sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Impermanência

Eu te amo e não vivo sem você. Hoje. Amanhã, não sei mais o seu nome.

Dependo do meu emprego. Não consigo nem imaginar o que fazer se o perder. Hoje. Amanhã, sou nômade.

Defendo essa opinião com minha vida. Inflexível, na certeza de ter razão. Hoje. Amanhã, condeno.

Roupas, amigos, amores, idéias e rancores, tudo é efêmero. Menos o meu umbigo!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Suzhou, a Veneza Chinesa (que não conheci)

Suzhou é linda, mas o passeio foi horrível. Nada de inglês. Cidade grande com pontos turísticos afastados. Saga!

Mas me adianto. Vamos ao início.

Decidi conhecer a Veneza Chinesa, Suzhou. Fica a poucos quilômetros de Xangai e, se você escolher bem o trem, é possível chegar em apenas trinta minutos. Verifiquei horários do metrô e dos trens, escolhi a estação mais vazia, anotei tudo e dormi.

Acordei bem cedinho para aproveitar o dia na cidadezinha. Tomei uma xícara de café no quarto do hotel mesmo e parti, empolgadíssima com a aventura.

Surpreendentemente, tudo deu certo. Cheguei rápido à estação, comprei o bilhete com facilidade e embarquei. Ainda tive tempo de comer no trem, pois eles tem serviço de... bordo? Enfim, perfeito!

Meia hora depois já estava em Suzhou, mas não reconheci absolutamente nada do que havia visto nas fotos. Pela internet, o local parecia-me muito mais bucólico. Bom, não iria voltar direto da estação para Xangai, então, resolvi procurar um balcão de informações turísticas ou alguém que vendesse passeios de um dia pelos arredores.

Consegui, rapidamente, um mapa em inglês e um passe de ônibus. Só! Não foi possível obter qualquer auxílio a mais. Saindo do quiosque, fui abordada por um senhor com fotos - iguais as da Internet - e uma promessa de visita guiada com explicações em Inglês. Agora sim, pensei, vai dar certo. Comprei o pacote e, em seguida, tentei devolver o cartão. Sem devoluções, a mocinha respondeu, mais com gestos do que palavras. Ok, mais 15 yuans no fundo perdido. 

Ainda feliz, segui uma senhorinha que me levaria ao ponto de encontro para conhecer as quatro atrações que havia escolhido. Foi aí que começou!

Colocaram-me numa van, sozinha, com um motorista que só falava Mandarim. Ele dirigia feito um louco, fumando e gritando ao celular, enquanto dava voltas na estação de trem. Após a terceira volta, parou no mesmo lugar em que me pegou, abriu a porta e disse algo. Algo que não vou saber nunca o que foi, óbvio.

Continuei sentada. Pensei que pegaríamos mais alguém. Por fim, percebi que devia descer. Ele mostrou o meu recibo e o dinheiro que havia pago. Apontou outro motorista. Com algum esforço, entendi que era pra eu entrar em outra van.

Olhei pro motorista novo que estava com mais cara de interrogação do que eu e perguntei: English? Sacudiu a cabeça, os braços e se afastou. Olhei para o motorista louco. Ele resolveu gritar com o motorista novo. O novo, gritou também. 

Nesse momento, achei que era a hora de entrar na briga. Resolvi gritar que queria meu dinheiro de volta, que não iria fazer mais passeio nenhum e alguns impropérios que consegui me lembrar como eram ditos em inglês. Sim, optei pelo inglês, pois caso alguém conhecesse a língua, poderia vir em minha defesa. 

Síndrome de donzela em mode ON. Não rolou. Ninguém para ajudar. Voltei ao modo Fiona. Gritei, gritei e gritei mais alto do que os dois chineses. Por fim, quando o nervosinho deu bobeira, tomei o meu dinheiro da mão dele, devolvi o meu recibo, falei meu último palavrão, virei as costas e saí andando.

Vi um Shopping pegado à estação. Caminhando nesse sentido, uma placa. A do ônibus. Quinze yuans recuperados do fundo perdido. O ponto inicial dos ônibus turísticos era ali e, descobri, meu cartão valia também para os ônibus comuns que faziam a interligação dos passeios. Nesse momento, escolhi ver somente um lugar: a vila onde ficam as gôndolas. 

Cheguei no ônibus certo com muita mímica, ajuda de transeuntes, mostrando onde queria ir no mapa. O cartão não funcionou. Levaram-me nas promotoras de venda do cartão. Mais mímica e nada. Elas tentavam explicar como o cartão funcionava. Eu tentava dizer que não, ele não funcionava. Por fim, fizemos um teste juntas. Entenderam. Ganhei um novo cartão. Voltei para o ônibus.

Quarenta minutos rodando pela cidade e, por fim, o guia me manda descer com uma chinesinha bem simpática. Peguei o mapa e apontei, ele assentiu. Ótimo. Descemos. Agora é só achar o barco, fazer o   cruzeiro e me divertir, não é? Não!

Desci num jardim. O cruzeiro ficava a alguns quilômetros dali. Quem queria ver o jardim era a chinesa, o guia só tinha a intenção de se livrar de mim - a turista louca que apontava um mapa que eles não entendiam.

Quando em Roma, faça como os Romanos. Quinze minutos para encontrar a entrada do jardim e mais três horas passeando lá dentro. Caminhamos, tiramos fotos, rimos, passeamos de barco e não conseguimos entender absolutamente nada do que dizíamos uma à outra.

Por fim, bem cansada, expliquei que queria voltar. Saímos do jardim e fomos esperar o ônibus. Outra saga. Atravessa rua, pergunta explica, atravessa de novo, muda de direção, enfim, ônibus. Jurava que ela tinha entendido. Mas, uns dez minutos depois, outra atração, outro jardim.

Já eram quase cinco da tarde. Em breve, ficaria escuro e eu precisava retornar à Xangai. Sem muitas esperança, dirigi-me ao balcão de informações. Can I help you? Isso foi música para os meus ouvidos. Em segundos sintetizei o que queria fazer, onde precisava ir e um agradecimento sincero à chinesinha que, até então, me acompanhava tentando fazer as minhas vontades.

Saí de lá com o número do ônibus e o nome da parada escritos em Mandarim num papelzinho e fui mostrando pela rua até descer na frente da estação. Mais uma saga para comprar passagem, trinta minutos de viagem e, sim, Xangai! 

Mais perto do que Suzhou, fica Qibao. Apenas três metrôs da estação Central, onde eu estava. Fui. Queria ver os canais, as pontes, as gôndolas.

Lá, me virei sozinha. A parte histórica é ao lado do metrô e tudo é sinalizado. Comprei mimos pros bebês da minha prima utilizando a língua “calculadora”. É assim: você aponta o que quer comprar, eles digitam o preço e te entregam, você digita o que quer pagar, até chegar a um acordo. Divertidíssimo!

Passeei, comi e, quando escureceu, fui para o hotel. Realizada, mas sem ver as gôndolas! Não, não tem em Qibao...

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Ando meio desligada...

Cheguei de volta à China (continente) sem a passagem de saída do país e com permissão para ficar só mais um dia. Não lembrei de imprimir.

Na imigração, o paciente mocinho me colocou num box, cheio de guardas em volta, até que eu conseguisse acessar o aplicativo da Companhia aérea.

Notando minha dificuldade, sugeriu que eu acessasse meu email pelo computador do aeroporto. É Gmail, eu disse. Ele sorriu sem graça, respondeu que esse não tinha jeito.

Enfim, o app funcionou, mostrei as minhas informações toda contente. E o número do vôo? Ele indagou. Essa página não carregava.

Cocei a cabeça, olhei pro box e ri. Mais dez minutos sentadinha pra pensar no que fiz.

Mexe pra cá, pra lá, entra num site, em outro e finalmente encontro o tal número. Dei um pulo com o celular na mão e, agora sim, mostrei o que ele queria.

O rapaz riu, devolveu meu passaporte e desejou boa viagem. Só aí que fui sacar que poderia ser presa se não achasse nada.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Xi'an: é ruim, mas é bom II

Hoje dei folga de verdade para os meus pés e paguei fui excursão, dessas com guia e tudo.

Um tremendo saco!

Hora pra comer, forçação de barra pra comprar em lojas caras, poucas pausas para apreciar as paisagens e quase nenhuma pra fumar.

Vi, enfim, os Guerreiros de Terracota, mas me arrependi inúmeras vezes de não ter pedido um áudio guide na entrada do museu. A voz do guia me irritava profundamente.

O ponto alto foi ter conhecido um casal muito simpático da Califórnia. Mexicanos animados e falantes. Mostrei um pouco do meu portunhol e rimos muito.

Viajar só tem dessas coisas. A gente tá tão aberta ao novo que se diverte até nas roubadas.

Xi'an: é ruim, mas é bom

Não andava de bicicleta faz uns 20 anos. Tinha esquecido a sensação maravilhosa do vento no rosto. Então, cansada e com os pés doendo ainda de Beijing, achei que seria perfeito pra percorrer os 14km da muro que cerca a cidade.

Aluguei a bicicleta e marquei bem o local em que deveria devolvê-la. Quase duas horas depois, tinha completado pouco mais de uma volta, mas como o tempo iria terminar, retornei para devolver a bike.
Morrendo de fome e pensando em ter um banquete chinês na praça de alimentação do Shopping ao lado do hotel, desci pelo portão e saí andando sem prestar muita atenção aonde estava.

Bom, foi aí que a jornada começou. Saí pelo portão errado, óbvio. Além disso, claro que fui para o lado errado. Andei mais de meia hora para, então, perceber que não reconhecia absolutamente nada ao meu redor.

Fiz todo o percurso de volta, parei em frente ao portão leste - que, pelos meus cálculos, deveria ser o sul - e tentei rumar para o lugar certo.

Encontrei um parque lindo que fica colado ao tal muro. Tinha um mapa com a indicação das ruas e dos portões, todo escrito em mandarim.

Andei um bom tempo pelo parque até que resolvi tentar pegar uma espécie de táxi. Apontei no meu mapa (incompleto, justifico-me) onde queira ir. O motorista me deixou do outro lado da rua, num ponto de ônibus e me cobrou 5 yuans por isso. Ri sozinha.

Mais uma vez, voltei para o parque. Oito quilômetros, uma rua de artes e duas derrotas depois, achei o hotel.

Não gosto de me perder, porém, isso é tão corriqueiro que aprendi a apreciar o que encontro no caminho enquanto tento me encontrar.

O passeio inusitado foi o melhor do dia.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

East Nanjing Road - Line 2 - ShangHai

Olho para o lado na escada rolante e vejo uma camiseta de um time de futebol da Espanha. Puxo conversa 

- Spanish?
- Yes...
- Please, speak!
- Hola! És española también?
- Brasileña.
- Hahahahahaha... Chino, chino, chino?
- Si...

Risos.
Depois de quatro dias sem falar uma palavra em português essa conversa de um minuto foi a minha salvação. 

Surpresa em... Beijing?

Li tanto sobre as intermináveis negociações com turistas, o trânsito caótico de Pequim e seus taxistas fujões que fiquei desesperada.

Ainda no Brasil, fiz extensa pesquisa sobre o acesso à Grande Muralha. Para todas as outras atrações, usaria o metrô. Mas para essa, precisaria de ajuda, muita ajuda.

Encontrei o nome e o email de um guia local num blog de uma brasileira que mora em Xangai. Indicação confiável, pensei. Mesmo assim, precisei negociar bastante.

Quando cheguei, finalmente, em Pequim, estava me sentindo completamente trouxa. Mais uma roubada, era só o que vinha na minha mente.

Além disso, apareceu uma excursão gratuita à Cidade Proibida, realizada por alunos de História, em parceria com um site de turismo, que precisavam treinar inglês. Por muito pouco não cancelei o tão sonhado passeio.

No dia marcado, acordei quatro horas antes. Ansiosa. Comprei água, café, chips e coloquei tudo na mochila. Às nove horas, lá estava ele: Xiaowei. Inglês perfeito, bem melhor do que o meu, simpático e prestativo.

Levou-me, primeiro, ao lugar turístico, que depois descobri não ser tão turístico assim. Take your time. I'll take a nap, falou ao me deixar no ponto do ônibus que me levaria à Muralha.

Mutianyu. Linda. Impassível.

Duas horas depois, retorno ao estacionamento para partirmos em direção a um ponto menos explorado.

Huanghuangcheng. Levei meia hora para pronunciar de maneira quase correta. Quis desistir mais uma vez quando percebi onde estava me metendo.

Ele me encorajou a subir. Riu do meu medo de altura. Colheu tâmaras no caminho e me explicou sobre a população local.

Enfim, subi. Apavorada, sozinha e, depois,  extasiada.

O lugar ainda não foi aberto a turistas. É necessário alguém que conheça bem o local. Passei duas horas caminhando pela Muralha. Um silêncio incrível. Paz.

Só isso já teria compensado a viagem. Mas ainda almocei num restaurante típico, comendo comida decente, boa e com preço justo.

Voltei dormindo. Xiaowei colocou sua seleção de Bob Dylan pra embalar meu sono.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Pirraça

Alta noite já se ia enquanto eu escutava Marisa Monte, pensava na morte do Bezerra e folheava uma revista para olhar as figuras. De repente, o telefone vibrou. Telefones não tocam mais, sabia?

Vibrou eufórico como quem ganha sorteio da TV. Vibrou insistente como Álvaro ao esperar que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta. Vibrou desesperado sem tábua de salvação.

Encantada que fiquei, não atendi. Quem sou eu para interromper um momento desses? Único no Universo.

De lá pra cá, não vibra mais. Dá muxoxo, vez ou outra, só pra mostrar que não morreu.

Quem não tem mais vida sou eu.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Prioridades

Minha memória já não anda tão boa ultimamente. Outro dia, quis ligar para uma amiga cujo número havia desaparecido da agenda telefônica.

Tentei uma, duas, três vezes, antes de desistir. Pelas gravações das caixas postais, descobri que errei todas as vezes.

O que me espantou foi que recebi retorno de todos os números errados que disquei.

As pessoas me informaram, inclusive, o motivo pelo qual não atenderam minha ligação prontamente.

Estavam curiosas. Queriam saber do que se tratava. Engano, eu disse.

Será que retornam com essa tempestividade para os números conhecidos também?

Se mistério, atualmente, determina prioridade, peço a todos meus amigos, conhecidos, paqueras e pretês: apaguem meu telefone de suas agendas. Esse é o tratamento que quero!

Naquela mesa

Alguns lugares são impregnados de recordações e emoções. Esse bar, esse que estou agora, é assim.

Aqui, nos desentendemos e fizemos as pazes por mais de duas décadas. A cerveja que já teve gosto de lágrimas, tristes e felizes, hoje faz parte da celebração da maturidade da nossa relação.

Você já nem bebe mais. Deixou de fumar também. Mas, eventualmente, faz companhia. E continua sendo aquela pessoa que quero ver e conversar sempre, mesmo quando todos os outros nomes da agenda transformam-se em "persona non grata".

Independentemente de rótulos, de nomes, de qualquer coisa, é com você que eu conto, porque é você que me entende e é você que eu amo.

Feliz dia sem nome, sem categoria, sem comemoração comercial. Feliz dia, como outro qualquer, de saber que tem alguém que se sente bem só porque você existe!

quinta-feira, 30 de julho de 2015

#paquera

Então, perguntei: 
- Você já colheu maçãs? 

Respondeu-me que não, fez uma cara de interrogação e permaneceu calado.
Quebra gelo maldito, pensei.

Queria parecer inteligente, espontânea, descolada.
Pareci louca. Idiota, talvez.
Nem insisti.


terça-feira, 21 de julho de 2015

#wannabecool

Quero férias permanentes desse ofício de lidar com gente sisuda e mal-humorada que reclama de tudo. Das minhas reclamações, também quero uma folga.

Cansei de chatice.

Quero poesia, comida boa, rede na varanda e sossego. Se for pedir demais, tudo bem, aceito sorrisos educados e pessoas contidas. Mas, se ainda assim, for muito esforço, silêncio é bem-vindo.

De mim, espero ao menos bom senso! 

To be continued... 

O que aconteceu com a Maria Eduarda?

Aos vinte dias do mês de dezembro do ano de dois mil e dez do calendário XPTO que não me recordo o nome, Maria Eduarda desapareceu. Saiu de casa levando apenas uma valise com algumas poucas roupas e uma soma considerável de dinheiro na carteira. Planejara a fuga com meses de antecedência. Vendera todos os bens e pertences. Sem amarras. Finalmente livre!

Isso foi o que ela pensou, mas liberdade não acontece assim de uma hora pra outra. Liberdade, meu bem, é construção interna, com ajustes diários e muita, mas muita, perseverança. Mudou-se, porém não mudou.

Maria Eduarda, 43 anos, funcionária pública concursada, sonha com a aposentadoria para, enfim, iniciar o curso de alta gastronomia no Cordon Bleu e viver a vidinha simples que sempre quis, em Paris.

O destino das personagens: Maria Eduarda


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Morar só...

Tem vantagens e desvantagens, é óbvio. Como qualquer outra coisa na vida. Ao meu ver, em geral, é bem divertido.

Mas tem algo que me incomoda sobremaneira. Juro!

Não é a falta de companhia ou de conversa. Tenho carência disso sim, afinal não sou uma ilha. Porém, não é o principal.

Também não são os potes quase impossíveis de abrir, as lâmpadas que queimam mês-sim-mês-não e nem as baratas voadoras.

O que me faz falta de verdade é alguém para lavar minhas costas. Até hoje não me adaptei ao escovão esquisito que insiste em mergulhar de ponta e se esborrachar no chão toda vez que tento usá-lo.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O meu romance, a nossa história

Se eu fosse boa com palavras, iria escrever um texto bem grandão pra contar o quanto você é legal. Queria dizer o tanto que você me faz feliz. Mas não assim, com uma simples frase.

Ia falar do dia em que atolamos naquela estrada de terra, caindo uma chuva torrencial, completamente perdidos no caminho pra fazenda do seu tio.

Eu dirigia e você dava as direções, lembra? Você morreu de rir quando descobriu que eu confundia direita com esquerda.

Saiu e se molhou todo só pra buscar aquela florzinha meio murcha pra mim, enquanto eu chorava porque o carro não queria sair do lugar.

Acho que esse texto ia acabar virando um livro. Não ia poder deixar de fora o dia em que nos conhecemos. Aniversário da minha melhor amiga no bar de karaoke. A pior performance da minha vida. Cantar Wando... Ai, que idéia!

Você achou tão brega que não resistiu e foi falar comigo. Eu queria virar avestruz. Não sabia que o local não estava reservado só para a festa.

Ia ter um capítulo especial para as festas chiques. Ou melhor, para o nosso jeitinho de pagar mico juntos e quase estragar comemorações alheias.

Começaria pelo casamento da sua prima. Você caracterizado de Gomez e eu de Mortícia Addams no altar. Ela foi gentil em selecionar uma foto com a gente, dentre as mil e quinhentas que colocou no álbum.

Até hoje não sei porque pensamos que seria uma festa a fantasia. Ela escolheu o dia 31 de outubro por causa do feriado de novembro pra parentada de longe poder ir. Lembrando agora, parece óbvio.

E a decoração dominó nos quinze anos da Talita? Parecia cena de comédia pastelão. Meu salto ficou preso no tapete e você, todo delicado, conseguiu me soltar com o seu sapato.

Não teriam percebido nada se logo depois você não tivesse desequilibrado e caído em cima do arranjo de flores. Aliás, se os arranjos não estivessem enfileirados, ninguém notaria o estrago.

Mas trinta postes com vasinhos quebrando-se em sequência foi demais. Ficamos sem convites pro Natal e Ano Novo por três anos. A Talita queria até escolher outra madrinha.

Ah! Mais para o meio, quando os leitores já se sentissem envolvidos com a trama, contaria como foi o pedido de casamento com todos os detalhes possíveis.

Descreveria aquele anel perfeito que você escolheu. O meu nervosismo na boate quando você se ajoelhou no meio da pista de dança.

Talvez omitisse a trilha sonora. Nunca te disse isso, mas não gosto de Elymar Santos. Prefiro Amado Batista.

Deixaria um espaço em branco pra você expressar a sua fúria ao saber que esqueci o anelzinho na pia do banheiro do Shopping duas semanas depois.

E logo em seguida me gabaria da façanha de ganhar um anel novo, numa mesa de pôquer, blefando, quando você fugiu do meu all in.

O grande conflito seria representado pela noite em que saí de casa. Uma briga boba, porém com consequências sérias.

Mala na mão. Lágrimas nos olhos. Anel em cima do criado-mudo. Som de porta batendo.

Não sei como o livro terminaria, mas iria ler um pouquinho dele todos os dias pra você.

E, se você acordasse, se voltasse a respirar, se abrisse os olhos e lembrasse de mim, juro que te diria SIM outra vez e nunca mais te deixaria.

domingo, 31 de maio de 2015

Sabedoria de bar

Se foram as pessoas. As cadeiras também. Resta apenas essa mesa extra que o garçom insiste em deixar.

A música acabou. Risadas, burburinho, cochichos, tudo cessou. 

Ficaram apenas a mesa, a garrafa e o copo que o garçom não levou.

- Garçom, por favor, tire essa indignidade daqui!
- Não posso. Alguém precisa notar o que eu vi e sentar nessa cadeira que ninguém ocupou.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Troca. Justa?

Te dou meu sorriso, olhos brilhantes, abraço quentinho.

Recebo tua reprovação, crítica, ausência.

Te dou minha palavra, abrigo, sinceridade.

Recebo sua frieza, rejeição, meias-verdades.

Te dou meu carinho, consideração, intimidade.

Recebo teu desprezo, distância, repulsa.

Te dou meu amor, minha alma, minha vida.

Recebo teu sexo, frustrações, impossibilidades.

Te dou meu aço, lâmina, liberdade.

Recebo condolências.

Haikai (brega) da Separação Total

Pedi um momento
Deste-me um tempo
Disse-te que assim não aguento
Sumiu no vento

terça-feira, 26 de maio de 2015

Haikai da desilusão

Senti que hoje seria diferente,
pensei que dava pra consertar a gente.

Gente não se conserta, nem emenda
quando é grande a contenda.

Haikai do cachaceiro

Acordei ontem e falei:
- Desta água, nunca mais beberei!

Vida sem graça, mas é o jeito.
Hoje, abri um saquê e estava feito.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Repartição

Esperando o elevador sozinha na saída da repartição. Passam-se minutos e nada. Até que, por fim, uma voz vinda do além anuncia:

- Passageiros aguardando o elevador B favor pressionar o botão do andar desejado. 

Imagino logo uma dessas pegadinhas ridículas que passam em programas de domingo na televisão. Olho para cima procurando as câmeras. Procuro alguém rindo na recepção. Nada. A voz repete:

- Passageiros aguardando o elevador B favor pressionar o botão do andar desejado. 

Obedeço ainda desconfiada.

O elevador chega. Comento sobre a experiência com os outros passageiros. Ninguém entende. Não ouviram o chamado. Paciência, penso. Nem sabem que de elevador não se anda, viaja-se!

terça-feira, 12 de maio de 2015

Do contra

São tantos os caminhos que levam a Roma que ando pensando em não ir mais lá.

Sempre resisti às multidões.

A loucura diária e necessária

O lugar mais lindo do mundo é a minha cabeça. Não por ser esférico-ovalada-simetricamente-perfeita. É dentro.

Existe um cérebro ali. Dizem que é dele que brotam os pensamentos. Não produz resultados geniais em testes de QI. Mas elabora fantasias.

São os sonhos loucos, gerados de modo randômico por esse cérebro-cabeça-mente, o grande barato.

Mundos distantes fundem-se com uma pseudo-realidade quase inventada. Fatos corriqueiros tomam formas mais divertidas.

E a vida vai acontecendo nos intervalos. Leve. Tranquila.

Hoje fui rei, vassalo e indigente. Tive cavalo, plantação e nada. Cobrei impostos, conspirei e me resignei.

Amanhã, quem sabe, acordo princesa, socialite, doidivanas...

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Não foi sempre assim

Houve um tempo em que a vida não estava de cabeça para baixo. E as pecinhas pareciam se encaixar.

Janelas

Da janela do meu quarto vejo apenas neve. Essa paisagem branca, monótona, cansativa. Não diviso onde começa ou termina. É um longo tapete intocado. Abro o restante das cortinas. A claridade quase me cega.

Na sala tem um balcão. Ou varanda? Enfim, ele dá para uma ruela movimentada. Cheia de cheiros e sons. Gente esquisita anda nas ruas. E grita.

Observo o ir e vir dos comerciantes, dos transeuntes sempre apressados. Tudo tão caótico. Parece ser uma feira. Faltam crianças. Talvez estejam na escola ou dormindo.

Não que eu goste do barulho que fazem. Mas estão por toda parte. Não há como evitar. Não sinto falta de crianças. Apenas admiro o fato de não estarem presentes ali.

Sento-me à escrivaninha para recomeçar a carta. O vinho da noite anterior permaneceu no copo. Continua frio. As palavras que povoam minha mente fogem à mínima intenção de pegar a caneta. Bebo. O papel segue incólume.

Estou só. Incrivelmente só. A casa está fria e vazia. Embriagado, esqueço-me da perda. Levanto-me e volto ao balcão. A rua, agora, está parada. Talvez almocem. Talvez tenham mais o que fazer.

Sirvo-me de mais uma taça. Volto, mais uma vez, à carta...

Caro amigo,

Sinto muito ter de escrever-lhe esta carta, mas preciso que você perceba a urgência deste assunto para mim. Por diversas vezes tentei lhe contatar, mas você não retornou.

Somos amigos de longa data e sempre lhe considerei uma ótima companhia, além de um homem de integridade. Seria uma pena se viéssemos a ter desavenças por causa disso e, para mim, a única explicação é você ainda não ter percebido como o assunto é importante para mim.

Entendo que deva estar feliz com sua nova esposa. Não me oponho ao seu relacionamento de forma alguma. Afinal, o meu já vinha desgastado há tempo. Peço-lhe, apenas, que devolva-me o cachorro, pois sem este não consigo ficar.

Dê lembranças a ela. Diga-lhe que não guardo mágoas. Só quero o que me importa.

Por favor, escreva

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pequenas coisas

Tenho essa caixinha de música com um trechinho de Carmen gravado. Isso e um Santo Antônio. Os dois moram em cima do computador da estação de trabalho que ocupo na repartição.

Ganhei o Santo de uma colega que me acha muito solitária. Ensinou-me, na ocasião, que deveria tirar o menino Jesus dele e devolver apenas depois que casasse. Colei Jesus no Santo Antônio com superbonder por precaução.

Não é desprezo, tampouco heresia. Rezo pra ele sempre que lembro. Só não quero correr o risco daquele menino sumir e a coisa acabar em tragédia.

A caixinha foi comprada por mim num ataque de nostalgia. Toda vez que me irrito, ouço a música. É só um trecho, bem pequeno, aliás.

Mas, às vezes, o conforto vem das pequenas coisas. Um santinho, um pedaço de uma música boa, um carinho, um sorriso.

Tenho apreciado isso ultimamente e está me fazendo bem. Ao menos, é o que eu penso. Pra não pirar, surtar e nem sair correndo, giro a minúscula manivela e ouço a Habanera.

Mulher Invisível

Nunca pensei em mim mesma como uma pessoa comum.

Talvez por ter apreendido o significado da palavra "medíocre" muito cedo. Ou então, para chamar atenção. Pode ser, também, personalidade. Mas desde que adquiri consciência individual, procuro ser diferente.

Eu disse di-fe-ren-te. O que não é sinônimo de estranha. Pende pra original, autêntico, ok?

Pois bem, até os meus quarenta e poucos anos isso não foi muito difícil. Na turma, tinha as melhores ideias. Os projetos mais interessantes. As roupas, confesso, exageradas ou... esquisitas.

Funcionava bem. Mas, de repente, a fórmula perdeu o efeito. Fui de Sensação da Festa à Mulher Invisível num piscar de olhos.

Acordei uma manhã, escovei os dentes, tomei café e saí para o trabalho. Estava no elevador quando percebi. Um senhor entrou, virou-se de costas e tentou ocupar o mesmo espaço que eu.

- Desculpe-me, não a vi.

Como não? Eu estava sozinha no elevador!

Depois desse episódio, comecei a reparar mais nas situações coletivas. Esbarrões, desencontros. Nenhum olhar nos bares e boates da cidade cruzava o meu.

Incrível!

Notei que estava mesmo desaparecendo. Fiquei triste a princípio. Mas logo em seguida, a epifania: Sou livre! Não existo! Ninguém me vê! Essa sensação é impagável, maravilhosa, fantástica. Já estava até me acostumando ao meu novo modo de vida quando me trouxeram pra cá.

Vestiram-me com uma blusa de mangas compridas, amarradas atrás. Nada fashion, muito limitadora, eu diria.

Avisaram que eu não podia sair daquele jeito na rua. Era contra a Lei. Tentei argumentar. Expliquei que minha roupa era invisível, assim como eu.

Não entenderam.

Parece que a magia acabou do mesmo jeito que começou.

Milagre no estacionamento

- Enxuga esse rosto, moça. Tão bonita... Mulher bonita não pode chorar assim não.

Fez efeito contrário. Desabei num choro compulsivo que só era interrompido brevemente por soluços para, então, começar mais forte ainda.

Não conseguia ligar o carro, olhar para o rapaz e nem me mover. Só chorava.

Quando enfim me acalmei, percebi que estava sozinha no estacionamento. Ele havia sumido.

Lembrei daquelas histórias de anjos que surgem misteriosamente e salvam pessoas. Rezei.

Já estava fazendo o sinal da cruz - O completo, é claro! Anjos merecem. - quando avistei o rapaz voltando com algo na mão. Chegou à janela e estendeu um copo para mim.

- Toma, moça. Acho que tá precisando.
- Água?
- Não, pinga!

terça-feira, 28 de abril de 2015

Para todo o sempre

Nam-myoho-rengue-kyo,
Nam-myoho-rengue-kyo, 
Nam-myoho-rengue-kyo, 
Nam-myoho-rengue-kyo, 
Nam-myoho-rengue-kyo.

Sentada, de frente para o altar, as mãozinhas na altura do pescoço segurando uma espécie de terço, olhando fixamente para o pedaço de papel velho pendurado num pedaço de madeira rústica. Bateu o sino, uma, duas, três vezes.

Muito tempo depois, explicou-me que não era bater o sino, mas sim, convidá-lo a soar.

Foi a primeira vez que a vi. Uma simples entrega de livros. Acompanhava a cena atentamente enquanto aguardava o pagamento. 

A casa era a mais diferente que tinha conhecido até então. Não que conhecesse muitas, mas um vizinho mais abastado convidava a molecada da rua vez ou outra para assistir programas “do estrangeiro” em sua casa, então não era de todo ignorante.

O que eu nunca tinha visto mesmo, era uma menina tão bonita como aquela. Parecia delicada, frágil, doce. Podia ser comparada a uma boneca, dessas que se quebram toda se apertadas. De porcelana, acho. Dessas, que tem a boquinha bem pequenina, pintada à mão, num tom vibrante de vermelho.

Subitamente fui tirado do transe.

- Não senhor, não trouxe o troco. Imagina! Fica... fica um desconto pro senhor. Pode ser? Assim vira freguês.

Desconto que, óbvio, sairia do meu salário! Dinheirinho muito bem pago se fosse chamado para outra entrega ali. Aliás, já estava bem pago só com aquela primeira visita.

Meses se passaram e nada de voltar a aquele endereço. Nunca mais pediram nada. Achei até que haviam mudado de cidade. Sonhava com os olhinhos puxados e acordava suado, com o coração disparado. 

Ah! Foi nessa época também que aprendi o que era um coração disparado. Nenhuma corrida, jogo de futebol ou bronca do meu pai tinham o poder daqueles olhinhos puxados. Pensar neles já fazia o tal do coração quase pular pela boca.

A imagem da menina acompanhou-me por toda a adolescência. Depois, acabei esquecendo. Ocupei-me com outros assuntos, estudos e alguns namoricos. De quando em quando, após uma separação um pouco mais doída, ela voltava.

Sonhava que ela aparecia na livraria, pegava um livro ao mesmo tempo que eu e nossas mãos se tocavam. Ali, acontecia a paixão, enfim, correspondida. Olhávamo-nos. Um olhar longo, demorado, profundo. Beijávamo-nos antes de qualquer palavra ser pronunciada. 

Depois disso, várias fantasias com enredos rebuscados. Mas no final, sempre nos casávamos. Uma casinha boa com cerca branca e varanda, bichos no quintal e filhos barulhentos correndo nela.

Nunca aconteceu.

Estava recém separado de Lúcia quando finalmente a encontrei. Demorei um tempo para reconhecê-la. Envelhecera, mas os olhos, os olhos eram os mesmos. Aqueles olhinhos infantis que um dia vi, tão esperançosos, fixos no papel velho, tornaram-se mais vagos, um pouco perdidos, talvez. Mas tinham algum o brilho. Com um pouco de esforço, era possível notar aquele antigo brilho tão especial.

O pai falira pouco depois daquele ano em que a conheci. Cresceu tentando estudar, trabalhando aqui e ali para ajudar a família. Era a mais velha dos sete. Aos poucos, foi desistindo. Dos estudos, dos trabalhos, da vida.

Morava na rua 8, mas fazia ponto na baixada. Naquele dia estava a passeio no bar. Quando, por fim, lembrou de mim, ofereceu-me um programa com desconto. Pela “quase” amizade de infância que tiveram, disse com um sorriso irônico. Acho que se agarraria à qualquer coisa que tirasse seus pensamentos da realidade em que vivia e a levasse para os anos felizes da infância.

Aceitei, constrangido, mas aceitei.

Tentei uma ou duas vezes. Não consegui. Conversamos a noite toda numa espelunca que ela chamava de hotel e fazia preços fantásticos conforme a quantidade de fregueses que ela levava durante a semana. Despedimo-nos pela manhã. Quis pagar-lhe um café. Não aceitou.

Não tive coragem de voltar ao bar. 
Não. Nunca mais.
Nunca mais passei por aquelas bandas. 

De repente, minha memória começou a me pregar peças. O olhar era parecido sim, mas a boca, a boca não lembrava em nada aqueles lábios perfeitos da boneca de porcelana que conheci. Não. Não era ela. Não podia ser ela. Estava bêbado. Aquela mulher era uma qualquer. Fingiu ser minha menina só pra tomar meu dinheiro. Que idiota que fui!

Minha menina permaneceu guardada, intacta, inviolável, linda e pura. Para sempre. No meu coração.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Irreversível

Alguns danos são, por assim dizer, irreversíveis. Podem ser causados por uma palavra na hora errada, uma vaidade, um olhar diferente. Qualquer coisa...

Qualquer coisa depois torna-se repleta de um novo sentido.

O dano irreversível, então, compara-se ao veneno. O corpo luta contra o veneno, mas sendo ele irreversível, cede.

Aos poucos, morre...

sábado, 4 de abril de 2015

Cobranças da Infância

Então eu não tive a vida dos sonhos dos filmes americanos. Não, não tive. Não foi nem perto disso. Mas tem sido divertida, ainda assim. Até porque ainda estou tendo essa tal de vida. Não, não acabou.

Não tive filhos. Eu sei que ainda dá tempo se eu correr. Mas não quero ter. Estou bem feliz sem eles. E, sinceramente, acho os filhos dos outros lindos, nas casas deles. Parece deselegante, eu sei. Pode, também, parecer mal-educado. Mas não é.

Isso sou só eu, tentando ser eu, sem querer justificar, já justificando.

Tenho o emprego que deu certo, que deu dinheiro, que satisfez. E, às vezes, esse mesmo emprego, é o  dos sonhos porque me permito sonhar com coisas possíveis. E me satisfaço...

A casa é a minha cara. Está do meu jeitinho, sim. Toda esquisita, pra você. Mas não é você que mora aqui. Portanto, a casa é linda. E se você acha longe, te digo já: longe é um lugar que você não quer ir.

Você vem de muito longe, cheio de ideias, de ordens, de pensamentos. Você não se encaixa. Eu estou bem. Estou aqui no meu espaço. E quando não me acho, quando não me satisfaço...

escrevo, fotografo, enceno, sonho...

e você?

segunda-feira, 2 de março de 2015

Igor

Eu não gosto de cachorros. Já gostei um dia, mas passou. Na verdade, não tenho muita paciência ou tempo pra esses bichos.

Eles estão sempre à nossa volta. Querem colo, carinho, atenção. Dão trabalho, têm horários, precisam passear. Fazem algazarra quando nos vêem e manha para impedir nossa partida.

Considerando tudo isso, há seis anos atrás, comprei um gato.

Ele trazia a promessa de companhia sem cobranças, independência e até uma certa altivez.

Gato bonito, porte médio, pelagem cinza, olhos alaranjados.

Chamei-o de Igor. Nada original, bem sei. Origem russa, tal qual o Azul Russo que eu queria, mas não encontrei.

Pra ser sincera, não comprei o Igor, troquei-o por um pacote de ração. Achei que era a minha boa ação do ano: adotar um vira-latas.

Além da origem chique, o nome do bichano ainda significa Príncipe da Paz.

Bah! Nada mais distante da realidade do que isso.

Então, no primeiro ano, roeu tudo que podia. Ou melhor, conseguia. Parei de contabilizar as peripécias quando o encontrei com um lençol, recém lavado, no chão da sala.

Sim, sim, subiu no varal e pegou sozinho.

Coisa de filhote, pensei. Assim como as manias de ficar no colo, dormir junto, se jogar no chão de barriga pra cima e miar desesperadamente ao ouvir o barulho do meu carro.

É, ele me espera na porta, me lambe e pede petiscos. Fica em pé, faz cara de fome, come na minha mão.

Enfim, seis anos depois, constato: tenho um cachorro que mia!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

À espera de um milagre (ou manha boba)

Que me faça aceitar. Ou não.

Que me faça entender. Também não.

Que me faça ver. Talvez... Ver que nem é tão importante assim.

Então, que me faça dimensionar de forma justa. Er... nada poético.

Pensando bem, milagre, milagre mesmo, acho que não precisa.

Passou...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Aprendendo a caminhar

De repente acontece. Vai para nunca mais voltar. E você se pega ouvindo Righteous Brothers às duas da manhã, com o rímel borrado e o coração partido.

Sim, é triste. Perder uma batalha é muito triste. Mas perder a guerra é bem pior.

Então, você se levanta com todos os seus pedacinhos colados, cheios de defeitos mas, juntinhos. Hasteia sua bandeira e mostra que está viva.

Foi só mais um passo...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Colando os cacos

A gente lida com implicância, raiva, rancor e até ódio. Mas com desprezo, a gente não sabe o que fazer.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Nunca!

Examinou a sala minuciosamente sem notar qualquer vestígio dos acontecimentos daquela tarde.

Já vai tarde, pensou.

Os encontros fortuitos haviam tornado-se, há muito, desgastados. A antiga paixão dera lugar a algo insípido, sem propósito, nexo ou relevância.

Afastou as almofadas com as costas da mão e deixou-se cair preguiçosamente no sofá. Mal a taça de vinho acabara, resvalou num sono profundo e justo.

Com gosto de guarda-chuva na boca, viu-se, às quatro da manhã, bebendo suco direto da embalagem, numa cozinha iluminada apenas pela pequena lâmpada da geladeira, que permanecia aberta enquanto a sede era saciada.

Passou a mão nos cabelos, admirou seu reflexo no espelho, riu. Enfim, foi pra cama. Ainda com um sorriso nos lábios, adormeceu novamente. 

Antes disso, um pensamento: não me caso.

Não. 
Não me caso.
Nunca!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Diário gerúndio

Aprendendo a esperar. Respeitando os outros. Postergando a vontade. Lidando com a tristeza. Resignando-me.

Encolhendo os ombros. Abaixando a cabeça. Enxugando as lágrimas. Arrependendo-me.

Encarando a realidade. Sufocando as palavras. Desistindo. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Confissões

Eu traí. Aliás, menti. Não, menti e depois traí. É, acho que foi nessa ordem.

Se fingimento puder ser considerado como mentira, agora eu disse a verdade. Caso contrário; fingi, menti e traí. 

Ah! Iludir é o mesmo que fingir ou mentir? Não sei bem. Reformulo, então: fingi, iludi, menti e traí. 

Quem diz a verdade não merece castigo, falavam os antigos. Portanto, declaro o que fiz, sem peso na consciência, sabendo que serei merecedora de distinção e nobreza.

Fingi que tinha mais tempo. Iludi com planos futuros. Menti que não estava doente. Traí quando abandonei.

Ainda, assim, fui digna.
Pessoas são dignas.
Tumores, não.