quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pequenas coisas

Tenho essa caixinha de música com um trechinho de Carmen gravado. Isso e um Santo Antônio. Os dois moram em cima do computador da estação de trabalho que ocupo na repartição.

Ganhei o Santo de uma colega que me acha muito solitária. Ensinou-me, na ocasião, que deveria tirar o menino Jesus dele e devolver apenas depois que casasse. Colei Jesus no Santo Antônio com superbonder por precaução.

Não é desprezo, tampouco heresia. Rezo pra ele sempre que lembro. Só não quero correr o risco daquele menino sumir e a coisa acabar em tragédia.

A caixinha foi comprada por mim num ataque de nostalgia. Toda vez que me irrito, ouço a música. É só um trecho, bem pequeno, aliás.

Mas, às vezes, o conforto vem das pequenas coisas. Um santinho, um pedaço de uma música boa, um carinho, um sorriso.

Tenho apreciado isso ultimamente e está me fazendo bem. Ao menos, é o que eu penso. Pra não pirar, surtar e nem sair correndo, giro a minúscula manivela e ouço a Habanera.

Mulher Invisível

Nunca pensei em mim mesma como uma pessoa comum.

Talvez por ter apreendido o significado da palavra "medíocre" muito cedo. Ou então, para chamar atenção. Pode ser, também, personalidade. Mas desde que adquiri consciência individual, procuro ser diferente.

Eu disse di-fe-ren-te. O que não é sinônimo de estranha. Pende pra original, autêntico, ok?

Pois bem, até os meus quarenta e poucos anos isso não foi muito difícil. Na turma, tinha as melhores ideias. Os projetos mais interessantes. As roupas, confesso, exageradas ou... esquisitas.

Funcionava bem. Mas, de repente, a fórmula perdeu o efeito. Fui de Sensação da Festa à Mulher Invisível num piscar de olhos.

Acordei uma manhã, escovei os dentes, tomei café e saí para o trabalho. Estava no elevador quando percebi. Um senhor entrou, virou-se de costas e tentou ocupar o mesmo espaço que eu.

- Desculpe-me, não a vi.

Como não? Eu estava sozinha no elevador!

Depois desse episódio, comecei a reparar mais nas situações coletivas. Esbarrões, desencontros. Nenhum olhar nos bares e boates da cidade cruzava o meu.

Incrível!

Notei que estava mesmo desaparecendo. Fiquei triste a princípio. Mas logo em seguida, a epifania: Sou livre! Não existo! Ninguém me vê! Essa sensação é impagável, maravilhosa, fantástica. Já estava até me acostumando ao meu novo modo de vida quando me trouxeram pra cá.

Vestiram-me com uma blusa de mangas compridas, amarradas atrás. Nada fashion, muito limitadora, eu diria.

Avisaram que eu não podia sair daquele jeito na rua. Era contra a Lei. Tentei argumentar. Expliquei que minha roupa era invisível, assim como eu.

Não entenderam.

Parece que a magia acabou do mesmo jeito que começou.

Milagre no estacionamento

- Enxuga esse rosto, moça. Tão bonita... Mulher bonita não pode chorar assim não.

Fez efeito contrário. Desabei num choro compulsivo que só era interrompido brevemente por soluços para, então, começar mais forte ainda.

Não conseguia ligar o carro, olhar para o rapaz e nem me mover. Só chorava.

Quando enfim me acalmei, percebi que estava sozinha no estacionamento. Ele havia sumido.

Lembrei daquelas histórias de anjos que surgem misteriosamente e salvam pessoas. Rezei.

Já estava fazendo o sinal da cruz - O completo, é claro! Anjos merecem. - quando avistei o rapaz voltando com algo na mão. Chegou à janela e estendeu um copo para mim.

- Toma, moça. Acho que tá precisando.
- Água?
- Não, pinga!

terça-feira, 28 de abril de 2015

Para todo o sempre

Nam-myoho-rengue-kyo,
Nam-myoho-rengue-kyo, 
Nam-myoho-rengue-kyo, 
Nam-myoho-rengue-kyo, 
Nam-myoho-rengue-kyo.

Sentada, de frente para o altar, as mãozinhas na altura do pescoço segurando uma espécie de terço, olhando fixamente para o pedaço de papel velho pendurado num pedaço de madeira rústica. Bateu o sino, uma, duas, três vezes.

Muito tempo depois, explicou-me que não era bater o sino, mas sim, convidá-lo a soar.

Foi a primeira vez que a vi. Uma simples entrega de livros. Acompanhava a cena atentamente enquanto aguardava o pagamento. 

A casa era a mais diferente que tinha conhecido até então. Não que conhecesse muitas, mas um vizinho mais abastado convidava a molecada da rua vez ou outra para assistir programas “do estrangeiro” em sua casa, então não era de todo ignorante.

O que eu nunca tinha visto mesmo, era uma menina tão bonita como aquela. Parecia delicada, frágil, doce. Podia ser comparada a uma boneca, dessas que se quebram toda se apertadas. De porcelana, acho. Dessas, que tem a boquinha bem pequenina, pintada à mão, num tom vibrante de vermelho.

Subitamente fui tirado do transe.

- Não senhor, não trouxe o troco. Imagina! Fica... fica um desconto pro senhor. Pode ser? Assim vira freguês.

Desconto que, óbvio, sairia do meu salário! Dinheirinho muito bem pago se fosse chamado para outra entrega ali. Aliás, já estava bem pago só com aquela primeira visita.

Meses se passaram e nada de voltar a aquele endereço. Nunca mais pediram nada. Achei até que haviam mudado de cidade. Sonhava com os olhinhos puxados e acordava suado, com o coração disparado. 

Ah! Foi nessa época também que aprendi o que era um coração disparado. Nenhuma corrida, jogo de futebol ou bronca do meu pai tinham o poder daqueles olhinhos puxados. Pensar neles já fazia o tal do coração quase pular pela boca.

A imagem da menina acompanhou-me por toda a adolescência. Depois, acabei esquecendo. Ocupei-me com outros assuntos, estudos e alguns namoricos. De quando em quando, após uma separação um pouco mais doída, ela voltava.

Sonhava que ela aparecia na livraria, pegava um livro ao mesmo tempo que eu e nossas mãos se tocavam. Ali, acontecia a paixão, enfim, correspondida. Olhávamo-nos. Um olhar longo, demorado, profundo. Beijávamo-nos antes de qualquer palavra ser pronunciada. 

Depois disso, várias fantasias com enredos rebuscados. Mas no final, sempre nos casávamos. Uma casinha boa com cerca branca e varanda, bichos no quintal e filhos barulhentos correndo nela.

Nunca aconteceu.

Estava recém separado de Lúcia quando finalmente a encontrei. Demorei um tempo para reconhecê-la. Envelhecera, mas os olhos, os olhos eram os mesmos. Aqueles olhinhos infantis que um dia vi, tão esperançosos, fixos no papel velho, tornaram-se mais vagos, um pouco perdidos, talvez. Mas tinham algum o brilho. Com um pouco de esforço, era possível notar aquele antigo brilho tão especial.

O pai falira pouco depois daquele ano em que a conheci. Cresceu tentando estudar, trabalhando aqui e ali para ajudar a família. Era a mais velha dos sete. Aos poucos, foi desistindo. Dos estudos, dos trabalhos, da vida.

Morava na rua 8, mas fazia ponto na baixada. Naquele dia estava a passeio no bar. Quando, por fim, lembrou de mim, ofereceu-me um programa com desconto. Pela “quase” amizade de infância que tiveram, disse com um sorriso irônico. Acho que se agarraria à qualquer coisa que tirasse seus pensamentos da realidade em que vivia e a levasse para os anos felizes da infância.

Aceitei, constrangido, mas aceitei.

Tentei uma ou duas vezes. Não consegui. Conversamos a noite toda numa espelunca que ela chamava de hotel e fazia preços fantásticos conforme a quantidade de fregueses que ela levava durante a semana. Despedimo-nos pela manhã. Quis pagar-lhe um café. Não aceitou.

Não tive coragem de voltar ao bar. 
Não. Nunca mais.
Nunca mais passei por aquelas bandas. 

De repente, minha memória começou a me pregar peças. O olhar era parecido sim, mas a boca, a boca não lembrava em nada aqueles lábios perfeitos da boneca de porcelana que conheci. Não. Não era ela. Não podia ser ela. Estava bêbado. Aquela mulher era uma qualquer. Fingiu ser minha menina só pra tomar meu dinheiro. Que idiota que fui!

Minha menina permaneceu guardada, intacta, inviolável, linda e pura. Para sempre. No meu coração.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Irreversível

Alguns danos são, por assim dizer, irreversíveis. Podem ser causados por uma palavra na hora errada, uma vaidade, um olhar diferente. Qualquer coisa...

Qualquer coisa depois torna-se repleta de um novo sentido.

O dano irreversível, então, compara-se ao veneno. O corpo luta contra o veneno, mas sendo ele irreversível, cede.

Aos poucos, morre...

sábado, 4 de abril de 2015

Cobranças da Infância

Então eu não tive a vida dos sonhos dos filmes americanos. Não, não tive. Não foi nem perto disso. Mas tem sido divertida, ainda assim. Até porque ainda estou tendo essa tal de vida. Não, não acabou.

Não tive filhos. Eu sei que ainda dá tempo se eu correr. Mas não quero ter. Estou bem feliz sem eles. E, sinceramente, acho os filhos dos outros lindos, nas casas deles. Parece deselegante, eu sei. Pode, também, parecer mal-educado. Mas não é.

Isso sou só eu, tentando ser eu, sem querer justificar, já justificando.

Tenho o emprego que deu certo, que deu dinheiro, que satisfez. E, às vezes, esse mesmo emprego, é o  dos sonhos porque me permito sonhar com coisas possíveis. E me satisfaço...

A casa é a minha cara. Está do meu jeitinho, sim. Toda esquisita, pra você. Mas não é você que mora aqui. Portanto, a casa é linda. E se você acha longe, te digo já: longe é um lugar que você não quer ir.

Você vem de muito longe, cheio de ideias, de ordens, de pensamentos. Você não se encaixa. Eu estou bem. Estou aqui no meu espaço. E quando não me acho, quando não me satisfaço...

escrevo, fotografo, enceno, sonho...

e você?