domingo, 22 de janeiro de 2017

Rima pobre

João, que tinha medo de trovão, conheceu Maria, que nunca saía de dia, e logo a convidou para um café. O café, que ficava em Tatuapé, era bem conceituado e Maria, que não tinha no guarda-roupas nada adequado, pediu à prima um modelito emprestado.

A prima, nada besta, pediu para acompanhá-la. João, muito ansioso, marcou para sexta. Sexta foi um dia chuvoso. João, muito medroso, cancelou.

Importante registrar que mandou mensagem, resolveu não ligar. Maria, que já estava na rua, chamou a prima para ir num bar. A prima foi e as duas se arranjaram por lá. No dia seguinte, Maria já estava a namorar. João ficou sem Maria e sem a prima que nunca chegou a conhecer.

As duas, hoje, moram na mesma rua, com seus maridos, cachorros e filhos, e se divertem a valer.

João?
João nunca mais foi visto não.
Perdeu-se naquele dia chuvoso de verão.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

#gratidao

Desejo que você receba tudo o que merece do Universo, não o que deseja. Às vezes, nossos desejos são muito simplórios se comparados ao que o Criador tem a nos oferecer.

E você, como criatura maravilhosa que é, não deve ficar restrita ao que pode imaginar. Merece benesses inimagináveis.

Agradeço hoje e sempre pelo nosso encontro. Não é todo dia que temos a sorte de encontrar bons professores na vida.

(eu tive)

E com sotaque irlandês falsificado, te digo:
-  Until we meet again, may God hold you in the palm of His hand.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Na terra do coração

Nave, ninho, poço, mata, luz, abismo, plástico, metal, espinho, gota, pedra, lata.

Passei o dia pensando – coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só som-cor, ação – repetido, invertido – ação, cor – sem sentido – couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.

Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.

Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “I´m too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.

Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.

Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração é teu.

(Caio Fernando Abreu in Pequenas Epifanias)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Balada da despedida

Não é calafrio nem pressentimento ruim mas, assim do nada, deu uma vontade louca de me despedir das pessoas. Um desejo intenso de avisar que estou voltando pro meu planeta. É, aquele, a anos luz daqui.

Vontade de abraçar gente que não vejo há tempos e dizer o quanto já foram importantes pra mim. Pedir desculpas, não por qualquer coisa, mas por todas as coisas que sei que fiz e me arrependo.

Necessidade de fazer as pazes com alguns também. Ir tranquila, sabe? Planeta distante, combustível caro, essas dificuldades de mundos não muito desenvolvidos. Não rola uber nave. Vai saber quando volto ou se volto.

Então, numa espécie de manifesto de adeus digo pra vocês: muito obrigada por tudo!

E esse tudo foi: o carinho; os bons momentos que me fizeram feliz e os maus, que me ensinaram ou tentaram; a paciência; o ombro amigo; a bronca; o riso frouxo; a companhia; a cumplicidade; o amor e várias outras coisas indizíveis.

Adeus.
Gratidão.
Eu tô voltando pra casa!

Aprendizado III

Ando devagar
porque já tive pressa
E levo este sorriso
porque já chorei demais

Não bato portas. Fecho-as gentilmente, enquanto outras se abrem. Espero, pacientemente, as boas novas. Faço tricô, limpo a casa, cuido de mim. Mantenho a rotina. 

Não faço planos.
Mentira!
Desfaço planos.

O universo ri enquanto você faz seus planos. Ouvi. Emudeci. Quero verdadeiramente entender em quais planos devo transitar.

Trânsitos. Observo e tendo compreender. Carros, motos, bicicletas e planetas me atropelam. Pego o compasso, o transferidor, a folha e o lápis. Coloco os trânsitos em seus devidos lugares.

Quadrados me enquadram ao nascer e ao viver. Quero a Roda. O Sete. Triângulos mostram o meu lugar. Hermética. Onde está a ponte para o Nada?

Nada me faz feliz.
Nada é agora.
Nada, é um foco e um objetivo.
Nada... diz tudo!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Aprendizado II

Aprendi que se você quer algo verdadeiramente, deve guardar esse desejo para si.
Aprendi que se desejar demais esse algo cria um apego nocivo.
Aprendi que apego traz sofrimento.
Aprendi que se despende mais energia com sofrimento do que com felicidade.
Aprendi que o caminho para a felicidade é o amor.

Enfim, aprendi que amar é não desejar, não se apegar, não sofrer.

Amar, é libertar.
Então me livro de você porque te amo.
Espero que entenda.

Aprendizado

Dentro de mim, existe um pedacinho que é chinês. Esse pedaço, apesar de ser bem pequenininho, é superimportante.

Ele não liga pra filas e entende que imprevistos acontecem. Fica muito feliz só de ver o sol nascer. Se regozija em experimentar tudo quanto é novidade. Sabe que apesar de não ser insubstituível, é único. Vê a paisagem maior. Medita só no alto da Muralha. Fica em paz quando ouve o tambor.

Fui pra longe, bem longe, e me encontrei lá. Aquela terra desconhecida, com letras ininteligíveis pra mim, trouxe aproximação, reconhecimento, verdade. Trouxe também silêncio, quietude, felicidade.

Posso demorar a voltar ou não mais pisar lá, mas a China nunca vai sair de mim. Povo simpático e disposto a ajudar. De passos rápidos, riso tímido e olhar curioso. Chineses são diferentes, especiais.

Ir à China não é simplesmente fazer uma viagem turística. É iniciar uma jornada para dentro de si. É mágico, surpreendente.

Carolina...

Enquanto a vida real não começa, enceno esse faz-de-conta. Acordo, movo-me o tempo todo de um lado pro outro, como se soubesse o que faço. Espero que algo aconteça. Torço por mudanças. Nada se altera.

Faço planos. Estabeleço metas. Assim, que a vida começar, eu... Tão logo a vida se inicie, eu... Mas esse começo não acontece nunca.


Lá fora, amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
Só Carolina não viu

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Quase soneto para um amigo amado

Te afastei de mim por muito tempo.
Vi espelho e não gostei da imagem.
Hoje, te quero sempre,
De toda maneira.

Sinto orgulho e elogio,
Admiro e gosto de você.
Sua mudança é nítida,
Cresceu e encontrou o seu lugar.

Minha mudança
Não foi tão óbvia,
Aprendi a enxergar.

Daqui pra frente,
Um sentimento,
Respeito.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Desejos de um dia dos namorados

Que o amor seja só o amor
sem qualquer incumbência além desta
que já não é fácil. 

Que para outros sentimentos ou necessidades, 
sejam usados outros nomes 
com o objetivo de não sobrecarregar o amor. 

Não porque gera fardo, 
mas porque o amor em si mesmo 
já se basta e se explica.

Que o amor seja só o amor e, 
por si só, seja belo, digno e verdadeiro.

Que você tenha amor e saiba doá-lo,
porque amor não se troca nem se empresta. 

Mas se você não tiver amor algum, 
que alguém te ensine o que é amar 
apenas te amando, 
sem desejar nada em troca.

Feliz dia dos namorados a todos que têm amor, 
aos que sentem falta de amor
e aos que ainda vão descobrir o que é esse tal de amor.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Rótulos, chatices e etc...

Feministas são chatas. Machistas são chatos. Sexistas, racistas, mortadelas, verde-amarelos, torcedores do time XPQ. Rótulos e mais rótulos. Todos têm razão. Todos têm algo a dizer. Todos têm sua verdade. Gente que julga e condena. Gente que está esquecendo o que é ser gente. Somos todos iguais. Somos todos irmãos.

Balela, né? Papo chato. É, também penso isso quando começo a ler esse tipo de texto. Isso me lembra qualquer coisa de autoajuda que li no passado. É essa minha sensação. E devo ter lido mesmo. Não acho autoajuda ruim, afinal, se eu não me ajudar, quem vai?

Enfim, tá tudo muito chato, né? Poxa, por que eu não posso mais fazer uma piada de preto? De mulher gostosa e vagabunda? Por que eu não posso mais sacanear os outros com a chancela do humor?

Porque não!

Ok, porque não, não é resposta. Então, porque é opressivo, degradante, destrutivo. Mas se pensa que isso é uma baboseira, que é só uma piada, até entendo. Só me responda uma coisa: e se fosse com você?

sábado, 28 de maio de 2016

Só pra você... ou não!

Hoje acordei com uma vontade louca de escrever um texto pra você. É verdade, pra você que está aí lendo. Juro!

Você merece um texto só seu, que trate das suas agruras, suas alegrias, seus interesses. Enfim, um texto que, ao ler, você se reconheça, sinta-se pleno, retratado.

Então, sentei-me à mesa com toda a paciência do mundo. Trouxe suco de laranja, croissant e cigarros. Abri o laptop, acessei a página onde são escritos os textos e fiquei observando o cursor piscar.

Pensei em estórias fantásticas. Não quis. Fantasia não é a sua cara. Você é real. Está aí lendo esse texto enquanto eu divago.

Tentei algo sentimental. Desisti. Tão difícil. Sei que você já passou por muitas dores e, também, teve várias felicidades. Mas esse momento que você vive hoje é só seu. Não consigo me intrometer e muito menos te expor.

Pensei, tentei, escrevi, apaguei. Até cansar!

Não, não sei escrever pra você. Desculpe-me. Escrevo pra mim. Escrevo porque transbordo. Escrevo porque preciso extravasar. E se você não gosta do que lê, sinto muito. Sinto muito mesmo.

Veja como um defeito, uma incapacidade ou algo a se resolver. Não quero falar da vida alheia, só da minha...

Desabafo

É absurdo, em pleno século XXI, ainda escutarmos que se uma mulher foi estuprada é porque facilitou. Saiu de casa a que horas? Foi se encontrar com o namorado? Bebeu? Usou roupas curtas? Ah, deu mole!

Notícias são divulgadas com manchetes de “suposto” estupro porque, sim, a vítima precisa provar que sofreu a violência.

E se as mulheres denunciam, unem-se contra o abuso, é mais um motivo para a sociedade doente e hipócrita denominá-las: loucas, exageradas.

Essa cultura nojenta começa em casa ao permitir que o filho fique assistindo televisão e a filha vá ajudar nos afazeres domésticos. Começa no mamãe faz pra você, querido, não precisa levantar. Começa na segregação por sexo.

Não acredito que se deva tratar todos iguais, pois pessoas são diferentes. Mas a diferenciação no tratamento deve ser uma forma de respeito. Tratar distintamente de acordo com as necessidades, com a forma de aprendizado, com a sensibilidade de cada um.

É muito triste debater o assunto de violência sexual e pensar: quem nunca? A campanha “Meu primeiro assédio” teve várias críticas por mostrar uma realidade que ninguém quer ver. Nelson Rodrigues é muito mais real do que se imagina.

Afinal, mulher, quem nunca?

Quem nunca atravessou a rua porque viu um cara andando na sua direção? Quem nunca levantou o vidro no carro pra não escutar uma piadinha? Quem nunca se constrangeu ao entrar em um lugar onde só estavam apenas pessoas do sexo oposto?

Os meus amigos responderiam não à todas as respostas. Infelizmente, essa não é a realidade das mulheres. À nós, resta reclamar, lutar e, nunca, nunca mesmo, calarmo-nos, mantendo a esperança de um dia sermos ouvidas e respeitadas.

Scrum your life

Tenho estudado uns assuntos diferentes que vêm me torrando os miolos. Dentre eles, computação. Linguagens de programação, frameworks, guias de melhores práticas e tudo mais que encontro disponível na Internet na sessão de TI.

O tema é vasto e interessante. Além disso, tenho descoberto que posso aplicar esse conhecimento em outras áreas.

Primeiro, comecei a utilizar no meu trabalho. Definição de escopo, técnicas de estimativa e priorização para o dia. Gente! Isso organiza a cabeça. Reduz o desgaste. Juro! Depois, parti para a vida pessoal: estórias de usuários. Apaixonei-me! Que maravilha!

Eu, como ser vivente e normal, quero ser feliz. Eu, como ser humano, quero ser tratada com dignidade. Eu, como mulher, quero respeito!

Depois de definir, é só separar em tarefinhas menores e se programar.


sábado, 9 de abril de 2016

Do que você se arrepende?

Acordei às duas da manhã pensando nela. Aquela conversa que nunca tivemos repete-se de tempos em tempos na minha cabeça.

Passaram-se cinco anos desde que ela se foi. Às vezes, sinto como se fosse ontem. Outras, parece que ela nunca existiu.

Minha mente me prega peças. Num dia choro, no outro não lembro.

Queria ter amado mais, conversado mais, convivido mais. Tudo mais. E também, tudo menos. Julgado menos, cobrado menos, me afastado menos.

Não tive maturidade na época. Agora tenho. Mas o tempo passou. E ela se foi...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Lampejo

Então ele me disse Fim. Não disse não. Disse fim. E o chão se abriu. Mas se fechou em quinze minutos. E eu sou mulher de ficar me lamuriando, chorando pelos cantos?

Já vai tarde, pensei.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Simplificando a vida

Quando eu for simples, não me preocuparei com o que pensam de mim. Doarei todas as roupas que têm a função de me fazer passar por algo que não sou. Também as bolsas, sapatos e acessórios que compõem as fantasias e se entulham pela casa.

Direi não aos arquétipos.

Quando eu for simples, manterei o pensamento positivo. Não exagerarei as dificuldades ou criarei obstáculos para me impedir de ir adiante.

Direi sim ao autoconhecimento.

Quando eu for simples, ouvirei com atenção os que estão a minha volta. Serei boa e generosa, principalmente, com os que não tiverem o mesmo cuidado comigo.

Direi não ao julgamento precipitado.

Quando eu for simples, não precisarei pensar em nada disso.

Amanhã.
Amanhã serei simples.

terça-feira, 8 de março de 2016

Coleções

Conchinhas. Na tenra infância. Catava todas que conseguia carregar no baldinho de plástico. Separava por cor, lavava e guardava num jarro grande de vidro.

Logo depois, papéis de carta. Tinha de todas as cores, formas e perfumes. Raros. Repetidos. No dia certo, levava a pesada pasta para escola e me sentava no meio do pátio para trocar com as coleguinhas.

Por um tempo breve, formas de gesso. Na verdade, gesso em forma de pernas e braços. Quase dez. Até que jogaram fora. Mau cheiro, alegaram. E assim perdi todos os recados queridos e os desejos de melhoras.

Hoje, sentimentos, sensações, emoções. Nas caixas grandes, um mundo de coisas boas. Lembranças de viagens; pessoas que passaram, mas marcaram; primeiros beijos; aquele exato momento em que aconteceu a amizade; os amores.

Mas nem tudo na vida são flores, em caixas pequenas, as desilusões; mágoas; rompimentos; traumas; infelicidades. São várias, mas todas muito pequenas. Tranco-as bem e jogo as chaves fora.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Clarice ou Cecília?


Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
(Cecília Meireles - Isto ou aquilo)

Isto ou aquilo. Sempre. Mundo de escolhas. Eu não escolho. A escolha é da Sofia. Eu e os outros. Nunca. Escolhas. Isto ou aquilo.

Escolho Clarice: E tinha agora a responsabilidade de ser ela mesma. Nesse mundo de escolhas, ela parecia ter escolhido.

Eu ou os outros.
Sempre.

O som do tambor

O sino tocou.

Acordei cansada de esperar aquilo que nunca chega. 

Acendi incensos pra Buda no Templo do Lama. Ele disse que as respostas estão em mim. Pedi um GPS pra encontrá-las. Não sei usar mapas.

Buda riu. Orientou-me a ficar em silêncio.

Ouvi o som do tambor.

Perguntinha

Eu vou pra Itália e você questiona.
Eu vou pro Caribe e você tem inveja.
Eu vou pra NY e você detona.
Eu vou pro Mardi Gras e você condena.
Eu vou pra Malta e você duvida.
Eu vou pra China e você critica.

E você que não vai pra lugar algum, por que não vai pro inferno?

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Amanhã...

07h00m. Despertador. Mamadeira. Vó. Uniforme. Levanto resmungando e faço “o de sempre”. Hoje não vou perder o ônibus, penso. Menos uma bronca. Chego na escola com sono. Não devia ter assistido filmes até tarde. Tarde. Agora é tarde, penso.

Os coleguinhas querem brincar, querem meu lanche, querem conversar. Eu só quero dormir. Dormir e esquecer. Esquecer que tenho de levantar cedo todos os dias.

Dezoito anos na mesma empresa, no mesmo cargo,  as mesmas pessoas. Sempre mais do mesmo. Vida monótona. Aliás, era monótona,  até que ele chegou. Parecia amigo, interessado, inteligente. Parecia...

Ninguém engana muita gente por muito tempo, alguém disse.

Ele é mais novo, cronologicamente, mas tem comportamento de velho. Ranzinza. Chato mesmo! Às vezes, não. Puxa meu cabelo e rouba meus doces. Volto pra casa chorando. Sempre. Vovó quer saber porquê. Não conto. Tenho vergonha.

Vergonha de dizer que ele está errado. E me calo. Ele que deveria se sentir mal por falar tantas asneiras. Mas ninguém se arrisca a dizer nada. Ele abre a boca e tos outros abaixam a cabeça. Tenta se impor. Apenas se expõe.

A bola é dele e, se ele não escolhe o jogo, ninguém brinca.

Nem sempre gosto do jogo. Tento não me importar com isso. Resisto às provocações. Sou a última a ser escolhida. Queimo todos. Devolvo a bola com um sorriso maroto. Campeã. Ganho o direito de escolher o meu time na partida seguinte. Ele emburra. Diz que tem de voltar pra casa. Leva a bola.

Minha casa é meu santuário. Entram pessoas que contribuem. Comida, bebida e alma. Esse é o ingresso. A maioria não tem. Gente perde a alma quando cresce, penso.

- Eu nunca vou crescer! Ele gritou. Os pais dele se separaram. Quis consolar e o abracei. Os meninos o viram chorando. Chamaram de mulherzinha. Ele brigou comigo.

Disse-me que era gay e, por isso, tinha muito a provar. Provar da vida, indaguei. Não, a si mesmo, respondeu. Foi o único contato mais próximo. Estava bêbado. Negou depois. Fingi que não lembrava. Melhor assim.

23h00. Filmes novamente.
Preciso dormir.
Amanhã tenho de...

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sem noção de direção

Eu uso esses ônibus turísticos vermelhinhos porque perco muito tempo me perdendo pelas ruas das cidades que visito.

Acho prático. Sobe e desce quando quer, pode valer por um ou dois dias e sempre vem uns brindes.

Mas, mesmo com todas essas facilidades eu ainda consigo me atrapalhar.

Aqui em Praga tem vários trechos que só se visita a pé. A praça Venceslau é um desses pontos.

Então, toda esperta, resolvi seguir uns velhinhos que desceram na Estação Central, pensando que eles também queriam chegar na praça.

Fui parar no banheiro. Disfarcei, fingi que sabia onde ia e segui reto. Passeei por uns 20 minutos em um parque e enfim, encontrei o lugar (seguindo uma placa do  Starbucks).

Os velhinhos já estavam lá tirando fotos. Acenei, sorri e fui tomar um café (ainda com cara de quem sabia o que estava fazendo) para, só depois, turistar.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Impermanência

Eu te amo e não vivo sem você. Hoje. Amanhã, não sei mais o seu nome.

Dependo do meu emprego. Não consigo nem imaginar o que fazer se o perder. Hoje. Amanhã, sou nômade.

Defendo essa opinião com minha vida. Inflexível, na certeza de ter razão. Hoje. Amanhã, condeno.

Roupas, amigos, amores, idéias e rancores, tudo é efêmero. Menos o meu umbigo!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Suzhou, a Veneza Chinesa (que não conheci)

Suzhou é linda, mas o passeio foi horrível. Nada de inglês. Cidade grande com pontos turísticos afastados. Saga!

Mas me adianto. Vamos ao início.

Decidi conhecer a Veneza Chinesa, Suzhou. Fica a poucos quilômetros de Xangai e, se você escolher bem o trem, é possível chegar em apenas trinta minutos. Verifiquei horários do metrô e dos trens, escolhi a estação mais vazia, anotei tudo e dormi.

Acordei bem cedinho para aproveitar o dia na cidadezinha. Tomei uma xícara de café no quarto do hotel mesmo e parti, empolgadíssima com a aventura.

Surpreendentemente, tudo deu certo. Cheguei rápido à estação, comprei o bilhete com facilidade e embarquei. Ainda tive tempo de comer no trem, pois eles tem serviço de... bordo? Enfim, perfeito!

Meia hora depois já estava em Suzhou, mas não reconheci absolutamente nada do que havia visto nas fotos. Pela internet, o local parecia-me muito mais bucólico. Bom, não iria voltar direto da estação para Xangai, então, resolvi procurar um balcão de informações turísticas ou alguém que vendesse passeios de um dia pelos arredores.

Consegui, rapidamente, um mapa em inglês e um passe de ônibus. Só! Não foi possível obter qualquer auxílio a mais. Saindo do quiosque, fui abordada por um senhor com fotos - iguais as da Internet - e uma promessa de visita guiada com explicações em Inglês. Agora sim, pensei, vai dar certo. Comprei o pacote e, em seguida, tentei devolver o cartão. Sem devoluções, a mocinha respondeu, mais com gestos do que palavras. Ok, mais 15 yuans no fundo perdido. 

Ainda feliz, segui uma senhorinha que me levaria ao ponto de encontro para conhecer as quatro atrações que havia escolhido. Foi aí que começou!

Colocaram-me numa van, sozinha, com um motorista que só falava Mandarim. Ele dirigia feito um louco, fumando e gritando ao celular, enquanto dava voltas na estação de trem. Após a terceira volta, parou no mesmo lugar em que me pegou, abriu a porta e disse algo. Algo que não vou saber nunca o que foi, óbvio.

Continuei sentada. Pensei que pegaríamos mais alguém. Por fim, percebi que devia descer. Ele mostrou o meu recibo e o dinheiro que havia pago. Apontou outro motorista. Com algum esforço, entendi que era pra eu entrar em outra van.

Olhei pro motorista novo que estava com mais cara de interrogação do que eu e perguntei: English? Sacudiu a cabeça, os braços e se afastou. Olhei para o motorista louco. Ele resolveu gritar com o motorista novo. O novo, gritou também. 

Nesse momento, achei que era a hora de entrar na briga. Resolvi gritar que queria meu dinheiro de volta, que não iria fazer mais passeio nenhum e alguns impropérios que consegui me lembrar como eram ditos em inglês. Sim, optei pelo inglês, pois caso alguém conhecesse a língua, poderia vir em minha defesa. 

Síndrome de donzela em mode ON. Não rolou. Ninguém para ajudar. Voltei ao modo Fiona. Gritei, gritei e gritei mais alto do que os dois chineses. Por fim, quando o nervosinho deu bobeira, tomei o meu dinheiro da mão dele, devolvi o meu recibo, falei meu último palavrão, virei as costas e saí andando.

Vi um Shopping pegado à estação. Caminhando nesse sentido, uma placa. A do ônibus. Quinze yuans recuperados do fundo perdido. O ponto inicial dos ônibus turísticos era ali e, descobri, meu cartão valia também para os ônibus comuns que faziam a interligação dos passeios. Nesse momento, escolhi ver somente um lugar: a vila onde ficam as gôndolas. 

Cheguei no ônibus certo com muita mímica, ajuda de transeuntes, mostrando onde queria ir no mapa. O cartão não funcionou. Levaram-me nas promotoras de venda do cartão. Mais mímica e nada. Elas tentavam explicar como o cartão funcionava. Eu tentava dizer que não, ele não funcionava. Por fim, fizemos um teste juntas. Entenderam. Ganhei um novo cartão. Voltei para o ônibus.

Quarenta minutos rodando pela cidade e, por fim, o guia me manda descer com uma chinesinha bem simpática. Peguei o mapa e apontei, ele assentiu. Ótimo. Descemos. Agora é só achar o barco, fazer o   cruzeiro e me divertir, não é? Não!

Desci num jardim. O cruzeiro ficava a alguns quilômetros dali. Quem queria ver o jardim era a chinesa, o guia só tinha a intenção de se livrar de mim - a turista louca que apontava um mapa que eles não entendiam.

Quando em Roma, faça como os Romanos. Quinze minutos para encontrar a entrada do jardim e mais três horas passeando lá dentro. Caminhamos, tiramos fotos, rimos, passeamos de barco e não conseguimos entender absolutamente nada do que dizíamos uma à outra.

Por fim, bem cansada, expliquei que queria voltar. Saímos do jardim e fomos esperar o ônibus. Outra saga. Atravessa rua, pergunta explica, atravessa de novo, muda de direção, enfim, ônibus. Jurava que ela tinha entendido. Mas, uns dez minutos depois, outra atração, outro jardim.

Já eram quase cinco da tarde. Em breve, ficaria escuro e eu precisava retornar à Xangai. Sem muitas esperança, dirigi-me ao balcão de informações. Can I help you? Isso foi música para os meus ouvidos. Em segundos sintetizei o que queria fazer, onde precisava ir e um agradecimento sincero à chinesinha que, até então, me acompanhava tentando fazer as minhas vontades.

Saí de lá com o número do ônibus e o nome da parada escritos em Mandarim num papelzinho e fui mostrando pela rua até descer na frente da estação. Mais uma saga para comprar passagem, trinta minutos de viagem e, sim, Xangai! 

Mais perto do que Suzhou, fica Qibao. Apenas três metrôs da estação Central, onde eu estava. Fui. Queria ver os canais, as pontes, as gôndolas.

Lá, me virei sozinha. A parte histórica é ao lado do metrô e tudo é sinalizado. Comprei mimos pros bebês da minha prima utilizando a língua “calculadora”. É assim: você aponta o que quer comprar, eles digitam o preço e te entregam, você digita o que quer pagar, até chegar a um acordo. Divertidíssimo!

Passeei, comi e, quando escureceu, fui para o hotel. Realizada, mas sem ver as gôndolas! Não, não tem em Qibao...

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Ando meio desligada...

Cheguei de volta à China (continente) sem a passagem de saída do país e com permissão para ficar só mais um dia. Não lembrei de imprimir.

Na imigração, o paciente mocinho me colocou num box, cheio de guardas em volta, até que eu conseguisse acessar o aplicativo da Companhia aérea.

Notando minha dificuldade, sugeriu que eu acessasse meu email pelo computador do aeroporto. É Gmail, eu disse. Ele sorriu sem graça, respondeu que esse não tinha jeito.

Enfim, o app funcionou, mostrei as minhas informações toda contente. E o número do vôo? Ele indagou. Essa página não carregava.

Cocei a cabeça, olhei pro box e ri. Mais dez minutos sentadinha pra pensar no que fiz.

Mexe pra cá, pra lá, entra num site, em outro e finalmente encontro o tal número. Dei um pulo com o celular na mão e, agora sim, mostrei o que ele queria.

O rapaz riu, devolveu meu passaporte e desejou boa viagem. Só aí que fui sacar que poderia ser presa se não achasse nada.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Xi'an: é ruim, mas é bom II

Hoje dei folga de verdade para os meus pés e paguei fui excursão, dessas com guia e tudo.

Um tremendo saco!

Hora pra comer, forçação de barra pra comprar em lojas caras, poucas pausas para apreciar as paisagens e quase nenhuma pra fumar.

Vi, enfim, os Guerreiros de Terracota, mas me arrependi inúmeras vezes de não ter pedido um áudio guide na entrada do museu. A voz do guia me irritava profundamente.

O ponto alto foi ter conhecido um casal muito simpático da Califórnia. Mexicanos animados e falantes. Mostrei um pouco do meu portunhol e rimos muito.

Viajar só tem dessas coisas. A gente tá tão aberta ao novo que se diverte até nas roubadas.

Xi'an: é ruim, mas é bom

Não andava de bicicleta faz uns 20 anos. Tinha esquecido a sensação maravilhosa do vento no rosto. Então, cansada e com os pés doendo ainda de Beijing, achei que seria perfeito pra percorrer os 14km da muro que cerca a cidade.

Aluguei a bicicleta e marquei bem o local em que deveria devolvê-la. Quase duas horas depois, tinha completado pouco mais de uma volta, mas como o tempo iria terminar, retornei para devolver a bike.
Morrendo de fome e pensando em ter um banquete chinês na praça de alimentação do Shopping ao lado do hotel, desci pelo portão e saí andando sem prestar muita atenção aonde estava.

Bom, foi aí que a jornada começou. Saí pelo portão errado, óbvio. Além disso, claro que fui para o lado errado. Andei mais de meia hora para, então, perceber que não reconhecia absolutamente nada ao meu redor.

Fiz todo o percurso de volta, parei em frente ao portão leste - que, pelos meus cálculos, deveria ser o sul - e tentei rumar para o lugar certo.

Encontrei um parque lindo que fica colado ao tal muro. Tinha um mapa com a indicação das ruas e dos portões, todo escrito em mandarim.

Andei um bom tempo pelo parque até que resolvi tentar pegar uma espécie de táxi. Apontei no meu mapa (incompleto, justifico-me) onde queira ir. O motorista me deixou do outro lado da rua, num ponto de ônibus e me cobrou 5 yuans por isso. Ri sozinha.

Mais uma vez, voltei para o parque. Oito quilômetros, uma rua de artes e duas derrotas depois, achei o hotel.

Não gosto de me perder, porém, isso é tão corriqueiro que aprendi a apreciar o que encontro no caminho enquanto tento me encontrar.

O passeio inusitado foi o melhor do dia.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

East Nanjing Road - Line 2 - ShangHai

Olho para o lado na escada rolante e vejo uma camiseta de um time de futebol da Espanha. Puxo conversa 

- Spanish?
- Yes...
- Please, speak!
- Hola! És española también?
- Brasileña.
- Hahahahahaha... Chino, chino, chino?
- Si...

Risos.
Depois de quatro dias sem falar uma palavra em português essa conversa de um minuto foi a minha salvação. 

Surpresa em... Beijing?

Li tanto sobre as intermináveis negociações com turistas, o trânsito caótico de Pequim e seus taxistas fujões que fiquei desesperada.

Ainda no Brasil, fiz extensa pesquisa sobre o acesso à Grande Muralha. Para todas as outras atrações, usaria o metrô. Mas para essa, precisaria de ajuda, muita ajuda.

Encontrei o nome e o email de um guia local num blog de uma brasileira que mora em Xangai. Indicação confiável, pensei. Mesmo assim, precisei negociar bastante.

Quando cheguei, finalmente, em Pequim, estava me sentindo completamente trouxa. Mais uma roubada, era só o que vinha na minha mente.

Além disso, apareceu uma excursão gratuita à Cidade Proibida, realizada por alunos de História, em parceria com um site de turismo, que precisavam treinar inglês. Por muito pouco não cancelei o tão sonhado passeio.

No dia marcado, acordei quatro horas antes. Ansiosa. Comprei água, café, chips e coloquei tudo na mochila. Às nove horas, lá estava ele: Xiaowei. Inglês perfeito, bem melhor do que o meu, simpático e prestativo.

Levou-me, primeiro, ao lugar turístico, que depois descobri não ser tão turístico assim. Take your time. I'll take a nap, falou ao me deixar no ponto do ônibus que me levaria à Muralha.

Mutianyu. Linda. Impassível.

Duas horas depois, retorno ao estacionamento para partirmos em direção a um ponto menos explorado.

Huanghuangcheng. Levei meia hora para pronunciar de maneira quase correta. Quis desistir mais uma vez quando percebi onde estava me metendo.

Ele me encorajou a subir. Riu do meu medo de altura. Colheu tâmaras no caminho e me explicou sobre a população local.

Enfim, subi. Apavorada, sozinha e, depois,  extasiada.

O lugar ainda não foi aberto a turistas. É necessário alguém que conheça bem o local. Passei duas horas caminhando pela Muralha. Um silêncio incrível. Paz.

Só isso já teria compensado a viagem. Mas ainda almocei num restaurante típico, comendo comida decente, boa e com preço justo.

Voltei dormindo. Xiaowei colocou sua seleção de Bob Dylan pra embalar meu sono.