilo. O que será que ele vai responder? Mil dúvidas na minha cabeça e nenhuma letrinha na tela. Será que ele vai me deletar? Não é possível!

A gente estava indo tão bem, ele até pegou na minha mão na sorveteria, me olhou de um jeito tão doce. Ai, quando ele disse que tinha que falar comigo à sós, achei que ele ia se declarar. Fiquei tão nervosa, disparei a falar igual a uma louca e a turma toda voltou. Desde aquele dia é só pensar nele que minha barriga dói.

Já tem quinze dias e nada. Será que ele desistiu? Eu devia ter ficado quieta. Já esperei tanto, podia esperar só mais um pouquinho mais. Não tinha nada que perguntar. Ai meu Deus! E se ele for tímido? É isso! Ele é tímido. Ué, ficou offline e não respondeu nada. Falo com ele amanhã na escola.

Vou chegar bem cedo pra ninguém ver a gente conversando. As meninas da sala são muito bobas. Não entendem dessas coisas de amor. E daí se ele pede os meus vestidos emprestados? É pra mostrar pra mãe dele que a futura nora tem bom gosto, aposto!

Vem...

Te vejo na minha cama e você fica tão linda lá que até parece fazer parte do quarto. Não queira sentar na minha mesa de bar. Não faça isso, esse nunca foi o seu lugar. Você sabe bem do que eu estou falando. Não, meu bem, não se faça de desentendida. "O que é combinado, não é caro", seu amigo dizia e você concordava. Vai querer mudar a situação aos quarenta e seis do segundo tempo? Esse tipo de birra não combina com você, menina.

Ah, para com isso. Não chora, meu bem. É claro que eu gosto de você. Gosto muito, aqui, juntinho de mim. Vem, deixa eu te abraçar, vai? Esse biquinho lindo tá pedindo um beijo. Deixa eu enxugar essas lágrimas, não é assim. Não sou insensível. Eu só estou cansado, sem pique, sabe? A gente sai outro dia. Você fica aqui em casa hoje, pode até dormir se quiser.

As suas amigas disseram o quê? Ah, não. Não é cômodo. A questão não é comodidade. O problema é que eu trabalho demais, até altas horas, por isso só te ligo de madrugada. Você é linda, inteligente, sabe o que quer. Não vai se deixar levar por essas besteiras não é, meu amorzinho? 

Namorar? Sim, é claro que já namorei. Já sofri um bocado também. Agora tenho medo de me entregar. É isso. Acho que ainda não estou disponível emocionalmente. É claro que isso vai passar. A gente vai ficando assim e uma hora eu melhoro. Volto a confiar nos outros. Não faz beicinho, não são as outras, quando eu confiar em alguém de novo vai ser você. É claro! Deixa de besteira, apaga a luz e vem deitar, vem?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Equilíbrio

São os dias de calmaria que assustam mais. A sensação de algo desconhecido por vir. Prenúncio da tragédia. À espera do fim dos dias tranqüilos pressupondo o caos. E a expectativa não se concretiza. E a calmaria se estende.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Pane

Facebook, twitter, blogger, gmail e hotmail fora do ar.
Todos ao mesmo tempo.
Só na minha casa.
O resto funciona.

O universo está tentando se comunicar comigo, penso.
www.comunicadodouniverso.com.br, tento.

Fora do ar.
Não, não foi dessa vez.

Lembrete

Compromisso é compromisso. Registro aqui para consulta posterior em caso de esquecimento. Terminaram as férias que tirei da responsabilidade.

Às vezes, chutar o balde é a única possibilidade de transcender. Você chuta, olha, recolhe e recomeça.

Vai ficar aqui pra eu lembrar que já chutei, olhei e recolhi. Vai ficar aqui pra eu seguir em frente ao invés de entrar num loop infinito.

Constatação

- Não! Ele não tem olhar de seca-pimenteira, isso é dar poder demais para quem não tem. Digamos que a invejinha que ele emana não gera uma vibração tão positiva, só isso.

Despropósitos

Ô coisa amada é esse gato, viu!

Descompensada

Essa foi a palavra que ela usou.

- Sexo, drogas e rock'n'roll?
- Não. Cigarros, estresse e ansiedade. Os outros são da geração da sua mãe.

Pensei em mim como alguém centrada e consciente, conversando de maneira racional. Expondo um ponto de vista, sabe?

Descompensada, ela disse. Reviso toda a sessão. Descompensada, assumo.

O ápice foi quando entuchei todas as agulhas na cabeça. Claro que não foi proposital, mas ao tentar retirar o travesseiro já havia me esquecido delas, então foi esse o resultado. Quase relaxei, porém uma crise de riso me impediu.

Acupuntura com emoção. Então é isso.

Você era a mais bonita...

das cabrochas dessa ala.

Eu vibro, ela vibra na mesma emoção, na mesma intensidade. O tempo desfaz os laços efêmeros e reforça os verdadeiros. A cadência de seus passos imprime uma música única no ambiente. Então se faz a paz. E somos nós e o universo. Ela é linda e eu nem sei, mas ela sabe. Ela sabe os porquês da minha vida. Sabe quem é e quem eu sou. Por ora isso basta.

domingo, 15 de maio de 2011

Boa noite, sou Fiona, muito prazer

Eu tenho essa ogra que mora em mim. Algumas pessoas pensam que a conhecem, mas a maioria nunca a viu. A ogra é presa e mora nas profundezas do meu ser. As respostas engraçadinhas que, vez ou outra, ofereço, são minhas mesmo.

A Fiona interna é mais rude. Fiona não discute, parte logo pra ação. Ela diz que bater boca é coisa de lavadeira. A ogra faz jus ao nome que leva.

O problema é que ultimamente a ogra anda saidinha. Sabe como é? Aparece, olha o mundo real e volta pro seu canto. Vem de novo, diz uma ou outra palavra a uns seres escolhidos a dedo e - novamente - é trancafiada.

Entendo que devemos ser agradáveis com as pessoas. Fui ensinada a ficar calada quando não tinha nada de bom a dizer. Sei que devo controlar os impulsos, mas tem sido cada vez mais difícil. É que eu tenho gostado de ser dominada pela Fiona.

Fiona interna tem todas as boas qualidades que uma ogra deve ter. Às vezes, é egocêntrica e hedonista, além de estúpida. Talvez isso componha seu charme. Ela pode não encantar, mas diverte. Ri de si mesma e se diverte. Às vezes, mais do que eu.

sábado, 14 de maio de 2011

A grama do vizinho é mais verde mesmo?

De uns tempos pra cá tenho tempo. Então, com essa sobra de tempo, comecei a olhar a grama do vizinho. E pensei, mesmo, que ela era mais verde. Li sobre isso. Questionei-me: será? O que nos faz ver uma grama tão verde no quintal alheio e enxergar mato seco no nosso? Talvez a predisposição que temos em só reconhecer problemas ou, até mesmo, pensar que os nossos problemas são maiores do que os dos outros.

A inveja calcada no egocentrismo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ideias


Éramos amigos, muito amigos mesmo. Daqueles que trocam confidências, riem e choram juntos. Não, eu chorava e ele via. Não perguntava nada, apenas fazia companhia. Sempre me disseram que não existia amizade entre homem e mulher. Eu contestava. Falava dele.

A gente dormia abraçado, fazia compras de mercado. Andava na rua de braço dado. Eu não tinha frescuras com ele. Era meu amigo. Daqueles que a gente não liga de ficar de shorts quando a perna não tá lá grandes coisas. 

Ele ria. Falava que eu era o amigo dele também. Contava-me das mocinhas. Eu colocava defeito em todas. Não sou ciumenta, sou possessiva, eu dizia. Bem pior, ele respondia. Ele criticava meus mocinhos, dizia que eu escolhia mal. Queria me apresentar seus amigos.

Um dia ele me desmentiu. Teve uma ideia. Fiquei ressabiada no início, mas depois acreditei na ideia. A ideia foi péssima. Nunca deu certo. Por fim, até pensei que estava apaixonada. 

Precisei me afastar para descobrir que era carência. Perdi meu amigo, ganhei um conhecido. Quase estranhos agora. 

Hoje eu queria ver filmes antigos, tomar sorvete direto do pote e dormir abraçada.

Bom, ainda tenho o Igor, esse é pra sempre.

Terapia III

Dei uma de Carol hoje e troquei todos os horários. Pensei que havia marcado terapia, ensaio e acupuntura juntos. Desmarquei o ensaio, perdi o horário da sessão e a acupuntura, só na segunda.

Ah, como é bom ser eu!

Diálogos

- Veneno.
- Coração.
- Veneno!
- Infarto do miocárdio! Foi o que o médico disse.
- Sim, porque ela o envenenou aí o coração não aguentou e pronto, lá se foi.
- É, se foi mesmo. O modo é o que menos importa agora, é menos um.
- Menos um.. E se a gente desse uma festa?
- De despedida?
- É, uma festa de despedida. Poderíamos colocar as fotos dele, as músicas que ele gostava, chamar os amigos antigos...
- E depois todo mundo se mata num suicídio coletivo, tamanha tristeza que essa sua ideia mórbida vai causar.
- Você é sempre do contra.
- As suas ideias é que são do contra. Contrassenso! Além do mais, festa de despedida dois meses depois da morte? Já passou muito tempo pra isso. Vão pensar que a gente é retardado ou caducou de vez.
- Tá. Então a gente não faz uma festa de despedida. Faz só uma festa.
- Festa de quê? Festa tem que ter motivo ou pelo menos um tema.
- Festa pra celebrar a vida.
- Aí eu já acho que está muito cedo. Faz só dois meses que ele morreu.
- Então não vai ter festa nenhuma.
- Festa pra quê? Nessa idade, minha maior alegria é conseguir ir ao banheiro sozinho e não me sujar todo.
- Vai se vangloriando mesmo. O seu tempo de voltar às fraldas ainda vai chegar.
- Você é preguiçoso, já disse.
- É descontrole, você sabe. O médico explicou na palestra.
- Médicos, médicos, médicos... O que eles sabem da vida? Passam dez anos com os livros, depois atendem paciente atrás de paciente, em quinze minutos te entopem de remédio e te mandam pra casa.
- O Dr. Benvindo sabe o que diz. Você não lembra quando...
- Se a conversa for tomar esse rumo, vou pra sala de recreação jogar Damas.
- Você fala como se não tivesse doença alguma.
- Tenho doenças, mas não preciso fazer delas o tema do meu resto de vida. Ficar igual a um velho decrépito enumerando as dores o dia inteiro.
- Ah, claro! E jogar Dama na sala de recreação é a nova moda da juventude.
- Damas!
- Dama!
- Damas! São várias, ao menos quando eu jogo...
- Sempre competitivo.
- Primeiro eram as notas, depois o curso de direito, salário... Você sempre se achou melhor que os outros.
- Engraçado, eu não tinha notado o quanto você é implicante.
- Eu?
- É. Ressentido também.
- Não sei de onde você tirou isso. Não tenho nenhum ressentimento.
- Tem sim, desde a época da Rosalva. Sempre desconfiei da sua queda por ela. A Rosalva jogava charme pra nós dois, mas na hora de escolher mesmo, preferiu a mim.
- Grande coisa! Eu já saía com a Florinda quando a Rosalva finalmente cedeu à sua insistência.
- A vesga?
- Não era vesga, tinha olhar de ressaca feito a Capitu, do Machado de Assis.
- Vivia de ressaca, isso sim. Deve ter sido entre um trago e outro que aceitou casar com você. No dia da cerimônia, pelo que me lembro, ela estava de pilequinho.
- Pilequinho e embriaguez são bem diferentes. Ela estava nervosa, tomou uma tacinha de champanha antes de entrar na igreja.
- Uma garrafinha, não?
- Não vamos falar de quem já se foi e não pode se defender.
- Está certo, está certo. Por que, mesmo, que vocês não tiveram filhos?
- Tá demais hoje, hein! Agora eu é que estou começando a querer jogar DAMA na sala de recreação.
- Você se dói com tudo. Daqui a pouco teremos que fazer uma lista dos assuntos permitidos e os proibidos. Sensível... Parece maricas!
- Por falar em maricas, o que foi aquele episódio seu com o Brandão? Na época do exército.
- Não me lembro de nenhum Brandão... Não sei, em absoluto, do que você está falando.
- Depois eu é que tenho assuntos proibidos...
- Agora eu tenho culpa de começar a esquecer as coisas aos 87 anos? Ao menos eu vou ao banheiro sozinho!
- Bah! Vou jogar DAMA!
- Vai mesmo, ninguém vai querer jogar com você, vai perder. Ei, tá me ouvindo? Além de velho é surdo..

terça-feira, 10 de maio de 2011

Narciso

Ela dança e, quando dança, paira no ar. O mundo se move enquanto ela fica estática, tal qual beija-flor, levita. E seu braços se movem como as asas do pássaro.

Enquanto a observo, tira as sapatilhas displiscentemente. Solta as tiras, livrando as pernas das amarras, massageia os pés e suspira. Tudo isso sem se dar conta do frenesi que causa.

O amor em sua forma mais pura talvez se limite a isso: contemplação, êxtase e resignação.

Ela me olha sem me ver. Através da janela da sala de balé acompanho seus movimentos, assisto sua vida. Para ela, tudo é reflexo.

A Carta

Eu estava me esforçando mesmo. A mente aberta, coração exposto. Aí você me cortou. Disse que todo o trabalho tinha sido em vão e que não era aquilo que havia pensado. Fiquei ali parado, com o copo de whisky na mão, pensando se bebia ou jogava na tua cara. Meus rompantes de fúria são sempre mais dignos na minha imaginação.

Duas décadas de amor, ódio e muito trabalho juntos. A gente se conheceu, se amou, brigou e fez as pazes tantas vezes que eu nem sei como é uma vida sem ter você ao meu lado.

E você me dá um fora por causa de trabalho. É só mais um trabalho. O que é uma conta atrasada frente a vinte anos de beijos? O cliente que se foda, pensei, enquanto as lágrimas rolavam.

E você bateu a porta levando só uma mala com as suas roupas. Vai voltar, eu sei. Você adora essa casa, esse corpo, esse jeito que é meu mas só acontece quando estou com você. Adora sim, eu sei.

Foi assim que comecei a esperar. Ficava na poltrona da sala, de frente pra porta. Ventava mais forte e eu me levantava. Fingia estar fazendo alguma coisa, pro caso de você abrir a porta e pensar que eu estava te esperando. Fazia gênero, isso sim. Depois levei a TV pra sala. Deitava no sofá, ainda virado pra porta. Passou mais um tempo e olhar pra porta tornou-se insuportável. Foi quando eu virei o sofá pra parede. A faxineira riu. Eu disse que era a última moda na Europa.

Dois anos depois, as esperanças começaram a diminuir. Te esperava às terças e quintas na sala, nos outros, dias ficava no quarto. O olhar vagueava da porta do quarto pro teto e, então, para a porta de novo. E você não aparecia nunca. Nem nos sonhos.

Repassei todas as nossas conversas mentalmente e, quando comecei a esquecer, resolvi escrevê-las. Os diálogos reais acabaram e a ficção passou a preencher meus dias. Inventava tudo e registrava. Criava os mais diversos desfechos para a mesma história. Einstein deveria ter orgulho de mim, fiquei especialista em realidades paralelas.

Cinco anos e nenhuma notícia. Será que ele morreu? Às vezes, pensava isso. Imaginava. Chorava no seu funeral copiosamente. Até a sua mãe me consolava. É, na minha imaginação ela gosta de mim. Ela me chama de genrinho querido que pedi à Deus. Ela é doce e agradável. Nos meus pensamentos, é claro!

Então, hoje faz dez anos que você foi embora. O sofá continua virado pra parede. Por fim, achei charmoso. Além do mais, eu sempre fui o engenheiro, você era o decorador. Pra quê casa arrumada se você não vai voltar mesmo?

É meio sem jeito, meio sem cara de nada, mas é isso. Nunca fui bom em escrever. Então vou colocar o título de Bilhete Suicida pro caso de você não entender o que essa carta significa. Ao menos no fim quero ser digno e ter um significado.

Ah, foi bom ter conhecido você, juro.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Entrando em casa sou surpreendida por conversinha de vizinho.

- Você fez obra recente?
- Não, vou fazer.
- Mas conhece pedreiro?
- Conheço sim. Ótimo, de confiança, sabe? Fez algumas coisas aqui em casa e no apartamento do primeiro andar.

E ri. Ele nunca vai saber o que pensei, mas ainda assim foi engraçado.

- Ele é bom?
- Fantástico! Quer entrar pra ver minha casa?

Nesse momento ele olha pra minha sacola de cerveja e recusa, educadamente, o convite. O Igor mia ensandecidamente dentro do apartamento. Continuo fazendo a linha vizinha educada enquanto o gato se esgoela e nada.

- Se você quiser, traga sua esposa para ver o apartamento.
Disse, tentando melhorar a minha imagem.

O vizinho - educadérrimo - recusa e, ainda olhando pra cerveja, entra no apartamento dele.

Eu continuo parada com a porta aberta, Igor no colo, rindo. O que será que ele pensou?
Quando parece não haver saída. Saia. É a hora. Saia de qualquer jeito. Construa a saída se não conseguir encontrá-la.

Você em mim

- Eu dirijo e você olha o mapa, tá? Você consegue?
- Claro que sim!
- Então?
- Vira à direita. Direita de novo e agora à esquerda. Anda uns 10 km nessa rua agora.
- Meu bem, esse é o mapa da estrada, o da cidade é do outro lado. Onde a gente tá?
- Você não está vendo? Isso é uma favela!
- Amor, está acabando a gasolina, o celular não pega aqui. O que aconteceu? Meu bem, por que o mapa está virado?
- Eu fui acompanhando as ruas e...
- Onde a gente está?
- Na favela, ué. Já disse.
- No mapa! Onde a gente está no mapa?
- Ah, isso eu já não sei. Eu fui virando pra seguir as ruas e as ruas sumiram.

Leiaute

Eu gosto de cinza!

Terapia II

A coisa está bem pior do que imaginei. Pior no sentido de estragada mesmo, mas também está melhor. Existe a vontade real de resolver a tal coisa estragada e, vista por esse ângulo, a coisa está muito melhor do que imaginei.

Dia de entrevista. Vamos nos conhecer e propor a linha de trabalho. Não me avisaram antes. Não teve entrevista. Cheguei logo com a lista dos estragos. Três décadas resumidas em tópicos, bem escritos, uma racionalidade de dar inveja, até começar a ser lida. Enfim termino a lista, aos prantos, com uma angústia que há tempos não via.

Isso é material para o trabalho, pensei, muito material. E parece que só pensei isso. O resto eu senti. E sentir não me é familiar, não à vista do alheio. Senti tudo e nada. Crescer, às vezes, dói.

Querido diário, hoje aprendi a pedir ajuda.

Terapia

... com direito a bloquinho e anotações. É, não estou a fim de resolver sozinha. Sim, quero ajuda. Anotei os tópicos e vou na mocinha. Quero o caminho mais prático, mais rápido e, de preferência, indolor.

- Moça, me dá rosinha? Só hoje, só esse mês?

O que você faz quando está com raiva?

Grita? Esbraveja? Luta por seus direitos?
Eu choro!

As flores de plástico não morrem

Só elas não morrem. O resto todo, meu bem, vai pro saco. Morre de uma vez ou aos poucos, mas morre. O amor morre e resta a indiferença. O sentimento morre e fica o vazio. Páginas em branco aguardando tinta enquanto os escritos passados estão todos mortos. E se você está vivo, lendo isso agora, tenha essa certeza: você está morrendo. A cada segundo.

Morrem as intenções, boas ou más. Morrem as esperanças. Morrem, também, o ânimo e a boa vontade. Tudo morre um dia.

Morre, mas não acaba.
Morte não é fim, é transformação.

domingo, 8 de maio de 2011

Das cenas interessantes do dia a dia

Vez ou outra perco voos. Sim, sou desorganizada, mas convivo com isso pacificamente. Não envolvo terceiros nas minhas patetices, afinal, a desorganização é minha. Os poucos relógios que tenho são adiantados para evitar que eu chegue atrasada aos compromissos. Ao menos aos matutinos, uma vez que não consigo fazer contas pela manhã. Hoje eu cheguei ao aeroporto na hora, aliás, antes da hora. Tão adiantada que até tentei antecipar meu voo. Não deu certo.

Check in feito, bagagem despachada, embarcada e feliz. Então chega a comissária, após o encerramento do embarque, e pede à mocinha ao lado que mude de poltrona, para que duas pessoas sentem juntas. Achei estranho, mas não era comigo, fiquei quieta. Sentam dois senhores. Achei mais estranho ainda, continuava não sendo comigo, permaneci quieta. Daqui a pouco, a comissária pega a minha mochila e tira do bagageiro para colocar a mala do tal senhor.

- Boa noite! Tudo bem? Pode me devolver a mochila, por favor?
- Eu ia colocá-la no final do avião.
- Não, obrigada. Ela vai no meu pé.
- Não tem problema?
- Imagina... (com uma cara óóóóóóóótema, parecendo que ia estrangular alguém)

Dormi, dormi e dormi. Aviões tem um efeito sonífero fantástico em mim, é só sentir o cheiro que o soninho vem. (Nota mental: Comprar lençol de nuvem para acabar com a insônia). De repente: Bleing Blóing! Atenção Srs. passageiros blablabla sorteio blablabla final de semana grátis - nesse momento despertei - blablabla poltrona 9D.

Há! A poltrona do desalojador de pessoas. Ele ganhou? Não, ele havia feito a mocinha trocar para ir sentado ao lado do amigo. Perdeu o final de semana grátis. Risos mentais ao ouvir o comentário da senhora que estava no corredor: -  Justiça divina...

Adoro!

Apego

Preferia a página sombria. Fico, agora, com vergonha dessa casa nova cheia de livros, tão cheia de si e eu, euzinha, tão humilde aqui nos meus escritos. Acho que fiquei intimidada.
  
Resolvido!
As pessoas mal-humoradas que trabalham com atendimento ao público deveriam rever seus conceitos. Li uma vez que guardar rancor é tomar veneno e querer que o outro morra. Acho que é por aí. Deve ter alguma frase pra gente mal-humorada também, só não me vem nenhuma à cabeça neste momento.

A figura me atendeu mal e eu vou sair por aí curtindo minha vida. As always, honey. E a mal-humoradinha de plantão vai ficar lá, acumulando energia negativa e alimentando uma egrégora nefasta. Se ela quisesse realmente irritar os outros, deveria parecer feliz. Nunca entendi isso, mas as pessoas sempre ficam irritadas quando estou feliz. Coitadas! Passam quase o tempo todo irritadas ao meu lado.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Eu não confio

    
na palavra dita na palavra escrita no sorriso no gesto na minha memória na sua história no meu corpo no seu rosto na minha mão na extensão das horas no resto das coisas na minha experiência na sua vivência na sua verdade na minha mentira no texto sem nexo no côncavo no convexo na rima pobre na repetição no contraditório na incoerência.

Não, eu não confio em nada.
Em ninguém.
Em alguém.

Nem em mim.

Dúvida

    
Como sabemos que o limite foi atingido se não temos limite?

Você em mim

 - Quanto tempo leva até que a gente consiga conhecer alguém completamente? Seus pormenores, as idiossincrasias, as manias, sabe?

- Isso é a busca eterna. A gente não chega a se conhecer por completo. Nunca. O outro então? Acho que a gente não chega nem perto de conhecer. Eu ainda me surpreendo com minhas ações.

- Reações. Você se surpreende com suas reações. A gente pensa antes de agir, então não pode ficar espantado com as próprias ações.

- Nem sempre penso antes de agir. Minhas ações, às vezes, são impelidas por algo que não é o meu pensamento. Não o tempo todo.

- Por que será que eu não fico surpreso quando você diz que não pensa antes de agir?

- Um sapato voando agora na sua cara te surpreenderia, não?

É cansativo

Certas atitudes me dão preguiça. Sabe aquela sensação de sentir o gosto da comida só de olhar pra fachada do restaurante? E não, ele não é o seu restaurante favorito. É apenas o restaurante de sempre. Então tem essa gente com essas atitudes que são as de sempre. Você sabe exatamente onde vai dar. Preguiça!

Às vezes, penso que vim com Muito Otária carimbado na testa. Ou será que me faço de idiota? Enfim, alguém sempre acredita que eu sou e lá vem a atitudezinha repugnante. E, mais uma vez, a preguiça.

Então eu vou embora. Aí o serzinho desprezível diz que fujo das situações. Não fujo. Falta-me ânimo pra ver filme ruim reprisado à exaustão. É só isso.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Self em crise

  
Quero rosinha.
Agora!
 

A medida das coisas

 
, certamente, é algo a se descobrir. A descoberta, por assim dizer, pode ser feita por meio da experiência. É cansativo, e até mesmo improdutivo às vezes, tentar adquirir conhecimentos com a vivência alheia.    
 

Encaixes


Ser sua é difícil. Não porque eu não queira ou não goste. Ser é difícil. Deixar de ser, então, é quase impossível. Seguir os seus pensamentos, por vezes, é um martírio. Aprendo, sigo, obedeço e, por fim, calo. Largar tudo que aprendi até hoje. Vasta extensão de tempo. Desprender-me. Despojar-me.

O abandono é necessário e inevitável.
Medos surgem a todo tempo.

Suponho apoio.
Dúvidas.

Aonde eu termino e você começa? Simbiose antinatural.
O que é verdadeiro ou falso?
Indagações recheadas de sentidos e tabus.

O que é você em mim?
O que eu sou eu em você?
  
É uma felicidade etérea, delicada, frágil. Sustenta-se em sensações. Paira no ar. Vai e vem levemente com os momentos. Quando chega, marca. Júbilo. Gozo? Não há descrição que exprima. Se faz presente e é suficiente.

Não se diz, não se escreve.
Vive-se.
Vive-se aos poucos.

Deve ser saboreada, aproveitada e estendida ao máximo.
Até que desapareça no infinito.
Até que reste apenas o limbo.
Até que seja nada.

Então o recomeço.
  
  
Saí do armário.
Ouch!

Relacionamentos

O gato ficou preso na janela. De novo. Me olhou e miou reclamando. Sim, eu conheço as entonações do miado do gato e sei exatamente o que ele quer dizer. É incrível a falta de habilidade que tenho pra reconhecer emoções nas pessoas contraposta a percepção das necessidades e vontades do gato. Sim, eu conheço o gato.

A gente tem aquele tipo de relação. É. Eu e o gato. Ele me olha, mia e eu sei. Eu olho pra ele e ele sabe. Ainda não decidimos quem cria quem e muito menos quem é o dono das coisas. Acho que nunca chegaremos a um consenso. Ainda assim, não brigamos por território. Convivemos pacificamente.

A gente se aninha e se evita. A gente força a barra de vez em quando, mas na maior parte do tempo, nos respeitamos. A gente se completa na nossa individualidade. A gente não assume que precisa um do outro. A gente sente falta, ciúmes, até sofre, mas não confessa. É. Eu e o gato.

Eu não sei se ele é meu ou se eu sou dele. Nunca fui boa nessas definições. Posse e controle são assuntos que não discutimos. Claro! Temos alguns tabus e evitamos assuntos. No entanto, somos sinceros em tudo aquilo que podemos ser. Tudo é muito natural e talvez seja isso que torne nossa relação tão especial.

Acho que já me tornei The Crazy Cat Lady e, sinceramente, gosto disso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Você em mim

  
- Acho que o dia mais ridículo da minha vida foi o dia em que ficamos juntos. Eu me produzi toda, fui ao salão, fiz até maquiagem paga. Fala sério! Terminar daquele jeito.

- Eu achei bem natural. Você não parecia se esforçar tentando me impressionar.

- Eu quase fiz um curso rápido de teatro só pra tentar parecer natural. Juro.

- Deu certo. Eu fiquei inebriado com seu perfume, o jeito que você conversava e ia me envolvendo a cada palavra. Você parecia ter opinião sobre tudo. O mundo parou para te ouvir naquela noite.

- Eu vomitei no seu carro.

- É, isso foi foda!

- E você segurando meu cabelo, dizendo que estava tudo bem.

- Eu queria muito te beijar, mas naquela hora só pensava em encontrar uma farmácia aberta.

- Pra comprar remédio?

- Não, escova de dentes.

Você em mim

  
- Quando foi que você deixou de gostar de mim?

- Não é assim, a gente não deixa de gostar de alguém em uma data específica. Não é algo que se marque em calendário.

- Mas você não gosta mais de..

- Não!

- Então...

- Acho que foi quando você começou a fazer esse tipo de pergunta.

Você em mim

    
- A gente se conheceu naquela manhã de domingo, lembra? Você estava na padaria, com roupa de festa, comprando cerveja e eu tomando café. Você parecia brilhar enquanto os outros diziam coisas sem nexo.

- Naquele tempo eu tinha objetivos, sonhos, sei lá.

- Eu te vi vestida daquele jeito e te imaginei dançando a noite inteira. Linda naquele seu vestido azul. Parecia que o céu ia trocar de cor, só porque não conseguia competir com o azul do seu vestido. Até a natureza tinha inveja do seu brilho.

- E eu não sabia nada da vida naquela época.

- Você era autêntica.

- Eu só sabia ser eu.

- E mais nada.

- E mais nada... E por que hoje você quer que eu seja algo além de mim?

- Porque não faz mais sentido.

- O quê não faz mais sentido?

- Você não faz mais sentido pra mim.

domingo, 1 de maio de 2011

Vaidade

  
Então nessa nova versão narciso, não me apaixono mais pelo que gosto. Apaixono-me por aquilo que se atrai por mim. Não. Não me apaixono pela pessoa. Apaixono-me pelo simples fato da pessoa se apaixonar por mim.

Não é lindo o amor?

Eu escrevo

pra aliviar a dor. pra tirar de dentro de mim. pra expor. Escrevo pra confrontar. pra chocar. pra brigar. Escrevo porque acalenta a minha alma. porque alimenta o meu ego. porque me faz viajar. Escrevo pra confortar. pra dizer que eu sei. ou que não sei. Escrevo sem motivo. sem foco. sem objetivo. Escrevo sem parar. mas às vezes paro.

Então não escrevo.

Eu não escrevo até quase sufocar. até o limiar da sanidade. até as palavras se amontoarem na garganta seca.  A garganta seca que só sabe quem não fala. Eu não escrevo até me sentir muda. até doer. até escrever de novo.
 

A vida é sonho

  
disse Calderón. E eu acreditei. Eu ousei, sonhei e vivi. Até hoje vivi como se o amanhã não importasse. Como se o sonho fosse o objetivo. Alcei vôo alto e me vi feliz.

E agora chega a parte do texto onde você espera que eu diga que me arrependi. Mas eu não me arrependo. E continuo acreditando nos meus sonhos. E continuo sonhando.

Hoje estou sóbria como nunca estive antes. Consciente dos meus atos. Sei o que quero e o que não quero. E se não faço exatamente o que programei para mim, sei o porquê. Escrevo a história da minha vida com caneta. Não venha com a sua borracha porque não tenho espaço para ela aqui.

Não me cerceie. Não me prenda. Não me limite.
Se quiser, me acompanhe.